quarta-feira, 29 de maio de 2019

Guerra de Torcidas

Qual protesto foi maior: o do dia 15 ou o dia 26? Não houve consenso, nem ninguém se atreveu a proclamar um vencedor.

Por isso a disputa persistiu. Marcou-se outro protesto para o dia 30, como tira-teima para deixar fora de dúvida que o pessoal do dia 15 ganhara a batalha. A revanche continuou. Mas o problema foi que marcaram novas passeatas no dia 15 do outro mês, que caía no sábado, bem ao gosto desse lado que prefere protestos aos finais de semana.

Aí agora todo mundo concordava que o dia 15 tinha sido de fato maior, mas contendiam a respeito do mês. O protesto seguinte teve novidade: um grupo considerável cercou a sede de um batalhão da PM e exigiu que os militares divulgassem uma estimativa oficial de público.

Não se podia mais ficar no amadorismo, nesse negócio de “segundo os organizadores”, o que dava margem para questionamentos e invencionices. Por isso o grupo ameaçou vandalizar a sede do batalhão caso não fosse tomada alguma providência. O coronel porta-voz da corporação deu sua palavra de que a PM se empenharia ao máximo para contabilizar os manifestantes, o que afinal foi feito no início daquela noite.

O Congresso não assistia a tudo isso inerte. Pelo contrário, promovia debates acalorados sobre um projeto de lei que proibia institutos de pesquisa de fazerem a contagem dos manifestantes. O projeto foi aprovado com uma emenda, dispondo que as imagens de helicóptero ou drones fossem realizadas apenas no auge das manifestações, de forma a não enviesar a percepção sobre o evento. Medida necessária em era de fake news. A partir dali, eram permitidas apenas a estimativa oficial de público divulgada pela PM e as fotos aéreas feitas no auge das manifestações.

Os protestos se seguiram, semana a semana, sem um vencedor claro. Os ânimos se acirraram, de modo que não bastava apenas levar as multidões às ruas. Era preciso animação, entusiasmo, gritos de guerra. Um dos lados nomeou o Liminha do Gugu para subir nos caminhões do protesto e animar a torcida. O outro lado chegou a importar torcedores argentinos, especialistas na criação de gritos de guerra, para contrabalancear a disputa. Artistas de todo país foram assediados, mas impedidos desde logo pela justiça.

Em um desses pares de protesto, ficou claro que um grupo se sagrara vencedor. Porém, veio a dúvida: não deveria ser considerado todo o histórico das manifestações? Mas isso não resolvia nada, porque como definir até onde voltar na cronologia dos eventos? Ao período eleitoral de 2018? A favor do impeachment e contra o golpe de 2016? 2013?

Como a dúvida persistiu pelo critério numérico, o jeito foi colocar outros quesitos para o desempate: criatividade dos cartazes, melhores gritos de guerra, memes mais divertidos, unidade dos manifestantes, alegorias e adereços. Entretanto, ainda o mesmo impasse.

Chegou-se a aprovar uma lei determinando protesto de torcida única, para demonstrar a unidade do povo brasileiro. De fato, muita gente compareceu. Famílias divididas protestaram lado a lado sob cores diferentes estampadas nas roupas. Tudo num clima amistoso e ameno.

Apesar desse último gesto do poder público, a rivalidade permaneceu acesa dentro de cada coração. Afinal, mesmo que o time jogue mal, que os dirigentes se envolvam em casos de corrupção, que o técnico seja um prepotente, torcedor continua sendo torcedor.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Política da Lacração

Qual será o futuro da política com um parlamento dominado por selfies e lives? A curto prazo, a pergunta é ainda mais urgente: quais as chances dos acordos e votações avançarem tendo em vista esse tipo de atuação parlamentar?

O Congresso eleito em 2018 é representativo dessa nova onda de políticos que alcançaram projeção popular unicamente a partir da internet, passando ao largo do sistema tradicional. O personalismo na política fica mais evidente.

A atuação parlamentar baseada em selfies e lives, de certa forma, não é senão uma prestação de contas do eleito aos seus eleitores. É inegável que aproxima mais o cidadão da realidade da política e favorece a accountability e a transparência da atuação parlamentar.

