quinta-feira, 14 de junho de 2018

Vai ter Copa

Parece que 53% dos brasileiros estão desinteressados com a Copa, segundo uma pesquisa. Repetindo: mais da metade do país não está ligando para a Copa do Mundo. Ótimo! Porque daí a gente pode fazer uma escala: divide o Brasil meio a meio e a metade que não está ligando para a Copa vai trabalhar na hora do jogo. Proposta justa.

O número a princípio parece alto demais: metade do país do futebol desanimada com a Copa. Mas, se olharmos para o lado, é isso mesmo. Há muita gente ao nosso derredor ostentando esse ar de indiferença.

Dentro desses 53% tem aqueles que acham que gostar de Copa é esquecer dos problemas reais e por isso gravam vídeos dizendo “o Brasil que eu quero tem mais educação e menos seleção”. Tem o grupo dos desalentados com o 7 a 1, de ressaca moral com o chocolate germânico, desesperançados com a bola – o que dá até para entender, mas... Copa é Copa. Tem o pessoal que está se coçando para torcer mas não quer vestir a camisa amarela porque é a camisa da CBF e o uniforme dos manifestantes, e o Brasil é maior que a CBF. E tem outros que de fato acreditam nessa história e acham que Copa é manipulação da Globo, da Fifa e das grandes corporações corruptas, e preferem assistir competições sustentáveis, sem corrupção e cujos vencedores inspiram virtudes, como o Tour de France.

Nessa metade tem ainda o amigo que diz que vai torcer para a Alemanha e o garoto que só quer saber do Cristiano Ronaldo, e dizem não estar ligando para o Brasil. Tem o pessoal que colecionou o álbum com afinco, mas que agora faz charme, dando de ombros para o evento. E tem, por último, aqueles 3%, dentro dos 53, que nunca ligaram mesmo para a Copa do Mundo.

Será de fato um dia chato e triste encontrar todas essas pessoas trabalhando juntas. Ver o país tocado por elas, no caixa do mercado, na portaria, na repartição. Sair de casa e dar de cara com esses patriotas amargos.

Que bom que eu sou da outra metade!

Estrangeirismo





Há quem se encante
Com as cerejeiras 
No Japão
É porque nunca viu
Os ipês rosas
No Eixão

sábado, 19 de maio de 2018

A feminista que queria ser princesa

Meghan Markle, a ativista feminina, que, criança ainda, encabeçou uma luta pela igualdade das mulheres – e se tornou princesa.

Meghan Markle, a atriz bem-sucedida, emancipada, independente. Que largou tudo, que abandonou a profissão e nela não poderá mais trabalhar – para se tornar uma princesa.

Meghan, a mulher divorciada, representante dos novos tempos, da mistura de raças, da mistura de crenças, do girl power. Que se batizou na Igreja Anglicana, que aderiu fielmente às tradições e protocolos da realeza e da religião, e se ajoelhou para receber a bênção.

Há alguma insistência em dizer que Meghan Markle chegou para dar certa arejada à família real britânica justamente por suas posições firmes, por sua opinião forte, especialmente quanto aos direitos das mulheres.

Meghan não subiu ao altar acompanhada pelos pais – quebra de protocolo. Meghan é divorciada – quebra de protocolo. Meghan não teve madrinha – quebra de protocolo. A imprensa tem ressaltado esses detalhes vivamente, efusivamente. Os novos tempos chegaram, até a tradição e os arcaísmos da família real se dobram perante os imperativos da liberdade e da igualdade. E Meghan alcançou isso tudo... se tornando uma princesa!

Não pode haver paradoxo mais evidente. Um conto de fadas real, a carruagem, a catedral, os lacaios, o ministro religioso, o coro, os vestidos, o véu. E brilhando nisso tudo a princesa que muitos tomam como símbolo feminista.

