domingo, 7 de outubro de 2018

MITO?


Um deputado do baixo claro, em partido nanico, com 8 segundos de propaganda na televisão, que passa mais da metade da campanha em um hospital, e que mesmo assim é provável que ganhe o primeiro turno das eleições da 4ª maior democracia do mundo.

Um mito eleitoral, certamente. Quer você goste dele ou não, quer o chame de mito ou de coiso ruim. O fato é que vimos uma onda eleitoral surpreendente.

O que explica o fenômeno Bolsonaro?

Políticos que antecipam tendências sociais auferem enormes ganhos eleitorais. Vargas, Hitler e Mussolini, por exemplo, foram habilidosos e praticamente pioneiros na utilização do rádio, criando um canal direto com a nova sociedade de massas. Obama, recentemente, soube usar as redes sociais de modo a entusiasmar e engajar o eleitor nas eleições de 2008.

Bolsonaro seria, então, um gênio estrategista das novas mídias sociais? Certo que não. Ele nem mesmo pode ser classificado como um líder populista no sentido clássico, aquele com capacidade de liderar as massas.

Creio não haver nenhuma virtude intrínseca em Bolsonaro que explique o seu sucesso. Ele apenas encarnou um sentimento que vagava solto, deu corpo e voz a ideias difusas, e tornou-se o recipiente de expectativas até então silenciosas.

Talvez sua maior virtude tenha sido a ousadia em ver a carruagem da história passando desgovernada, sem condução, e reivindicar a direção. À falta de qualquer piloto, deixaram-no ficar ali.

E que sentimentos e ideias seriam esses? Arrisco quatro palpites.

1. Liberalismo econômico. A direita saiu do armário e se assumiu enquanto tal, lutando, na economia, por pautas liberais, acusando demagogias sociais e populismos fiscais. A boa recepção do partido Novo confirma essa tendência, de que há um vácuo na direita, e há bastante espaço para crescimento de um discurso mais liberal na economia, fora do arcabouço quase hegemônico do nacional-desenvolvimentismo.

2. Conservadorismo. O ministro das Relações Exteriores, em entrevista à BBC, foi cirúrgico sobre a situação do Brasil: “Nós temos opiniões conservadoras, fortemente conservadoras na sociedade brasileira, que se refletem na política. Elas não tinham encontrado até agora um canal de manifestação política. Agora encontraram no Bolsonaro”. Na questão do aborto, por exemplo, Bolsonaro foi o único a se posicionar abertamente contra, o que, em tempos de discursos fluidos, de posições em cima do muro, soa quase como o único refúgio para os eleitores conservadores, que querem firmeza na defesa de pautas morais.

3. Indignação social.  Há um grito abafado contra a criminalidade, seja a corrupção ou a violência. Um sentimento generalizado antipolítica, condenando escândalos e negociatas, assim como um profundo mal-estar com a insegurança causada pela violência, clamando por soluções urgentes e contribuindo para amplificar uma retórica antissistema. Está em apreço a figura do justiceiro, aquele que vem sem meias palavras lutar contra o crime e o sistema.  

4. Revolta contra a tutela do pensamento único. Louvamos a diversidade, a diferença e a tolerância, mas existe apenas uma forma de ser bom e correto no mundo: andar de bicicleta, criticar o aquecimento global, lutar pelo desarmamento, falar sobre gênero, ser vegano, defender o Bolsa-Família, curtir Pabllo Vittar, gritar Fora Temer, defender parto natural, defender demarcação contínua de terras indígenas, dizer que o verdadeiro cristianismo se resume a amor e tolerância, demonizar Trump, idolatrar Justin Trudeau, defender o aborto, praticar uma religião não exclusiva, criticar a truculência da PM, ser favorável às cotas, condenar o agronegócio e a bancada ruralista, ser favorável à imigração na União Europeia. Tudo o que fuja dessa cartilha não é divergência, é pecado. O cidadão-médio se ressente dessa patrulha ideológica que afirma como ele deve ser e pensar para ser bom.

Esses sentimentos e ideias, que pairavam soltos, cristalizaram-se em Bolsonaro. Evidentemente, ele não é o melhor representante para todas as pautas, nem as verbaliza com convicção. Em alguns casos, ele adaptou seu discurso para encaixar-se nas expectativas, como no caso do aborto; em outros, ele mudou radicalmente de posição, como na economia, quando virou um liberal de conveniência.

