domingo, 28 de outubro de 2018

A seita que dói menos


Há dois grupos políticos que viraram quase seitas, abraçando um messianismo que vê em seus líderes a única esperança para salvar o Brasil. No meio deles, uma multidão de eleitores que bandearam para um lado ou para o outro. Excessos têm sido cometidos pelos dois polos em nome dessa religião política. Mas há, por assim dizer, uma seita que dói menos ao futuro do Brasil.

Bolsonaristas odeiam o PT.
Petistas odeiam quem vota em Bolsonaro.

Bolsonaristas atacam com virulência tudo o que é relacionado ao PT e à esquerda de uma maneira geral. Petistas, por sua vez, atacam com violência, e ar de superioridade intelectual, as próprias pessoas que declaram voto em Bolsonaro. Há uma diferença crucial aí. No primeiro caso, o ataque é contra o partido, as ideias que ele representa, e, em alguns casos sim, contra os próprios petistas. Mas não é comum a pessoa ver um petista por aí e chamá-lo de ladrão ou corrupto, inferindo que o apoiador padece dos mesmos vícios do partido que defende. 

No segundo caso, dá-se o inverso. Os ditos tolerantes, ao se depararem com uma camisa de Bolsonaro ou ouvirem alguém o defender, saem com todos os seus preconceitos do bolso, argumentando que o apoiador é fascista, machista, homofóbico, que não conhece a história do Brasil, que tem raiva de pobre – e isso tudo sem o conhecer. Essa seita cria uma identificação total entre o eleitor e o político em quem ele declara voto. Mano Brown bem que tentou abrir os olhos para essa cegueira: “Não consigo acreditar que a mulher que cuida dos meus filhos, que o cara que me serve o café, de repente tenham se tornado monstros”. Se há uma seita pior que a outra, é certamente a que faz ataques pessoais.

Bolsonaro apoia uma ditadura passada.
Ditaduras presentes se apoiam no PT.

De um lado, existe Bolsonaro como um fervoroso defensor da ditadura militar, inclusive de seus erros, como nos casos de tortura. Mas se Bolsonaro defende uma ditadura passada (que já morreu há mais de 30 anos), sua voz isolada não tem a menor relevância para o presente. De outro lado, porém, existe o PT, que apoia ditaduras da atualidade e, o que é pior, empresta seu prestígio de um dos maiores partidos do Brasil para sustentar politicamente ditadores mundo afora.

No complexo jogo das relações internacionais, o apoio ou a repulsa da comunidade internacional é uma das únicas ferramentas para derrubar ditaduras (as outras são sanções econômicas e a intervenção militar, ambas difíceis de serem implementadas). Pois bem, ditadores como Chávez, Maduro, Fidel, Kadafi e outros tantos puderam enriquecer, torturar opositores e atentar contra os direitos humanos nos últimos anos por causa de organizações como o PT, que, enquanto governava o Brasil, doava todo o peso da diplomacia brasileira para conferir apoio político, dentro da comunidade internacional, a alguns monstros da humanidade.  

Bolsonaro é um fanfarrão que solta frases antidemocráticas.
O PT é uma organização que tem um programa sério, que é, em essência, antidemocrático.

Bolsonaro diz frases que colocam em xeque o sistema democrático. Em geral, são ditas no calor de debates ou entrevistas. A questão é saber duas coisas: ele realmente acredita no que diz e, uma vez eleito, deseja colocá-las em prática? Paira a dúvida nas duas indagações, e, o principal, Bolsonaro é uma voz solitária.

O PT não é um sujeito que diz frases condenáveis. É uma organização partidária, com centenas de quadros, que admite publicamente suas intenções antidemocráticas. Aparelhar o Exército e o Ministério Público (Rui Falcão), controlar a mídia (Franklin Martins), a conquista total do poder (José Dirceu), extirpar o DEM da política brasileira (Lula), necessidade do PT competir com a igreja (Gilberto Carvalho) e a parcialidade de toda a justiça brasileira (todos os petistas nos últimos dois anos) – eis alguns exemplos do viés antidemocrático do PT.

Se a democracia corre perigo nessas eleições, melhor ficar com os arroubos totalitários de um político isolado do que com as intenções planejadas nesse sentido de todo um partido.  