Mas prender a atenção na tela do celular e falar com uma comunidade virtual, ao invés de dialogar com o deputado ao lado e participar dos debates presenciais, têm uma grande armadilha, que é captar a “vontade do povo” pelo humor das redes.

Como bem pontuou o analista Fernando Schüler, há diversos estudos mostrando que é um erro tomar o pensamento do povo pela voz de uma minoria barulhenta de ativistas digitais: não se pode confundir o que pensa um país com o que ocorre em sua timeline.

Além disso, a projeção desses “deputados digitais” favorece a criação de um parlamento ainda mais fragmentado, individualista e polarizado, a exemplo do que já ocorre nas redes sociais. Os partidos e as lideranças perdem sua força no alinhamento dessas bancadas.

É aí que reside outro perigo, que é a dispensa da política como forma de resolver conflitos, talvez mais um subproduto dessa democracia digital.

Nas redes sociais, o formato rápido e dominado por vídeos e imagens faz com que ocorra uma simplificação do debate público. Tanto o diagnóstico quanto as soluções têm de caber em um tweet ou em um meme, e cada qual tem opinião formada sobre todos os assuntos.

Cria-se o ambiente perfeito tanto para os mitos, que tripudiam do adversário com um post desaforado, quanto para os lacradores, que vencem discussões fazendo apelos emocionais simplistas. O debate resume-se a ver quem merece os óculos pretos da lacração.

Esse formato leva cada vez a pregar para convertidos e insistir num purismo ideológico, como fosse a política uma guerra que se concluísse apenas com a derrota total do adversário.

A política, ao contrário, é a arte de conciliar interesses contraditórios e resolver conflitos sem se valer da violência. Há de haver diálogo, trocas, divisão de poder, acordos – claro, dentro dos limites éticos.

Levar para o interior do Congresso o modus operandi das redes sociais é transformar o sistema político em uma democracia de arquibancada, onde vence o embate quem amealhar mais likes e seguidores.

Há, entretanto, bons sinais. Políticos da nova geração, de quem se esperaria essa forma de atuação, têm crescido nos caminhos próprios da política. É o caso dos deputados Kim Kataguiri e Tabata Amaral, opostos no espectro ideológico, mas que parecem trilhar pelo pavimento do diálogo e do comedimento.

De um lado, uma direita furiosa condena o deputado Kim porque ele se sentou na mesma mesa que Marcelo Freixo. De outro lado, uma esquerda arcaica decepciona-se com Tábata porque ela se reuniu e tirou foto com o governador Doria. Exemplos que mostram que muitas vezes os partidos estão mais para facções, isoladas e alheias a qualquer diálogo.

Não há segredo. Para fazer avançar qualquer reforma, para conseguir qualquer maioria dentro de um Congresso fragmentado, é necessário valer-se da política. Não da anti-política. Muito menos da política da lacração.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Não ditos populares

O livro Não Ditos Populares traz 60 crônicas de temática diversa, mas o espírito de colocar o foco no cotidiano a partir de um mesmo ângulo, que é ao rés do chão de uma vida comum.

Afinal, talvez o maior dilema do fim de semana seja escolher um filme no Netflix, e a maior conquista seja aguentar com paciência mais um aniversário infantil com tema Frozen.

O que não quer dizer que o dia a dia seja desprovido de significados profundos, de escolhas decisivas ou de eventos grandiosos. Mas, no mais das vezes, o sublime se encontra entranhado na rotina, e as escolhas morais são feitas diante de banalidades.

Alternando entre humor e deslumbre, trivialidade e reflexão, leveza e crítica, as crônicas avançam expondo os desafios da vida comum, como arrumar a casa, lavar louça, tirar foto de tudo, a profissão, as mudanças que vem com a paternidade, a virada dos vinte para os trinta anos e as novas tecnologias.

Você pode adquirir o livro pelo site da editora Moinhos. A entrega é para todo o Brasil, e também tem a opção de compra do livro digital.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Um lugar para o alvorecer

Após o impasse entre a Ermida, a Ponte JK e a Torre Digital, resolveram seguir para a ponte. E lá se acomodaram.