Mas, de uma forma ou de outra, o fato é que recaiu sobre Bolsonaro a maior parte desses sentimentos. Uma aglutinação de demandas não verbalizadas em torno de sua pessoa. A tendência é que, no futuro, haja um realinhamento das preferências ao redor de outros atores e organizações, os quais, cientes do grande filão a ser explorado com relação a esses temas, logo amplificarão sua voz.  Por isso, essa deve ter sido a única e última chance de Bolsonaro de alçar-se ao poder.

Bolsonaro é fruto mais de contingência histórica do que habilidade política. Talvez seja justamente isso que explique melhor o fenômeno eleitoral do... mito.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Multiplicação dos partidos


Parece uma obviedade, mas as regras do jogo mudam a forma como se joga e os próprios jogadores. Na década de 1920, mudança na regra do impedimento, que era mais restrita, fez aumentar consideravelmente o número de gols por partida e dar mais dinâmica ao futebol.

Não é diferente com as regras da disputa política. A questão não é só que maus políticos produzem regras ruins, mas que em grande medida regras ruins dão condições para que maus políticos consigam vencer eleições.

O curioso é constatar que o Judiciário, teoricamente o árbitro que apita o jogo segundo as regras determinadas, funcionou nos últimos anos como cartola, escrevendo novas regras para o esporte político. Regras ruins, diga-se de passagem, que alteraram para pior o estilo da competição.

Um dos grandes problemas políticos do Brasil é o multipartidarismo selvagem, infinidade de partidos de aluguel de ideologia fluida, o que dificulta a escolha do eleitor e principalmente a vida dos governantes, obrigados a negociar com tantos caciques quantas tribos partidárias existam. E são muitas!

Para atacar esse problema, o Congresso aprovou reforma política em 1995 instituindo cláusula de barreira, percentual mínimo de votos que o partido deveria obter para que tivesse pleno “funcionamento parlamentar”. Deu-se prazo de dez anos para que os partidos se adaptassem à norma, sendo que a medida valeria apenas em 2006.

Mas, aos 45 do segundo, ou seja, em 2006 mesmo, o STF julgou a medida inconstitucional por ferir o princípio do “pluralismo político” e por criar “parlamentares de primeira e segunda linha” (ADI 1351).

O freio institucional que poderia barrar o fenômeno de criação de novos partidos foi retirado, dando carta branca para agravar ainda mais o quadro do multipartidarismo.

Em 2012 foi a vez de o STF decidir que o parlamentar que mudasse para novo partido levaria consigo a verba do Fundo Partidário e o tempo de TV correspondentes ao seu número de votos, desde que ele fosse também “fundador” da sigla (ADI 4430). O que, na prática, colocava em cada parlamentar uma etiqueta de quanto ele valia em termos de dinheiro e segundos de televisão. Legitimou-se, como o Ministro Joaquim Barbosa previu em seu voto contrário, o “mercantilismo no seio dos partidos”.

Foi o impulso recente que proporcionou a criação de novíssimos partidos, que já nasceram relativamente grandes, posto que turbinados com toda a estrutura de dinheiro do Fundo Partidário e tempo de TV. É o caso de PSD, Solidariedade, PROS e PEN (hoje Patriotas).

Chegou-se, então, ao absurdo de se ter um quadro partidário com 35 partidos, sendo que 28 deles têm representação no Congresso! Pulverização quase surreal do espaço político, o que dificulta grandemente a celebração de acordos coletivos, ou ao menos coloca custos elevadíssimos para se chegar a consensos mínimos.

Coube ao próprio Congresso tentar reverter o quadro. Claro, os políticos foram movidos não por um nobre desejo de tornar a democracia mais eficiente, mas, ao que tudo indica, pelo desejo de monopolizar o espaço político (e as verbas do Fundo), impedindo que o quinhão fosse dividido com cada novo aventureiro partidário. Seja como for, foram passos importantes para desarmar a cilada montada pelo STF.

A primeira tentativa, malograda, se deu em 2013, quando o Congresso aprovou lei para impedir a “portabilidade eleitoral”, isto é, que o deputado que mudasse para novo partido levasse junto a verba do Fundo Partidário. A norma, no entanto, também foi declarada inconstitucional pelo STF (ADI 5105), validando-se, enfim, a portabilidade.