Bolsonaristas veem a corrupção como o grande mal a ser extirpado.
Petistas pensam que excessos verbais são o mal maior

Trata-se de uma escala de valores. Ofensas e excessos de um falastrão são elementos que devem ser condenados, mesmo considerando a retórica típica da política. Mas o roubo, a corrupção escancarada, a desfaçatez em se apropriar do patrimônio público e a montagem de um esquema de desvio de dinheiro público são elementos igualmente condenáveis. Mais uma vez, a seita que dói menos parece ser a que apoia o falastrão e não o presidiário.

Bolsonaristas repudiam o passado dos governos petistas.
Petistas repudiam um hipotético futuro sombrio do governo Bolsonaro.

Para condenar os desmandos dos governos petistas, há dados, há evidências, há o testemunho da história. Nisso se fiam os bolsonaristas. Para condenar um eventual governo Bolsonaro, petistas profetizam cenários do apocalipse e, com base nessa comparação entre um passado condenável e um hipotético futuro sombrio, preferem ficar com a certeza inquestionável sobre as previsões do futuro. Tenho medo dessa seita de videntes tão convictos.

Por fim, me referi apenas às seitas.
Nem todos os que votam em um ou em outro candidato participam dessa religião e concordam com tudo. Mas se há uma seita pior que a outra, é claramente a vermelha.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Futuro repetindo o Passado



A história não se repete. Mas ela segue adiante com coincidências e semelhanças, o que dá a impressão de que o futuro está repetindo o passado. As eleições de 2018 têm curiosidades marcantes com episódios da nossa história política recente:

PT vs. ANTIPT
Lula e o PT cresceram na corrida presidencial, causando certo receio pela retórica agressiva, o que desencadeou um movimento de aglutinação do eleitorado em torno de uma candidatura oposta, de um político não tão conhecido, mas que encarnava com sucesso o antipetismo. O ano é 1989 e o beneficiado do agrupamento do antipetismo é Fernando Collor. Mas também podemos dizer que o ano é 2018, trocando Collor por Bolsonaro.

PDT CORRENDO POR FORA
Em 1989, o PDT de Brizola corria por fora da polarização entre PT e a centro-direita, apresentando-se como um político experiente, ex-governador, e defensor do desenvolvimentismo econômico. Em 2018, foi o mesmo PDT, dessa vez de Ciro Gomes, que tentou furar a polarização entre PT e a direita, levando adiante o mesmo discurso de ex-governador experiente e do desenvolvimentismo.

COMEÇO EM JUIZ DE FORA
Em 1964, partiram de Juiz de Fora tropas da 4ª Divisão de Infantaria, que marchavam em direção ao Rio de Janeiro para derrubar o governo Goulart e dar início ao governo militar. Em 2018, pode-se dizer que partiu de Juiz de Fora a arrancada para a vitória de Jair Bolsonaro, o início do governo de um militar. Não com tanques, é verdade, mas com uma facada, o que cristalizou seu eleitorado e impediu que seus adversários o desconstruíssem.

UM CERTO GENERAL MOURÃO
Tanto em 1964 como em 2018, há um desastrado General Mourão a participar dos fatos políticos. Não são a mesma pessoa, mas têm o mesmo nome. Em 1964, foi o General Olímpio Mourão quem desencadeou a deposição de Goulart quando partiu com sua tropa de Juiz de Fora. O movimento foi isolado, desastrado, pois o combinado era que o movimento ocorresse em 4 de abril, mas afinal deu certo. O Mourão de 2018 é o General Hamilton Mourão, Vice de Bolsonaro, que entrou nas notícias apenas para soltar frases desastrosas para a campanha de seu titular.

GETULISMO E PETISMO
O getulismo se tornou um movimento político praticamente imbatível eleitoralmente. Arraigado nas máquinas eleitorais do interior e detendo o monopólio do discurso social, Getúlio e seus partidários ganharam as eleições em 1945, 1950 e 1955. De igual forma, o petismo, quando chegou ao poder, tornou-se praticamente imbatível em eleições, apresentando-se como único dono do discurso de inclusão social e se enraizando no interior nordestino com o apoio das máquinas políticas locais.  

UDN E PSDB
Após a era FHC, o PSDB foi a reencarnação da UDN – partido de classe média, representante da oposição ao governo (getulismo em um caso, petismo no outro), mas que sempre perdeu nas urnas. A vitória só veio, em ambos os casos, quando surgiu um  personagem de outro partido, histriônico, sem as formalidades da política, mas que encarnava bem mais enfaticamente a repulsa ao sistema político de então.