Parece que, afinal de contas, aquela menininha destemida que lutou pela igualdade das mulheres no fundo acalentou o sonho de toda menina – se casar com um príncipe, entrar na igreja vestida de branco e se tornar uma princesa.

Diminuição das mulheres? Volta da sociedade patriarcal? Ou apenas o reavivamento de sonhos inatos, de aspirações que ainda pulsam resistindo ao tempo? Que cada um tire as próprias conclusões.

Dia bonito – e estranho – em que o secularismo se rende à religião, a modernidade reverencia a tradição, o amor livre se doa ao matrimônio e o ceticismo suspira com contos de fada.   

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Solidão na ilha dos ciclopes



Eneias, o herói troiano, margeava a costa da Sicília quando aportou na ilha dos ciclopes. Lá seus homens avistam um sujeito deplorável: vem andando sujo, com vestes rotas, a barba imunda, e se prostra aos pés do grupamento que cercava Eneias. Apesar dos andrajos, reconhecem nele um grego; o próprio homem, pelos penachos dos elmos, reconhece que os homens que chegaram à ilha são troianos.

A inimizade entre eles não impede o encontro. Nem mesmo uma guerra de dez anos, travada entre gregos e troianos, basta para manter apartados antigos inimigos. O estranho homem vem andando decidido, ciente de que se lança aos braços dos adversários.

Indagado sobre o porquê de tal temeridade, o homem conta sua história deplorável. Era natural de Ítaca, sendo um dos homens de Ulisses, preso juntamente com ele na caverna do ciclope Polifemo. Ulisses e outros companheiros conseguiram escapar do monstro e fugir para os barcos, mas ele não teve a mesma sorte, ficando preso naquela ilha juntamente com gigantes e feras.

Já há três anos sobrevivia na miséria e na solidão, entre desertas covas e covis de feras, fugindo às intempéries e aos monstros. Por isso, avistando outros homens, mesmo reconhecendo-os como inimigos, correu a seu encontro, exclamando:

– Se devo perecer, ser-me-á doce perecer pela mão dos homens.

O homem prefere a comunhão de inimigos que a solidão implacável de uma natureza hostil.

Aristóteles diz que o homem é um zoon politikon, ou um animal político. O instinto humano o faz viver em bando, como ovelhas, formigas e abelhas. A humanidade foi criada como uma sociedade, e mesmo após o primeiro homicídio, o próprio culpado achou que o degredo imposto seria uma pena muito severa – viver errante pela terra dos viventes. O assassino queria companhia; o homem que primeiro ceifou a vida de seu semelhante não desejava viver sem a presença de outros semelhantes.

Idílios românticos, de vidas pastoris em solitária comunhão com a natureza, talvez só funcionem mesmo no país da Arcádia, onde o clima é ameno, os rios correm o ano inteiro e os vales verdejam. Nunca se cogitou de uma Arcádia na África subsaariana, habitada por feras, nem na floresta amazônica, infestada pela malária. Em um mundo desencaminhado pelo mal, o leão ruge contra os cordeiros, o deserto avança sobre os prados, e as tempestades ferem a terra, de modo que, na maioria dos lugares, o sonho árcade é um pesadelo hobbesiano.

A própria ideia de libertação e autoconhecimento que viria de uma jornada solitária acaba se mostrando uma quimera. Ao livrar-se dos grilhões da sociedade, sonho de Rousseau, ao dar  vazão ao instinto, obsessão da psicanálise, o homem não libertará um gênio criativo, um Chopin, um Goethe. Ao contrário, descartando sua racionalidade, o homem será apenas outro animal, um Nabucodonosor vagando como fera entre os campos da Babilônia. “O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”, é o que declama Augusto dos Anjos em um soneto ácido, porém sincero.

Quem se desgarra do grupo, no fim, sofre tanto quanto o homem abandonado na ilha dos ciclopes, que até o reencontro com inimigos lhe parece melhor que a continuidade de uma vida solitária em um mundo hostil.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Black Mirror: esboço de uma religião

Ao fim da quarta temporada, Black Mirror perde um pouco do fôlego em surpreender o telespectador. Vários temas se repetem, e é possível divisar duas categorias de episódios da série.

