domingo, 15 de julho de 2018

Mistura de acaso e valor



“Na batalha, misturam-se o acaso e o valor”, disse Virgílio quando narrava o encontro épico entre latinos e troianos e que deu origem ao povo de Roma. Dois exércitos de renome chocando-se no calor da batalha e guerreiros valorosos de lado a lado.

Por mais preparado que fosse o combatente, por melhor que manejasse as armas e se defendesse dos golpes, ainda sim uma lança voando a ermo pelos céus poderia atingir-lhe e tirar sua vida. Na guerra e nas batalhas, muitas vezes não é o valor que decide sozinho, pois ele se mistura ao acaso.

A máxima da guerra vale para o futebol, especialmente quando as equipes estão bastante equilibradas em nível técnico, como visto nessa Copa.

Duas linhas de quatro a menos de dez metros uma da outra, força e preparo físico, e quase todos os jogadores com experiência de jogar nas maiores ligas internacionais: o setor defensivo é quase uma muralha intransponível.

Dribles e triangulações não são suficientes para quebrar as defesas adversárias. Mesmo os bons chutes de fora da área têm esbarrado em vários pés até chegar no gol. As maiores armas para tal proeza heroica parecem ter sido, nessa Copa, a bola parada e um contra-ataque rápido e fatal.

Em uma guerra estudada e equilibrada, como foram vários jogos dessa Copa, às vezes espera-se noventa minutos por apenas uma oportunidade – e ela deve ser bem aproveitada. É o valor individual que se deve impor para que o bom guerreiro conclua seu golpe mortal em apenas uma chance.

O Brasil travou um jogo emparelhado com a Bélgica, e o destino nos deu duas chances de empatar ou virar o jogo: os chutes para fora de Renato Augusto e Coutinho. Não adianta ter mais posse de bola, pressionar mais ou dizer que jogou melhor. Em um jogo parelho, vence quem aproveita as poucas chances criadas, ganha quem prova seu valor com apenas um golpe desferido.

Mas no futebol também há essa mistura de valor e acaso. Penso que gols de escanteio, a não ser em erros claros e evidentes, entram na conta do acaso. Não que qualquer bolada lançada na área tenha um destino imprevisível, pois o valor também se acha aí em muitos treinos, seja na defesa, seja no ataque. Mas em várias ocasiões, naqueles segundos em que a bola viaja no ar e os jogadores se embolam na pequena área, a diferença entre o gol e a defesa se dá simplesmente porque algum jogador correu aleatoriamente para o ponto exato em que cruzaria a trajetória da bola antes de qualquer outro marcador. Ele não sabia onde a bola seria lançada, apenas correu e pulou e teve a felicidade de que seu movimento encontrasse a bola no momento exato e perfeito. Um time pode treinar mil vezes o posicionamento na defesa de bolas aéreas e se julgar invencível nesse quesito, e ainda sim tomar o gol no milésimo primeiro lançamento.

Veja como a França contou com o acaso para chegar à final. Contra o Uruguai, justamente a “seleção forte em bolas aéreas”, com Godín e Giménez, o primeiro gol francês, o gol que mudou toda a dinâmica do jogo, saiu de bola parada e da cabeçada de Varane. Poderia ter sido o contrário, já que o Uruguai teve 4 escanteios, e todo o jogo seria diferente.

Contra a Bélgica, a seleção dos gigantes acima de 1 metro e 90, novamente o gol francês saiu de bola parada, dessa vez a cabeçada de Umtiti. A bola aérea, que ajudou a Bélgica em dois gols contra o Japão e um contra o Brasil, dessa vez foi o golpe que a tirou da Copa.

Na final, França e Croácia, um gol contra de cabeça, um chute desviado e uma bola que resvala na mão e dá origem a um pênalti. Três gols no primeiro tempo, três golpes do acaso, e a história do jogo completamente alterada. Fosse o pulo de Mandzukic um décimo de segundo mais tarde e sua cabeçada teria mandado a bola para fora da área.

Mas é justamente essa mistura de valor e acaso que faz do futebol um esporte singular, com emoção e torcida, não uma loteria, mas tampouco a previsibilidade de um basquete. Existem zebras e existe tradição.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Vai ter Copa

Parece que 53% dos brasileiros estão desinteressados com a Copa, segundo uma pesquisa. Repetindo: mais da metade do país não está ligando para a Copa do Mundo. Ótimo! Porque daí a gente pode fazer uma escala: divide o Brasil meio a meio e a metade que não está ligando para a Copa vai trabalhar na hora do jogo. Proposta justa.