JÂNIO E JAIR
Imprevisíveis, ambíguos, outsiders da elite política e com o mesmo discurso de moralização da política – Jânio Quadros em 1960 e Jair Bolsonaro em 2018. Nenhum dos dois pertencia a algum clã político, era expoente de algum partido ou de algum grupo econômico. Eram, isso sim, políticos extremamente personalistas que lograram concentrar em si mesmos a insatisfação do eleitorado e a promessa de mudança.

FIASCO DO PMDB
Em duas ocasiões, o PMDB, maior partido do país, partido do Presidente da República e do Presidente do Senado, lançou candidato próprio e amargou um fiasco nas urnas. Em 1989, Ulisses Guimarães teve 4,73% dos votos; em 2018, Henrique Meirelles teve 1,2%.

COMÍCIO DA CENTRAL E #ELENAO
O Comício da Central reuniu as forças progressistas favoráveis a João Goulart em 1964, mostrando o apoio popular de Jango. Maior ainda, no entanto, foram as manifestações que ocorreram em seguida, contrárias ao regime. O tiro saiu pela culatra, e o que era para ser um gesto do apoio popular causou certo temor na população, mobilizando o movimento contrário. O protesto de #elenao em 2018 teve o mesmo efeito. À primeira vista, um sucesso de público, mas o resultado foi o inverso – aumentou o temor pela volta do PT e só fez crescer as intenções de voto em Bolsonaro.

DIRCEU E PRESTES
Luís Carlos Prestes jogou lenha na fogueira das tensões políticas em 1964, ao afirmar “Já temos o poder, basta-nos apenas tomar o governo”. De igual forma, José Dirceu acirrou a polarização de 2018 ao falar: “Aí nós vamos tomar o poder, o que é diferente de ganhar uma eleição”.

domingo, 7 de outubro de 2018

MITO?


Um deputado do baixo claro, em partido nanico, com 8 segundos de propaganda na televisão, que passa mais da metade da campanha em um hospital, e que mesmo assim é provável que ganhe o primeiro turno das eleições da 4ª maior democracia do mundo.

Um mito eleitoral, certamente. Quer você goste dele ou não, quer o chame de mito ou de coiso ruim. O fato é que vimos uma onda eleitoral surpreendente.

O que explica o fenômeno Bolsonaro?

Políticos que antecipam tendências sociais auferem enormes ganhos eleitorais. Vargas, Hitler e Mussolini, por exemplo, foram habilidosos e praticamente pioneiros na utilização do rádio, criando um canal direto com a nova sociedade de massas. Obama, recentemente, soube usar as redes sociais de modo a entusiasmar e engajar o eleitor nas eleições de 2008.

Bolsonaro seria, então, um gênio estrategista das novas mídias sociais? Certo que não. Ele nem mesmo pode ser classificado como um líder populista no sentido clássico, aquele com capacidade de liderar as massas.

Creio não haver nenhuma virtude intrínseca em Bolsonaro que explique o seu sucesso. Ele apenas encarnou um sentimento que vagava solto, deu corpo e voz a ideias difusas, e tornou-se o recipiente de expectativas até então silenciosas.

Talvez sua maior virtude tenha sido a ousadia em ver a carruagem da história passando desgovernada, sem condução, e reivindicar a direção. À falta de qualquer piloto, deixaram-no ficar ali.

E que sentimentos e ideias seriam esses? Arrisco quatro palpites.

1. Liberalismo econômico. A direita saiu do armário e se assumiu enquanto tal, lutando, na economia, por pautas liberais, acusando demagogias sociais e populismos fiscais. A boa recepção do partido Novo confirma essa tendência, de que há um vácuo na direita, e há bastante espaço para crescimento de um discurso mais liberal na economia, fora do arcabouço quase hegemônico do nacional-desenvolvimentismo.

2. Conservadorismo. O ministro das Relações Exteriores, em entrevista à BBC, foi cirúrgico sobre a situação do Brasil: “Nós temos opiniões conservadoras, fortemente conservadoras na sociedade brasileira, que se refletem na política. Elas não tinham encontrado até agora um canal de manifestação política. Agora encontraram no Bolsonaro”. Na questão do aborto, por exemplo, Bolsonaro foi o único a se posicionar abertamente contra, o que, em tempos de discursos fluidos, de posições em cima do muro, soa quase como o único refúgio para os eleitores conservadores, que querem firmeza na defesa de pautas morais.