A primeira parte dos episódios problematiza o uso da tecnologia nas relações humanas, explorando tecnologias atuais, expandindo-as, e levando os conflitos até as últimas consequências. São pequenos contos viscerais, alguns macabros, que parecem apontar para um futuro próximo.

Abordam temas cotidianos com o tempero de um surrealismo que, embora irreal, não parece tão distante: a volatilidade da opinião pública (Hino Nacional e O Momento Waldo); a angústia e o sofrimento se tornando entretenimento (Hino Nacional, Quinze Milhões de Méritos e Urso Branco); o registro ilimitado da memória (Toda a Sua História); as relações sociais frágeis e fingidas com filtros de redes sociais (Queda Livre); a maternidade cada vez mais controladora (Arkangel); a tecnologia servindo legal ou ilegalmente para expor segredos íntimos (Manda quem Pode e Crocodilo); e o caso dos haters (Odiados pela Nação);

Outra parte dos episódios, no entanto, deixa os problemas para focar na solução. Se a tecnologia pode nos destruir enquanto espécie social, ela também será a única que poderá nos redimir. Essa categoria de episódios aponta para uma espécie de culto materialista com base em uma indagação central: o que é a vida?

Segundo a ótica cristã, a vida humana é o conjunto formado por corpo e alma. Há a matéria, um coração pulsando, sangue correndo, e sinapses sendo formadas nos neurônios. Mas não só. Há também a alma, elemento que dá ânimo à carcaça corporal, que lhe confere dignidade e que atesta que o homem é uma criação divina.

Já para o materialismo – a crença de que existe apenas a matéria, aí incluindo-se existencialistas, pós-modernistas e ateus – a vida não é mais que o funcionamento regular da atividade cerebral. Não há base moral nem muito menos física para diferenciar a vida de um homem da de um macaco, se ambos possuem cérebros.

Mas o ponto é outro. O ponto é que a consciência cerebral, o emaranhado de memórias, desejos, preferências e valores, pode ser considerado um sucedâneo do que chamamos de vida. Não existe alma, existe matéria, existe um arranjo mais ou menos ordenado de elementos químicos e impulsos elétricos que compõe memórias e desejos e cujo conjunto forma uma personalidade. A vida é apenas um chip individualizado.

E se conseguíssemos fazer o download dessa consciência?

Ou seja, e se conseguíssemos extrair a “vida” do corpo e levá-la para outro lugar? Alguns episódios da série exploram problemas associados a essa possibilidade, como o aprisionamento dessa consciência em objetos (Black Museum), ou o uso utilitário da consciência de clones reais ou digitais (Natal Branco e Hang the DJ). Mas é em Volto Já, San Junipero e USS Callister que essa ideia ganha contornos positivos para apresentar-se como o evangelho do materialismo.

Se a consciência pode ser prolongada pela tecnologia, então é possível criar um universo de acordo com as próprias preferências, onde essa consciência vive, comanda, escolhe diferentes corpos e diferentes histórias para se entreter. Eis a concepção secular do que seria céu ou paraíso.

O materialismo sempre vociferou sua crítica de forma contundente, mas nunca colocou nada no lugar da redenção. Fortes em desconstruir a narrativa cristã, os materialistas só conseguiram prometer uma liberdade que é mais uma condenação (parafraseando Sartre) do que uma libertação.

A liberdade da vida como acidente cósmico a vagar pela vastidão do universo não é lá uma ideia atrativa, pois não há propósito nem salvação neste mundo frio. Nem a popularidade de Carl Sagan ou a jornada evangelística e “delirante” de Richard Dawkins conquistaram muitos adeptos para abraçar essa ideia. Mas a crítica da narrativa cristã feita pelos materialistas, entretanto, essa possui certo apelo popular ao desafiar a autoridade de Deus: à semelhança do episódio USS Callister, estamos em um mundo criado por um deus ressentido e caprichoso, a quem devemos agradar atuando em papeis falsos, temerosos de castigos que possam nos atormentar pelo resto da eternidade. Não há escapatória.