Era noite de Réveillon, e o grupo de seis amigos já tinha passado a virada em uma festa. Mas resolveram sair de lá para fazer algo mais íntimo. Alguém deu a ideia de esperar o nascer do sol em um lugar bem bonito. Outros preferiam ir para uma casa. Venceu o nascer do sol.

Embora fossem amigos, e tendessem às decisões democráticas, as escolhas quase sempre envolviam embates, e logo se formavam dois lados, de onde cada qual defendia seu ponto de vista ferrenhamente. Colhidos os votos, sempre alguém do lado perdedor ficava um pouco amuado, cabisbaixo, afetado, até que uma nova escolha o colocava no lado vencedor, e ele se animava novamente.

Pois tomada a decisão de assistir ao nascer do sol, faltava escolher o melhor local.

A menina de cabelos curtos sugeriu a Torre Digital. O local era alto, tinha uma vista panorâmica de Brasília e a alvorada de lá seria belíssima.

O jovem de óculos rebateu falando que nunca dava para saber se lá estava aberto ou fechado. Que a última informação que ele vira na televisão era que o local não tinha alvará dos bombeiros e ficaria fechado pelo menos até o fim do ano que começava naquele dia. Emendou às críticas a sua sugestão: Ermida Dom Bosco.

Ali era como ver o sul de Manhattan a partir do Brooklin. Aquela vista do centro de Brasília, os monumentos iluminados pela suave luz da alva, o lago cintilando à frente e aquele espetáculo do céu acima.

Veio um terceiro do grupo, um menino que falava apressado, e criticou as duas sugestões. A Torre Digital estava fechada, ele garantiu. Quanto à Ermida, devia estar suja e lotada. Ouvira dizer que muitos amigos iriam passar o Réveillon ali. Ele tinha algo melhor a oferecer: a Ponte JK. As mesmas vantagens da vista da Ermida, mas com a possibilidade de andar até o meio da ponte e ficar isolado das algazarras de jovens bêbados no primeiro dia do ano.

Mais um impasse entre o grupo: discussões, defesas, e, no final, vitória da ponte.

Chegaram lá. Estava ventando e frio, alguns reclamaram do local. Mas enfim acharam um canto na ponte onde poderiam aguardar tranquilamente a alva. Seguiu-se nova discussão. De que lado viria o sol?

Um deles jurou que era do oeste. Mas a maioria, recordando aulas de geografia, estava certa de que era do leste. Sim, mas onde ficava o leste? Nova discussão.

Olhando para o lado do Paranoá, lá estava a parte norte da cidade, Asa Norte, Lago Norte. O lado oposto era evidentemente o sul. Então, o leste só poderia ser para as bandas do Jardim Botânico. Chegaram nesse consenso. Mas sem muita precisão em relação às coordenadas exatas da chegada do astro-rei. De modo que, brigados, um grupo insistia que deveriam olhar na direção da Ermida, ao passo que outro argumentava que o mais correto seria contemplar a alvorada mirando em direção à subida da ponte.

Envolvidos nessa contenda, ninguém percebeu que nuvens enegrecidas tomavam todo o céu da capital naquela madrugada. De repente, quando se deram conta, já estava claro, mas não houve nenhum espetáculo de chegada do sol. Viu-se apenas o amanhecer sem graça de um dia nublado, onde o sol irradiou por cima das nuvens sem indicar sua localização exata e sem emanar beleza.

Se foram todos para a casa decepcionados com o evento, pelo menos nessa disputa não houve vencedores – todos saíram perdendo.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Nasceu na época errada



– Já não sei o que fazer, me sinto como alguém que não se encaixa nesse mundo. Seja sincero comigo e me diga se há esperança para alguém que não assiste nem Vingadores nem Game of Thrones, em pleno 2019?

– Olha... sem querer ser pessimista, mas acho que a sua situação é um pouquinho difícil mesmo. Você realmente não gosta de nenhum dos dois?

– Até gosto...