3. Indignação social.  Há um grito abafado contra a criminalidade, seja a corrupção ou a violência. Um sentimento generalizado antipolítica, condenando escândalos e negociatas, assim como um profundo mal-estar com a insegurança causada pela violência, clamando por soluções urgentes e contribuindo para amplificar uma retórica antissistema. Está em apreço a figura do justiceiro, aquele que vem sem meias palavras lutar contra o crime e o sistema.  

4. Revolta contra a tutela do pensamento único. Louvamos a diversidade, a diferença e a tolerância, mas existe apenas uma forma de ser bom e correto no mundo: andar de bicicleta, criticar o aquecimento global, lutar pelo desarmamento, falar sobre gênero, ser vegano, defender o Bolsa-Família, curtir Pabllo Vittar, gritar Fora Temer, defender parto natural, defender demarcação contínua de terras indígenas, dizer que o verdadeiro cristianismo se resume a amor e tolerância, demonizar Trump, idolatrar Justin Trudeau, defender o aborto, praticar uma religião não exclusiva, criticar a truculência da PM, ser favorável às cotas, condenar o agronegócio e a bancada ruralista, ser favorável à imigração na União Europeia. Tudo o que fuja dessa cartilha não é divergência, é pecado. O cidadão-médio se ressente dessa patrulha ideológica que afirma como ele deve ser e pensar para ser bom.

Esses sentimentos e ideias, que pairavam soltos, cristalizaram-se em Bolsonaro. Evidentemente, ele não é o melhor representante para todas as pautas, nem as verbaliza com convicção. Em alguns casos, ele adaptou seu discurso para encaixar-se nas expectativas, como no caso do aborto; em outros, ele mudou radicalmente de posição, como na economia, quando virou um liberal de conveniência.

Mas, de uma forma ou de outra, o fato é que recaiu sobre Bolsonaro a maior parte desses sentimentos. Uma aglutinação de demandas não verbalizadas em torno de sua pessoa. A tendência é que, no futuro, haja um realinhamento das preferências ao redor de outros atores e organizações, os quais, cientes do grande filão a ser explorado com relação a esses temas, logo amplificarão sua voz.  Por isso, essa deve ter sido a única e última chance de Bolsonaro de alçar-se ao poder.

Bolsonaro é fruto mais de contingência histórica do que habilidade política. Talvez seja justamente isso que explique melhor o fenômeno eleitoral do... mito.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Multiplicação dos partidos


Parece uma obviedade, mas as regras do jogo mudam a forma como se joga e os próprios jogadores. Na década de 1920, mudança na regra do impedimento, que era mais restrita, fez aumentar consideravelmente o número de gols por partida e dar mais dinâmica ao futebol.

Não é diferente com as regras da disputa política. A questão não é só que maus políticos produzem regras ruins, mas que em grande medida regras ruins dão condições para que maus políticos consigam vencer eleições.

O curioso é constatar que o Judiciário, teoricamente o árbitro que apita o jogo segundo as regras determinadas, funcionou nos últimos anos como cartola, escrevendo novas regras para o esporte político. Regras ruins, diga-se de passagem, que alteraram para pior o estilo da competição.

Um dos grandes problemas políticos do Brasil é o multipartidarismo selvagem, infinidade de partidos de aluguel de ideologia fluida, o que dificulta a escolha do eleitor e principalmente a vida dos governantes, obrigados a negociar com tantos caciques quantas tribos partidárias existam. E são muitas!

Para atacar esse problema, o Congresso aprovou reforma política em 1995 instituindo cláusula de barreira, percentual mínimo de votos que o partido deveria obter para que tivesse pleno “funcionamento parlamentar”. Deu-se prazo de dez anos para que os partidos se adaptassem à norma, sendo que a medida valeria apenas em 2006.

Mas, aos 45 do segundo, ou seja, em 2006 mesmo, o STF julgou a medida inconstitucional por ferir o princípio do “pluralismo político” e por criar “parlamentares de primeira e segunda linha” (ADI 1351).

O freio institucional que poderia barrar o fenômeno de criação de novos partidos foi retirado, dando carta branca para agravar ainda mais o quadro do multipartidarismo.

Em 2012 foi a vez de o STF decidir que o parlamentar que mudasse para novo partido levaria consigo a verba do Fundo Partidário e o tempo de TV correspondentes ao seu número de votos, desde que ele fosse também “fundador” da sigla (ADI 4430). O que, na prática, colocava em cada parlamentar uma etiqueta de quanto ele valia em termos de dinheiro e segundos de televisão. Legitimou-se, como o Ministro Joaquim Barbosa previu em seu voto contrário, o “mercantilismo no seio dos partidos”.