Mas o Congresso voltou à carga novamente em 2017, quando aprovou a Emenda Constitucional 97, instituindo a cláusula de barreira, que será aplicada de forma gradual até 2030, bem como a proibição de coligação em eleições proporcionais, isso a partir de 2020. Essas medidas impedirão a farra da criação de novos partidos, e certamente levarão a alguma diminuição do multipartidarismo brasileiro.

Na próxima década, portanto, a expectativa é justamente o banimento das siglas nanicas, que sobrevivem apenas por causa das coligações, e até de partidos pequenos, embora históricos, como o PCdoB. Espera-se, por isso, a fusão de partidos como forma de sobreviver às novas regras. Será um passo positivo contar com menos partidos, e partidos maiores.

Mas será que até lá as regras mudam novamente? Considerando o tapetão que é o Brasil, tudo pode acontecer, até time subir da série C direto para a primeira divisão.

domingo, 15 de julho de 2018

Mistura de acaso e valor



“Na batalha, misturam-se o acaso e o valor”, disse Virgílio quando narrava o encontro épico entre latinos e troianos e que deu origem ao povo de Roma. Dois exércitos de renome chocando-se no calor da batalha e guerreiros valorosos de lado a lado.

Por mais preparado que fosse o combatente, por melhor que manejasse as armas e se defendesse dos golpes, ainda sim uma lança voando a ermo pelos céus poderia atingir-lhe e tirar sua vida. Na guerra e nas batalhas, muitas vezes não é o valor que decide sozinho, pois ele se mistura ao acaso.

A máxima da guerra vale para o futebol, especialmente quando as equipes estão bastante equilibradas em nível técnico, como visto nessa Copa.

Duas linhas de quatro a menos de dez metros uma da outra, força e preparo físico, e quase todos os jogadores com experiência de jogar nas maiores ligas internacionais: o setor defensivo é quase uma muralha intransponível.

Dribles e triangulações não são suficientes para quebrar as defesas adversárias. Mesmo os bons chutes de fora da área têm esbarrado em vários pés até chegar no gol. As maiores armas para tal proeza heroica parecem ter sido, nessa Copa, a bola parada e um contra-ataque rápido e fatal.

Em uma guerra estudada e equilibrada, como foram vários jogos dessa Copa, às vezes espera-se noventa minutos por apenas uma oportunidade – e ela deve ser bem aproveitada. É o valor individual que se deve impor para que o bom guerreiro conclua seu golpe mortal em apenas uma chance.

O Brasil travou um jogo emparelhado com a Bélgica, e o destino nos deu duas chances de empatar ou virar o jogo: os chutes para fora de Renato Augusto e Coutinho. Não adianta ter mais posse de bola, pressionar mais ou dizer que jogou melhor. Em um jogo parelho, vence quem aproveita as poucas chances criadas, ganha quem prova seu valor com apenas um golpe desferido.

Mas no futebol também há essa mistura de valor e acaso. Penso que gols de escanteio, a não ser em erros claros e evidentes, entram na conta do acaso. Não que qualquer bolada lançada na área tenha um destino imprevisível, pois o valor também se acha aí em muitos treinos, seja na defesa, seja no ataque. Mas em várias ocasiões, naqueles segundos em que a bola viaja no ar e os jogadores se embolam na pequena área, a diferença entre o gol e a defesa se dá simplesmente porque algum jogador correu aleatoriamente para o ponto exato em que cruzaria a trajetória da bola antes de qualquer outro marcador. Ele não sabia onde a bola seria lançada, apenas correu e pulou e teve a felicidade de que seu movimento encontrasse a bola no momento exato e perfeito. Um time pode treinar mil vezes o posicionamento na defesa de bolas aéreas e se julgar invencível nesse quesito, e ainda sim tomar o gol no milésimo primeiro lançamento.

Veja como a França contou com o acaso para chegar à final. Contra o Uruguai, justamente a “seleção forte em bolas aéreas”, com Godín e Giménez, o primeiro gol francês, o gol que mudou toda a dinâmica do jogo, saiu de bola parada e da cabeçada de Varane. Poderia ter sido o contrário, já que o Uruguai teve 4 escanteios, e todo o jogo seria diferente.