O número a princípio parece alto demais: metade do país do futebol desanimada com a Copa. Mas, se olharmos para o lado, é isso mesmo. Há muita gente ao nosso derredor ostentando esse ar de indiferença.

Dentro desses 53% tem aqueles que acham que gostar de Copa é esquecer dos problemas reais e por isso gravam vídeos dizendo “o Brasil que eu quero tem mais educação e menos seleção”. Tem o grupo dos desalentados com o 7 a 1, de ressaca moral com o chocolate germânico, desesperançados com a bola – o que dá até para entender, mas... Copa é Copa. Tem o pessoal que está se coçando para torcer mas não quer vestir a camisa amarela porque é a camisa da CBF e o uniforme dos manifestantes, e o Brasil é maior que a CBF. E tem outros que de fato acreditam nessa história e acham que Copa é manipulação da Globo, da Fifa e das grandes corporações corruptas, e preferem assistir competições sustentáveis, sem corrupção e cujos vencedores inspiram virtudes, como o Tour de France.

Nessa metade tem ainda o amigo que diz que vai torcer para a Alemanha e o garoto que só quer saber do Cristiano Ronaldo, e dizem não estar ligando para o Brasil. Tem o pessoal que colecionou o álbum com afinco, mas que agora faz charme, dando de ombros para o evento. E tem, por último, aqueles 3%, dentro dos 53, que nunca ligaram mesmo para a Copa do Mundo.

Será de fato um dia chato e triste encontrar todas essas pessoas trabalhando juntas. Ver o país tocado por elas, no caixa do mercado, na portaria, na repartição. Sair de casa e dar de cara com esses patriotas amargos.

Que bom que eu sou da outra metade!

Estrangeirismo





Há quem se encante
Com as cerejeiras 
No Japão
É porque nunca viu
Os ipês rosas
No Eixão

sábado, 19 de maio de 2018

A feminista que queria ser princesa

Meghan Markle, a ativista feminina, que, criança ainda, encabeçou uma luta pela igualdade das mulheres – e se tornou princesa.

Meghan Markle, a atriz bem-sucedida, emancipada, independente. Que largou tudo, que abandonou a profissão e nela não poderá mais trabalhar – para se tornar uma princesa.

Meghan, a mulher divorciada, representante dos novos tempos, da mistura de raças, da mistura de crenças, do girl power. Que se batizou na Igreja Anglicana, que aderiu fielmente às tradições e protocolos da realeza e da religião, e se ajoelhou para receber a bênção.

Há alguma insistência em dizer que Meghan Markle chegou para dar certa arejada à família real britânica justamente por suas posições firmes, por sua opinião forte, especialmente quanto aos direitos das mulheres.

Meghan não subiu ao altar acompanhada pelos pais – quebra de protocolo. Meghan é divorciada – quebra de protocolo. Meghan não teve madrinha – quebra de protocolo. A imprensa tem ressaltado esses detalhes vivamente, efusivamente. Os novos tempos chegaram, até a tradição e os arcaísmos da família real se dobram perante os imperativos da liberdade e da igualdade. E Meghan alcançou isso tudo... se tornando uma princesa!

Não pode haver paradoxo mais evidente. Um conto de fadas real, a carruagem, a catedral, os lacaios, o ministro religioso, o coro, os vestidos, o véu. E brilhando nisso tudo a princesa que muitos tomam como símbolo feminista.

Parece que, afinal de contas, aquela menininha destemida que lutou pela igualdade das mulheres no fundo acalentou o sonho de toda menina – se casar com um príncipe, entrar na igreja vestida de branco e se tornar uma princesa.

Diminuição das mulheres? Volta da sociedade patriarcal? Ou apenas o reavivamento de sonhos inatos, de aspirações que ainda pulsam resistindo ao tempo? Que cada um tire as próprias conclusões.

Dia bonito – e estranho – em que o secularismo se rende à religião, a modernidade reverencia a tradição, o amor livre se doa ao matrimônio e o ceticismo suspira com contos de fada.   

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Solidão na ilha dos ciclopes



Eneias, o herói troiano, margeava a costa da Sicília quando aportou na ilha dos ciclopes. Lá seus homens avistam um sujeito deplorável: vem andando sujo, com vestes rotas, a barba imunda, e se prostra aos pés do grupamento que cercava Eneias. Apesar dos andrajos, reconhecem nele um grego; o próprio homem, pelos penachos dos elmos, reconhece que os homens que chegaram à ilha são troianos.