Foi o impulso recente que proporcionou a criação de novíssimos partidos, que já nasceram relativamente grandes, posto que turbinados com toda a estrutura de dinheiro do Fundo Partidário e tempo de TV. É o caso de PSD, Solidariedade, PROS e PEN (hoje Patriotas).

Chegou-se, então, ao absurdo de se ter um quadro partidário com 35 partidos, sendo que 28 deles têm representação no Congresso! Pulverização quase surreal do espaço político, o que dificulta grandemente a celebração de acordos coletivos, ou ao menos coloca custos elevadíssimos para se chegar a consensos mínimos.

Coube ao próprio Congresso tentar reverter o quadro. Claro, os políticos foram movidos não por um nobre desejo de tornar a democracia mais eficiente, mas, ao que tudo indica, pelo desejo de monopolizar o espaço político (e as verbas do Fundo), impedindo que o quinhão fosse dividido com cada novo aventureiro partidário. Seja como for, foram passos importantes para desarmar a cilada montada pelo STF.

A primeira tentativa, malograda, se deu em 2013, quando o Congresso aprovou lei para impedir a “portabilidade eleitoral”, isto é, que o deputado que mudasse para novo partido levasse junto a verba do Fundo Partidário. A norma, no entanto, também foi declarada inconstitucional pelo STF (ADI 5105), validando-se, enfim, a portabilidade.

Mas o Congresso voltou à carga novamente em 2017, quando aprovou a Emenda Constitucional 97, instituindo a cláusula de barreira, que será aplicada de forma gradual até 2030, bem como a proibição de coligação em eleições proporcionais, isso a partir de 2020. Essas medidas impedirão a farra da criação de novos partidos, e certamente levarão a alguma diminuição do multipartidarismo brasileiro.

Na próxima década, portanto, a expectativa é justamente o banimento das siglas nanicas, que sobrevivem apenas por causa das coligações, e até de partidos pequenos, embora históricos, como o PCdoB. Espera-se, por isso, a fusão de partidos como forma de sobreviver às novas regras. Será um passo positivo contar com menos partidos, e partidos maiores.

Mas será que até lá as regras mudam novamente? Considerando o tapetão que é o Brasil, tudo pode acontecer, até time subir da série C direto para a primeira divisão.

domingo, 15 de julho de 2018

Mistura de acaso e valor



“Na batalha, misturam-se o acaso e o valor”, disse Virgílio quando narrava o encontro épico entre latinos e troianos e que deu origem ao povo de Roma. Dois exércitos de renome chocando-se no calor da batalha e guerreiros valorosos de lado a lado.

Por mais preparado que fosse o combatente, por melhor que manejasse as armas e se defendesse dos golpes, ainda sim uma lança voando a ermo pelos céus poderia atingir-lhe e tirar sua vida. Na guerra e nas batalhas, muitas vezes não é o valor que decide sozinho, pois ele se mistura ao acaso.

A máxima da guerra vale para o futebol, especialmente quando as equipes estão bastante equilibradas em nível técnico, como visto nessa Copa.

Duas linhas de quatro a menos de dez metros uma da outra, força e preparo físico, e quase todos os jogadores com experiência de jogar nas maiores ligas internacionais: o setor defensivo é quase uma muralha intransponível.

Dribles e triangulações não são suficientes para quebrar as defesas adversárias. Mesmo os bons chutes de fora da área têm esbarrado em vários pés até chegar no gol. As maiores armas para tal proeza heroica parecem ter sido, nessa Copa, a bola parada e um contra-ataque rápido e fatal.

Em uma guerra estudada e equilibrada, como foram vários jogos dessa Copa, às vezes espera-se noventa minutos por apenas uma oportunidade – e ela deve ser bem aproveitada. É o valor individual que se deve impor para que o bom guerreiro conclua seu golpe mortal em apenas uma chance.

O Brasil travou um jogo emparelhado com a Bélgica, e o destino nos deu duas chances de empatar ou virar o jogo: os chutes para fora de Renato Augusto e Coutinho. Não adianta ter mais posse de bola, pressionar mais ou dizer que jogou melhor. Em um jogo parelho, vence quem aproveita as poucas chances criadas, ganha quem prova seu valor com apenas um golpe desferido.