Contra a Bélgica, a seleção dos gigantes acima de 1 metro e 90, novamente o gol francês saiu de bola parada, dessa vez a cabeçada de Umtiti. A bola aérea, que ajudou a Bélgica em dois gols contra o Japão e um contra o Brasil, dessa vez foi o golpe que a tirou da Copa.

Na final, França e Croácia, um gol contra de cabeça, um chute desviado e uma bola que resvala na mão e dá origem a um pênalti. Três gols no primeiro tempo, três golpes do acaso, e a história do jogo completamente alterada. Fosse o pulo de Mandzukic um décimo de segundo mais tarde e sua cabeçada teria mandado a bola para fora da área.

Mas é justamente essa mistura de valor e acaso que faz do futebol um esporte singular, com emoção e torcida, não uma loteria, mas tampouco a previsibilidade de um basquete. Existem zebras e existe tradição.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Vai ter Copa

Parece que 53% dos brasileiros estão desinteressados com a Copa, segundo uma pesquisa. Repetindo: mais da metade do país não está ligando para a Copa do Mundo. Ótimo! Porque daí a gente pode fazer uma escala: divide o Brasil meio a meio e a metade que não está ligando para a Copa vai trabalhar na hora do jogo. Proposta justa.

O número a princípio parece alto demais: metade do país do futebol desanimada com a Copa. Mas, se olharmos para o lado, é isso mesmo. Há muita gente ao nosso derredor ostentando esse ar de indiferença.

Dentro desses 53% tem aqueles que acham que gostar de Copa é esquecer dos problemas reais e por isso gravam vídeos dizendo “o Brasil que eu quero tem mais educação e menos seleção”. Tem o grupo dos desalentados com o 7 a 1, de ressaca moral com o chocolate germânico, desesperançados com a bola – o que dá até para entender, mas... Copa é Copa. Tem o pessoal que está se coçando para torcer mas não quer vestir a camisa amarela porque é a camisa da CBF e o uniforme dos manifestantes, e o Brasil é maior que a CBF. E tem outros que de fato acreditam nessa história e acham que Copa é manipulação da Globo, da Fifa e das grandes corporações corruptas, e preferem assistir competições sustentáveis, sem corrupção e cujos vencedores inspiram virtudes, como o Tour de France.

Nessa metade tem ainda o amigo que diz que vai torcer para a Alemanha e o garoto que só quer saber do Cristiano Ronaldo, e dizem não estar ligando para o Brasil. Tem o pessoal que colecionou o álbum com afinco, mas que agora faz charme, dando de ombros para o evento. E tem, por último, aqueles 3%, dentro dos 53, que nunca ligaram mesmo para a Copa do Mundo.

Será de fato um dia chato e triste encontrar todas essas pessoas trabalhando juntas. Ver o país tocado por elas, no caixa do mercado, na portaria, na repartição. Sair de casa e dar de cara com esses patriotas amargos.

Que bom que eu sou da outra metade!

Estrangeirismo





Há quem se encante
Com as cerejeiras 
No Japão
É porque nunca viu
Os ipês rosas
No Eixão

sábado, 19 de maio de 2018

A feminista que queria ser princesa

Meghan Markle, a ativista feminina, que, criança ainda, encabeçou uma luta pela igualdade das mulheres – e se tornou princesa.

Meghan Markle, a atriz bem-sucedida, emancipada, independente. Que largou tudo, que abandonou a profissão e nela não poderá mais trabalhar – para se tornar uma princesa.

Meghan, a mulher divorciada, representante dos novos tempos, da mistura de raças, da mistura de crenças, do girl power. Que se batizou na Igreja Anglicana, que aderiu fielmente às tradições e protocolos da realeza e da religião, e se ajoelhou para receber a bênção.

Há alguma insistência em dizer que Meghan Markle chegou para dar certa arejada à família real britânica justamente por suas posições firmes, por sua opinião forte, especialmente quanto aos direitos das mulheres.

Meghan não subiu ao altar acompanhada pelos pais – quebra de protocolo. Meghan é divorciada – quebra de protocolo. Meghan não teve madrinha – quebra de protocolo. A imprensa tem ressaltado esses detalhes vivamente, efusivamente. Os novos tempos chegaram, até a tradição e os arcaísmos da família real se dobram perante os imperativos da liberdade e da igualdade. E Meghan alcançou isso tudo... se tornando uma princesa!