A inimizade entre eles não impede o encontro. Nem mesmo uma guerra de dez anos, travada entre gregos e troianos, basta para manter apartados antigos inimigos. O estranho homem vem andando decidido, ciente de que se lança aos braços dos adversários.

Indagado sobre o porquê de tal temeridade, o homem conta sua história deplorável. Era natural de Ítaca, sendo um dos homens de Ulisses, preso juntamente com ele na caverna do ciclope Polifemo. Ulisses e outros companheiros conseguiram escapar do monstro e fugir para os barcos, mas ele não teve a mesma sorte, ficando preso naquela ilha juntamente com gigantes e feras.

Já há três anos sobrevivia na miséria e na solidão, entre desertas covas e covis de feras, fugindo às intempéries e aos monstros. Por isso, avistando outros homens, mesmo reconhecendo-os como inimigos, correu a seu encontro, exclamando:

– Se devo perecer, ser-me-á doce perecer pela mão dos homens.

O homem prefere a comunhão de inimigos que a solidão implacável de uma natureza hostil.

Aristóteles diz que o homem é um zoon politikon, ou um animal político. O instinto humano o faz viver em bando, como ovelhas, formigas e abelhas. A humanidade foi criada como uma sociedade, e mesmo após o primeiro homicídio, o próprio culpado achou que o degredo imposto seria uma pena muito severa – viver errante pela terra dos viventes. O assassino queria companhia; o homem que primeiro ceifou a vida de seu semelhante não desejava viver sem a presença de outros semelhantes.

Idílios românticos, de vidas pastoris em solitária comunhão com a natureza, talvez só funcionem mesmo no país da Arcádia, onde o clima é ameno, os rios correm o ano inteiro e os vales verdejam. Nunca se cogitou de uma Arcádia na África subsaariana, habitada por feras, nem na floresta amazônica, infestada pela malária. Em um mundo desencaminhado pelo mal, o leão ruge contra os cordeiros, o deserto avança sobre os prados, e as tempestades ferem a terra, de modo que, na maioria dos lugares, o sonho árcade é um pesadelo hobbesiano.

A própria ideia de libertação e autoconhecimento que viria de uma jornada solitária acaba se mostrando uma quimera. Ao livrar-se dos grilhões da sociedade, sonho de Rousseau, ao dar  vazão ao instinto, obsessão da psicanálise, o homem não libertará um gênio criativo, um Chopin, um Goethe. Ao contrário, descartando sua racionalidade, o homem será apenas outro animal, um Nabucodonosor vagando como fera entre os campos da Babilônia. “O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”, é o que declama Augusto dos Anjos em um soneto ácido, porém sincero.

Quem se desgarra do grupo, no fim, sofre tanto quanto o homem abandonado na ilha dos ciclopes, que até o reencontro com inimigos lhe parece melhor que a continuidade de uma vida solitária em um mundo hostil.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Black Mirror: esboço de uma religião

Ao fim da quarta temporada, Black Mirror perde um pouco do fôlego em surpreender o telespectador. Vários temas se repetem, e é possível divisar duas categorias de episódios da série.

A primeira parte dos episódios problematiza o uso da tecnologia nas relações humanas, explorando tecnologias atuais, expandindo-as, e levando os conflitos até as últimas consequências. São pequenos contos viscerais, alguns macabros, que parecem apontar para um futuro próximo.

Abordam temas cotidianos com o tempero de um surrealismo que, embora irreal, não parece tão distante: a volatilidade da opinião pública (Hino Nacional e O Momento Waldo); a angústia e o sofrimento se tornando entretenimento (Hino Nacional, Quinze Milhões de Méritos e Urso Branco); o registro ilimitado da memória (Toda a Sua História); as relações sociais frágeis e fingidas com filtros de redes sociais (Queda Livre); a maternidade cada vez mais controladora (Arkangel); a tecnologia servindo legal ou ilegalmente para expor segredos íntimos (Manda quem Pode e Crocodilo); e o caso dos haters (Odiados pela Nação);

Outra parte dos episódios, no entanto, deixa os problemas para focar na solução. Se a tecnologia pode nos destruir enquanto espécie social, ela também será a única que poderá nos redimir. Essa categoria de episódios aponta para uma espécie de culto materialista com base em uma indagação central: o que é a vida?

Segundo a ótica cristã, a vida humana é o conjunto formado por corpo e alma. Há a matéria, um coração pulsando, sangue correndo, e sinapses sendo formadas nos neurônios. Mas não só. Há também a alma, elemento que dá ânimo à carcaça corporal, que lhe confere dignidade e que atesta que o homem é uma criação divina.