– Então há esperança! Porque se você me dissesse que não gostava, aí eu acharia estranho, e seria obrigado a dizer que não há espaço no mundo para você. Mas, gostando, não há o que a gente não possa remediar. Ânimo!

– Obrigado.

– Mas me diga, porque você não assiste ao filme e à série se já admitiu que gosta?

– Não sei, é difícil responder. Em algum momento me perdi no caminho.

– Hum...

– É difícil de acreditar, mas há muitos anos eu era alguém normal. Vibrei com Homem de Ferro, assisti Hulk e Thor no cinema, e saí empolgadíssimo com o primeiro Vingadores. Mas o tempo foi passando, vieram novos heróis, novos filmes, deixei passar, fui engolido pela rotina, não consegui espaço na agenda para o cinema... Enfim, de repente me vejo como um estranho nesse mundo.

– Entendo seu ponto de vista. É sempre esse acúmulo de pequenas coisas que no final faz um estrago grande lá na frente.

– Exato. E você se ilude achando que vai ver tudo depois, numa maratona. Problemas não se resolvem assim tão fácil. Sabe, no começo é até interessante navegar contra a corrente, ser o diferentão, dispensar a companhia da massa. Mas depois bate uma solidão desesperadora, ver aquelas fotos da galera no cinema, na casa dos amigos, confraternizando, assistindo...

– E quanto a Game of Thrones?

– Vi até a terceira temporada. Mas sou muito apegado aos personagens, e isso para mim era uma grande dificuldade. Mal superei a morte do Ned Stark.

– E depois ainda teve o Casamento Vermelho...

– Isso foi um excesso! Totalmente desnecessário. Enfim, tinha essas dificuldades, mas ia levando, talvez naquela época o ódio ao King Joffrey fosse meu combustível. Assistia esperando ver o que aconteceria com aquele moleque sádico e nojento. Até que um spoiler no trabalho arruinou tudo.

– Sei como é, já passei por isso também. Mas a gente supera. Parece que não, mas supera.

– O problema é que eu deixei uma temporada passar, e depois outra, e outra. E hoje me tornei essa pessoa.

– Mas isso você pode correr atrás, meu caro. Fala com seu chefe, com sua esposa, e reserva esse tempo para fazer maratona e tirar o atraso. A gente tem que ter prioridades na vida. Vai valer a pena.

– Eu sei que vai, mas não sei nem por onde começo... Se ao menos eu tivesse alguém, alguma ajuda...

– Eu posso te ajudar.

– Jura?

– Claro, um Lannister sempre paga suas dívidas!

– ...

– Um Lannister... dívidas, entendeu!? Deixa para lá, mas vamos logo porque o inverno está chegando?

– Inverno?

– Inverno... chegando! Não!? You know nothing, Jon Snow!

– Como? 

– Pensando melhor, acho que esse mundo realmente não foi feito para você. Ou você tinha que ter nascido em outra época, sei lá. Porque aqui e agora acho que você não tem salvação.     

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Tragédias



Um dia você dá notícias a todos. Outro dia é você a notícia da qual todos falam.
Um dia você apura os fatos e as circunstâncias do caso. Outro dia são os outros que investigam os detalhes do furo de reportagem – a sua morte.
Um dia você quer chegar mais rápido indo de helicóptero. Outro dia você se atrasa para sempre.

Um dia o ar-condicionado gela. Outro dia ele queima.
Um dia o frio embala seu sono. Outro dia o fogo incinera seus sonhos de garoto.
Um dia você assina um contrato com um time grande. Outro dia sua carreira acaba ali.

Um dia o estádio inteiro te aguarda como a melhor contratação da temporada. Outro dia eles procuram os seus restos no mar.

Um dia você cava uma montanha para achar minério. Outro dia as pessoas cavam a terra para achar você.
Um dia é sexta-feira e você só sai para trabalhar. Outro dia já não tem mais sábado, nem domingo, nem calendário algum.
Um dia você separa todo material sem utilidade e coloca em uma barragem. Outro dia a única utilidade desse material é engolir você.