Mas no futebol também há essa mistura de valor e acaso. Penso que gols de escanteio, a não ser em erros claros e evidentes, entram na conta do acaso. Não que qualquer bolada lançada na área tenha um destino imprevisível, pois o valor também se acha aí em muitos treinos, seja na defesa, seja no ataque. Mas em várias ocasiões, naqueles segundos em que a bola viaja no ar e os jogadores se embolam na pequena área, a diferença entre o gol e a defesa se dá simplesmente porque algum jogador correu aleatoriamente para o ponto exato em que cruzaria a trajetória da bola antes de qualquer outro marcador. Ele não sabia onde a bola seria lançada, apenas correu e pulou e teve a felicidade de que seu movimento encontrasse a bola no momento exato e perfeito. Um time pode treinar mil vezes o posicionamento na defesa de bolas aéreas e se julgar invencível nesse quesito, e ainda sim tomar o gol no milésimo primeiro lançamento.

Veja como a França contou com o acaso para chegar à final. Contra o Uruguai, justamente a “seleção forte em bolas aéreas”, com Godín e Giménez, o primeiro gol francês, o gol que mudou toda a dinâmica do jogo, saiu de bola parada e da cabeçada de Varane. Poderia ter sido o contrário, já que o Uruguai teve 4 escanteios, e todo o jogo seria diferente.

Contra a Bélgica, a seleção dos gigantes acima de 1 metro e 90, novamente o gol francês saiu de bola parada, dessa vez a cabeçada de Umtiti. A bola aérea, que ajudou a Bélgica em dois gols contra o Japão e um contra o Brasil, dessa vez foi o golpe que a tirou da Copa.

Na final, França e Croácia, um gol contra de cabeça, um chute desviado e uma bola que resvala na mão e dá origem a um pênalti. Três gols no primeiro tempo, três golpes do acaso, e a história do jogo completamente alterada. Fosse o pulo de Mandzukic um décimo de segundo mais tarde e sua cabeçada teria mandado a bola para fora da área.

Mas é justamente essa mistura de valor e acaso que faz do futebol um esporte singular, com emoção e torcida, não uma loteria, mas tampouco a previsibilidade de um basquete. Existem zebras e existe tradição.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Vai ter Copa

Parece que 53% dos brasileiros estão desinteressados com a Copa, segundo uma pesquisa. Repetindo: mais da metade do país não está ligando para a Copa do Mundo. Ótimo! Porque daí a gente pode fazer uma escala: divide o Brasil meio a meio e a metade que não está ligando para a Copa vai trabalhar na hora do jogo. Proposta justa.

O número a princípio parece alto demais: metade do país do futebol desanimada com a Copa. Mas, se olharmos para o lado, é isso mesmo. Há muita gente ao nosso derredor ostentando esse ar de indiferença.

Dentro desses 53% tem aqueles que acham que gostar de Copa é esquecer dos problemas reais e por isso gravam vídeos dizendo “o Brasil que eu quero tem mais educação e menos seleção”. Tem o grupo dos desalentados com o 7 a 1, de ressaca moral com o chocolate germânico, desesperançados com a bola – o que dá até para entender, mas... Copa é Copa. Tem o pessoal que está se coçando para torcer mas não quer vestir a camisa amarela porque é a camisa da CBF e o uniforme dos manifestantes, e o Brasil é maior que a CBF. E tem outros que de fato acreditam nessa história e acham que Copa é manipulação da Globo, da Fifa e das grandes corporações corruptas, e preferem assistir competições sustentáveis, sem corrupção e cujos vencedores inspiram virtudes, como o Tour de France.

Nessa metade tem ainda o amigo que diz que vai torcer para a Alemanha e o garoto que só quer saber do Cristiano Ronaldo, e dizem não estar ligando para o Brasil. Tem o pessoal que colecionou o álbum com afinco, mas que agora faz charme, dando de ombros para o evento. E tem, por último, aqueles 3%, dentro dos 53, que nunca ligaram mesmo para a Copa do Mundo.

Será de fato um dia chato e triste encontrar todas essas pessoas trabalhando juntas. Ver o país tocado por elas, no caixa do mercado, na portaria, na repartição. Sair de casa e dar de cara com esses patriotas amargos.

Que bom que eu sou da outra metade!

Estrangeirismo





Há quem se encante
Com as cerejeiras 
No Japão
É porque nunca viu
Os ipês rosas
No Eixão