Já para o materialismo – a crença de que existe apenas a matéria, aí incluindo-se existencialistas, pós-modernistas e ateus – a vida não é mais que o funcionamento regular da atividade cerebral. Não há base moral nem muito menos física para diferenciar a vida de um homem da de um macaco, se ambos possuem cérebros.

Mas o ponto é outro. O ponto é que a consciência cerebral, o emaranhado de memórias, desejos, preferências e valores, pode ser considerado um sucedâneo do que chamamos de vida. Não existe alma, existe matéria, existe um arranjo mais ou menos ordenado de elementos químicos e impulsos elétricos que compõe memórias e desejos e cujo conjunto forma uma personalidade. A vida é apenas um chip individualizado.

E se conseguíssemos fazer o download dessa consciência?

Ou seja, e se conseguíssemos extrair a “vida” do corpo e levá-la para outro lugar? Alguns episódios da série exploram problemas associados a essa possibilidade, como o aprisionamento dessa consciência em objetos (Black Museum), ou o uso utilitário da consciência de clones reais ou digitais (Natal Branco e Hang the DJ). Mas é em Volto Já, San Junipero e USS Callister que essa ideia ganha contornos positivos para apresentar-se como o evangelho do materialismo.

Se a consciência pode ser prolongada pela tecnologia, então é possível criar um universo de acordo com as próprias preferências, onde essa consciência vive, comanda, escolhe diferentes corpos e diferentes histórias para se entreter. Eis a concepção secular do que seria céu ou paraíso.

O materialismo sempre vociferou sua crítica de forma contundente, mas nunca colocou nada no lugar da redenção. Fortes em desconstruir a narrativa cristã, os materialistas só conseguiram prometer uma liberdade que é mais uma condenação (parafraseando Sartre) do que uma libertação.

A liberdade da vida como acidente cósmico a vagar pela vastidão do universo não é lá uma ideia atrativa, pois não há propósito nem salvação neste mundo frio. Nem a popularidade de Carl Sagan ou a jornada evangelística e “delirante” de Richard Dawkins conquistaram muitos adeptos para abraçar essa ideia. Mas a crítica da narrativa cristã feita pelos materialistas, entretanto, essa possui certo apelo popular ao desafiar a autoridade de Deus: à semelhança do episódio USS Callister, estamos em um mundo criado por um deus ressentido e caprichoso, a quem devemos agradar atuando em papeis falsos, temerosos de castigos que possam nos atormentar pelo resto da eternidade. Não há escapatória.

Mas e se houver saída? É precisamente esse o ponto em que a crítica materialista e pós-moderna alia-se às promessas da tecnologia e apresenta um facho de esperança.

Os profetas dessa nova religião há muito já têm se animado com a ideia de universos paralelos e realidades alternativas. Veja qualquer documentário sobre o universo na Discovery ou no Netflix, e lá estarão físicos e astrônomos excitados com a ideia de haver, neste momento, universos paralelos onde existem outros eus com vidas diferentes.

Essas crenças não são apenas ficção cultivada por nerds, já que a própria ciência e nomes de peso como Stephen Hawking endossam teorias como do buraco de minhoca, o portal para adentrar outras dimensões, ou outros mundos. Quem sabe se acharmos esses buracos (uma atualização do sistema, segundo o episódio USS Callister), e entrarmos em outras dimensões, talvez descubramos que há outros mundos possíveis fora da metanarrativa cristã.

Mas a melhor alternativa é sermos nós mesmos os artífices do novo mundo, criando uma realidade virtual onde possamos viver como deuses, ou seja, onde nossa consciência, mantida ativa por alguma tecnologia nova, possa comandar e reinar livremente. Sem Deus, o universo permanece um grande espaço vazio e sem propósito, mas agora talvez tenhamos a possibilidade de viver para sempre no céu materialista. A esperança vale o risco da distopia.


Alguns já aguardam a chegada messiânica dessa tecnologia inovadora, olhando esperançosos para a nuvem. Lá em cima, no entanto, há apenas um grande espelho, enegrecido pelo reflexo que faz dos desejos aqui de baixo. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um Comércio de Natal


Não precisamos temer o escuro, pois o caminho é iluminado com luzes de Natal.
(N.D. Wilson)

A noite está mais iluminada. Não que seja lua cheia, ou que estejamos no verão em São Petersburgo, com suas noites brancas como disse Dostoiévski. O que ilumina a noite são as luzes de natal. É dezembro, e o pisca-pisca vai fazendo a cidade cintilar com essas pequenas estrelas de LED, luzindo casas, prédios e lojas, o que me acende a lembrança de que tenho de providenciar os enfeites lá de casa.