Um dia você pensa nas tragédias com contrição. Outro dia você acha que nunca vai chegar a sua vez.
Um dia você acumula bens e diz a si mesmo: “descansa, beba e se alegre”. Outro dia te dizem: “Insensato, hoje te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”
Um dia você é pó. Outro dia ao pó retornará.

Um dia não é mais que o desenrolar da tapeçaria cheia de cores e sombras, de risos e dores, costurada e entretecida por Deus. Todos os outros dias também.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A 55ª Legislatura – A Câmara



As urnas anunciaram a eleição da Câmara mais conservadora desde 1964. O acirramento da disputa presidencial repercutiu entre os deputados, e a legislatura seria marcada por um tensionamento quase constante.

A fragmentação partidária atingira incríveis 28 partidos com assento na Câmara Baixa. Conseguir consensos nem ambiente dividido seria complexo, ainda mais porque muitos deputados vieram com o discurso das urnas: de um lado, trincheiras levantadas para defender a todo custo um projeto de poder consolidado há mais de dez anos, mas que estava em seus estertores; do outro, uma jornada antipetista, que logo desembocou num revanchismo em relação à derrota eleitoral, de forma que o impeachment passou a ser ventilado antes mesmo do início do ano legislativo, alegando-se estelionato eleitoral. Acima dessa batalha, uma multidão de urubus políticos esperando para ver quem daria o bote fatal para escolher um lado.

Em qualquer cenário, o prognóstico era de embates acalorados entre os dois lados. Mas aquele que teoricamente deveria servir de árbitro dos conflitos, presidindo com parcimônia a Casa, foi na verdade um player que jogou gasolina em uma Câmara já fervente. Esse deputado foi Eduardo Cunha, o nome da legislatura, chamado nos corredores de “Eduardo XIV”, sendo a própria Câmara uma House of Cunha.

Jogando com a vaidade (e com o bolso) do baixo clero, Cunha montou uma bancada pessoal, fazendo um corpo-a-corpo intenso desde as eleições de outubro de 2014 até fevereiro de 2015, tonificando sua candidatura. O governo empenhou-se na sua derrota na eleição para a presidência da Casa, mas ganhou apenas a mágoa do novo presidente, que logo atuou para mostrar quem tinha poder: convocação de ministros, isolamento do PT nas comissões, nova CPI da Petrobrás foram alguns dos resultados imediatos.

Do alto de suas pretensões políticas, tudo parecia possível para um soberbo Cunha, que, manejando de forma arguta o Regimento, conseguia levar adiante suas preferências políticas: PEC da Bengala, redução da maioridade penal, terceirização, reforma política, correção do FGTS. A autoconfiança levou o peemedebista até a CPI da Petrobrás para depor voluntariamente, dizendo com todas as letras que não tinha conta na Suíça. Depois se disse que ele mentiu, ele disse que era um trust, e o destino do governo ficou vinculado à sobrevivência de Cunha no Conselho de Ética. Num abraço de afogados, Cunha e o governo Dilma dançaram um tango até que o presidente decidiu pela abertura do processo de impeachment em dezembro de 2015, mudando a história da legislatura – e do Brasil.

A guerra fria se tornou aberta, Lula e Temer entraram no front, e o balcão de negócios foi aberto descaradamente para conquistar, no varejo político, os deputados que fariam diferença no quórum da votação. Seguiu-se um agitado vai e vem de líderes e diversas contabilidade dos votos.

Convenhamos, Eduardo Cunha fez do impeachment um espetáculo cívico que moveu o Brasil inteiro. Sessões que viraram o fim de semana, Brasília parada como em jogo de Copa, e o clímax no domingo, 17 de abril de 2016, quando muitas tevês, brasileiras e internacionais, deram cobertura integral do evento. O brasileiro conheceu um a um todos os 513 deputados, que se sucediam ao microfone para votar pela família, pela ética, ou contra o golpe. Muitos criticaram o tom burlesco e o nível das falas dos parlamentares, sem considerar que a Câmara é apenas um retrato representativo do Brasil, com seus caipiras, palhaços, semianalfabetos, industriais, religiosos e sindicalistas.