Não pode haver paradoxo mais evidente. Um conto de fadas real, a carruagem, a catedral, os lacaios, o ministro religioso, o coro, os vestidos, o véu. E brilhando nisso tudo a princesa que muitos tomam como símbolo feminista.

Parece que, afinal de contas, aquela menininha destemida que lutou pela igualdade das mulheres no fundo acalentou o sonho de toda menina – se casar com um príncipe, entrar na igreja vestida de branco e se tornar uma princesa.

Diminuição das mulheres? Volta da sociedade patriarcal? Ou apenas o reavivamento de sonhos inatos, de aspirações que ainda pulsam resistindo ao tempo? Que cada um tire as próprias conclusões.

Dia bonito – e estranho – em que o secularismo se rende à religião, a modernidade reverencia a tradição, o amor livre se doa ao matrimônio e o ceticismo suspira com contos de fada.   

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Solidão na ilha dos ciclopes



Eneias, o herói troiano, margeava a costa da Sicília quando aportou na ilha dos ciclopes. Lá seus homens avistam um sujeito deplorável: vem andando sujo, com vestes rotas, a barba imunda, e se prostra aos pés do grupamento que cercava Eneias. Apesar dos andrajos, reconhecem nele um grego; o próprio homem, pelos penachos dos elmos, reconhece que os homens que chegaram à ilha são troianos.

A inimizade entre eles não impede o encontro. Nem mesmo uma guerra de dez anos, travada entre gregos e troianos, basta para manter apartados antigos inimigos. O estranho homem vem andando decidido, ciente de que se lança aos braços dos adversários.

Indagado sobre o porquê de tal temeridade, o homem conta sua história deplorável. Era natural de Ítaca, sendo um dos homens de Ulisses, preso juntamente com ele na caverna do ciclope Polifemo. Ulisses e outros companheiros conseguiram escapar do monstro e fugir para os barcos, mas ele não teve a mesma sorte, ficando preso naquela ilha juntamente com gigantes e feras.

Já há três anos sobrevivia na miséria e na solidão, entre desertas covas e covis de feras, fugindo às intempéries e aos monstros. Por isso, avistando outros homens, mesmo reconhecendo-os como inimigos, correu a seu encontro, exclamando:

– Se devo perecer, ser-me-á doce perecer pela mão dos homens.

O homem prefere a comunhão de inimigos que a solidão implacável de uma natureza hostil.

Aristóteles diz que o homem é um zoon politikon, ou um animal político. O instinto humano o faz viver em bando, como ovelhas, formigas e abelhas. A humanidade foi criada como uma sociedade, e mesmo após o primeiro homicídio, o próprio culpado achou que o degredo imposto seria uma pena muito severa – viver errante pela terra dos viventes. O assassino queria companhia; o homem que primeiro ceifou a vida de seu semelhante não desejava viver sem a presença de outros semelhantes.

Idílios românticos, de vidas pastoris em solitária comunhão com a natureza, talvez só funcionem mesmo no país da Arcádia, onde o clima é ameno, os rios correm o ano inteiro e os vales verdejam. Nunca se cogitou de uma Arcádia na África subsaariana, habitada por feras, nem na floresta amazônica, infestada pela malária. Em um mundo desencaminhado pelo mal, o leão ruge contra os cordeiros, o deserto avança sobre os prados, e as tempestades ferem a terra, de modo que, na maioria dos lugares, o sonho árcade é um pesadelo hobbesiano.

A própria ideia de libertação e autoconhecimento que viria de uma jornada solitária acaba se mostrando uma quimera. Ao livrar-se dos grilhões da sociedade, sonho de Rousseau, ao dar  vazão ao instinto, obsessão da psicanálise, o homem não libertará um gênio criativo, um Chopin, um Goethe. Ao contrário, descartando sua racionalidade, o homem será apenas outro animal, um Nabucodonosor vagando como fera entre os campos da Babilônia. “O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”, é o que declama Augusto dos Anjos em um soneto ácido, porém sincero.

Quem se desgarra do grupo, no fim, sofre tanto quanto o homem abandonado na ilha dos ciclopes, que até o reencontro com inimigos lhe parece melhor que a continuidade de uma vida solitária em um mundo hostil.