Monto a árvore e procuro o pisca no armário. Lá está ele, cuidadosamente guardado para essa única ocasião do ano. Desembolo os fios enquanto ouço de longe a televisão. As propagandas todas remetem ao tema natalino. O Papai Noel quase não sai da tela. Entre liquidações de fim de ano e saldão de natal, alguns comerciais cuidam de ilustrar com a neve e a lareira que não temos o tal espírito natalino.

Ligo o cabo na tomada. Que pena: várias lâmpadas queimadas. Saio de casa para comprar outro pisca e vejo que a vizinha já pregou sua guirlanda na porta, e aqui ainda estamos com uma entrada lisa como se fosse março ou agosto – mas é dezembro.

As lojas mergulham em vermelho e verde, ursos, renas, presépios e luzes das mais variadas. O comércio vibra com a ocasião. Compro um novo pisca – e espero que dure por uns dez anos. Não achei a guirlanda, mas garanti o panetone e o presente do amigo-oculto. Volto para casa com o pisca, o panetone o presente e um folder promocional com desenhos do Papai-Noel.

O natal: “virou comércio; marketing; dinheiro; desvirtuou-se do sentido correto”. Todo ano ouço tais alegações. Que foi adaptação de festivais pagãos em Roma em uma união sincrética com o cristianismo. Que Papai Noel é São Nicolau transformado em ídolo consumista. Que a data foi criada para aquecer o comércio no fim do ano.

E quer saber? Que bom contar com o adorno do comércio para data tão especial. Ele enfeita as ruas, colore a cidade, ilumina a noite, cria um clima terno, espalha generosidade e vai preparando o coração para o dia vinte e cinco. São as luzes dos shoppings, ainda em fins de novembro, que lembram que é chegada a época natalina.

Se em alguns corações a luz do pisca-pisca ofusca a estrela que brilha em Belém, a solução não é fechar os olhos ou desligar a energia, mas convidar todos a elevarem as frontes para o alto, ouvir os anjos cantando e ver que há um caminho de paz.

Aliás, não fossem os sinos a retinir e os hinos a tocar em cada jingle comercial, o clima e a expectativa para o evento não seriam tão bem construídos. Não fosse o esmero dos lojistas em criar lindas decorações com laços vermelhos e luzes coloridas, acho que nunca seria incentivado a pregar um único enfeite lá em casa. Não fossem a neve caindo e a lareira acesa nos filmes da televisão, talvez não cultivasse tão fortemente esse sentimento de aconchego e de união familiar.

Como poderia idealizar uma bela ceia com mesa farta não fossem as propagandas de Chester e os anúncios de supermercados? O que seria de dezembro sem os comerciais da Coca-Cola, de um primor estético tão envolvente? O que seria da minha rua lá embaixo não fosse o caminhão da Coca-Cola passando todo ano e fazendo a alegria da criançada?

E quem liga que não foi precisamente no dia vinte e cinco de dezembro? Importa reunir a família e reverenciar a ocasião: o evento glorioso que dividiu a história, a noite onde anjos cantaram e onde o infinito vestiu-se de carne, viveu entre nós e habitou entre nós.

Se há interesses comerciais, se há presentes, que venham todos e sejam depositados aos pés da manjedoura.

Que a noite de natal tenha presentes, sorrisos, Coca-Cola, luzes, enfeites, árvores, guirlandas, ceias saborosas, panetones, Papai-Noel. Que o palco se arme com todos esses enfeites para criar a maior das festas. Eles não são necessários, é verdade, mas eu tenho para mim que eles deixam o evento ainda mais bonito e a noite ainda mais clara, pois assim como bolas douradas adornam um rígido pinheiro, esses ornatos embelezam a madeira úmida da manjedoura.

Sinos tocam em algum comercial da televisão. A casa já está devidamente decorada, a árvore está montada e as luzes piscam. Os convidados chegam felizes, trocam sorrisos, abraços e presentes. A mesa está sendo colocada, e tem coisa boa vindo da cozinha.


A ceia é vistosa e a noite agradável. É possível ouvir o choro de um bebê, tão leve como um estrondo que sacode a terra e abala as fundações do universo. Como não celebrar com o melhor que temos? Comamos e bebamos, porque hoje, no natal, viveremos.