Passado o impeachment, Cunha, que já era odiado pelo PT, se tornou uma peça descartável para a oposição, e até incômoda, já que seria o segundo na linha sucessória. Confiando que os deputados lhe seriam gratos pelo impeachment, ele não renunciou à presidência, e foi aos poucos descendo de seu pedestal. Primeiro foi a Justiça que o afastou do cargo de deputado, depois foi o Conselho de Ética com o voto inesperado da Tia Eron, e, por fim, a cassação em plenário. Seguindo a máxima de que o poder regula o poder, os deputados reagiram e a própria floresta cuidou de cortar a árvore que crescia demais, reequilibrando o ecossistema político.

A Câmara se dividiu em três grupos bem discerníveis. O primeiro, formado pelo PT e seus satélites, tinha o peso dos recursos governistas, e depois passou a ter o peso do discurso social. O segundo era composto pela oposição, PSDB, DEM e PPS, que posteriormente viraram o esteio mais qualificado de Temer. O terceiro era o Centrão, um cipoal de siglas de médio porte que comungam juntos o valor de que o adesismo ao governo de ocasião é melhor do que o custo de assumir bandeiras ideológicas.

O Centrão sempre existiu, não com esse nome, não com essa coesão. O papel de Cunha foi dar liga a esse bolo partidário, tutelando sua atuação. O Frankstein político ganhou autonomia em relação ao seu criador, e sobreviveu mesmo com a morte política de Cunha. Fez dois líderes do governo: Aguinaldo Ribeiro na Câmara e André Moura no Congresso, mas não conquistou a presidência da Casa. Ainda assim, o Centrão fica de herança para a nova legislatura.

A voz grave e rouca de Silvio Costa a esbravejar contra o “golpe” prenunciava que o apelo lulo-petista ainda era forte no Nordeste. As bancadas do Ceará e da Bahia foram uma fortaleza da resistência esquerdista, que contou também com o sotaque gaúcho dos petistas Henrique Fontana, Maria do Rosário e Paulo Pimenta, e dos cariocas Chico Alencar e Jandira Feghali.

A bancada mineira, de fora da Esplanada, contra-atacou tirando Lucio Vieira Lima da vice-presidência da Câmara, em uma eleição que já parecia acertada em fevereiro de 2017. Ganhou o cargo o deputado Fábio Ramalho.

Mendonça Filho e Bruno Araújo foram recompensados pela atuação no impeachment com ministérios. O DEM, aliás, parece ter ressurgido nessa legislatura. Minguando a cada eleição e fadado à inanição, o partido ganhou novo fôlego com a indicação de Mendonça para o ministério e com a eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Maia conseguiu unir a antiga oposição com a antiga situação em uma estranha candidatura arquitetada para suplantar o poder de Cunha e do Centrão. Conduziu a Câmara sem atropelos.

A legislatura ainda teve de se debruçar sobre duas denúncias formuladas por Janot contra Temer. O mesmo itinerário de comissão especial e plenário, a mesma votação por chamada nominal. Defensores da ética e contrários à corrupção, os deputados tiveram diante de si o dilema moral que opunha estabilidade institucional de um lado e defesa intransigente da ética de outro. Ganhou o voto quase envergonhado do “não, em nome da estabilidade, mas sim para que o processe seja aberto após o mandato”. O ano de 2017, que começou concentrado apenas na reforma da previdência, ficou depois paralisado pelas duas denúncias.

Reforma política com a flexibilização da janela partidária, terceirização, teto dos gastos e reforma trabalhista foram algumas marcas da legislatura, assim como o projeto da escola sem partido, que naufragou ao fim de 2018.

Wladimir Costa soltando confetes no impeachment, chuva de petrodólares no ajuste fiscal, cusparada de Jean Willys, pixulecos infláveis no plenário, ratos sendo soltos em uma CPI, Waldir Maranhão dando suas canetadas – episódios que parecem ter saído de um faroeste macarrônico misturado a um thriller político. Mas foi justamente desse caldeirão confuso que saiu o futuro presidente do Brasil.