Mas e se houver saída? É precisamente esse o ponto em que a crítica materialista e pós-moderna alia-se às promessas da tecnologia e apresenta um facho de esperança.

Os profetas dessa nova religião há muito já têm se animado com a ideia de universos paralelos e realidades alternativas. Veja qualquer documentário sobre o universo na Discovery ou no Netflix, e lá estarão físicos e astrônomos excitados com a ideia de haver, neste momento, universos paralelos onde existem outros eus com vidas diferentes.

Essas crenças não são apenas ficção cultivada por nerds, já que a própria ciência e nomes de peso como Stephen Hawking endossam teorias como do buraco de minhoca, o portal para adentrar outras dimensões, ou outros mundos. Quem sabe se acharmos esses buracos (uma atualização do sistema, segundo o episódio USS Callister), e entrarmos em outras dimensões, talvez descubramos que há outros mundos possíveis fora da metanarrativa cristã.

Mas a melhor alternativa é sermos nós mesmos os artífices do novo mundo, criando uma realidade virtual onde possamos viver como deuses, ou seja, onde nossa consciência, mantida ativa por alguma tecnologia nova, possa comandar e reinar livremente. Sem Deus, o universo permanece um grande espaço vazio e sem propósito, mas agora talvez tenhamos a possibilidade de viver para sempre no céu materialista. A esperança vale o risco da distopia.


Alguns já aguardam a chegada messiânica dessa tecnologia inovadora, olhando esperançosos para a nuvem. Lá em cima, no entanto, há apenas um grande espelho, enegrecido pelo reflexo que faz dos desejos aqui de baixo. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um Comércio de Natal


Não precisamos temer o escuro, pois o caminho é iluminado com luzes de Natal.
(N.D. Wilson)

A noite está mais iluminada. Não que seja lua cheia, ou que estejamos no verão em São Petersburgo, com suas noites brancas como disse Dostoiévski. O que ilumina a noite são as luzes de natal. É dezembro, e o pisca-pisca vai fazendo a cidade cintilar com essas pequenas estrelas de LED, luzindo casas, prédios e lojas, o que me acende a lembrança de que tenho de providenciar os enfeites lá de casa.

Monto a árvore e procuro o pisca no armário. Lá está ele, cuidadosamente guardado para essa única ocasião do ano. Desembolo os fios enquanto ouço de longe a televisão. As propagandas todas remetem ao tema natalino. O Papai Noel quase não sai da tela. Entre liquidações de fim de ano e saldão de natal, alguns comerciais cuidam de ilustrar com a neve e a lareira que não temos o tal espírito natalino.

Ligo o cabo na tomada. Que pena: várias lâmpadas queimadas. Saio de casa para comprar outro pisca e vejo que a vizinha já pregou sua guirlanda na porta, e aqui ainda estamos com uma entrada lisa como se fosse março ou agosto – mas é dezembro.

As lojas mergulham em vermelho e verde, ursos, renas, presépios e luzes das mais variadas. O comércio vibra com a ocasião. Compro um novo pisca – e espero que dure por uns dez anos. Não achei a guirlanda, mas garanti o panetone e o presente do amigo-oculto. Volto para casa com o pisca, o panetone o presente e um folder promocional com desenhos do Papai-Noel.

O natal: “virou comércio; marketing; dinheiro; desvirtuou-se do sentido correto”. Todo ano ouço tais alegações. Que foi adaptação de festivais pagãos em Roma em uma união sincrética com o cristianismo. Que Papai Noel é São Nicolau transformado em ídolo consumista. Que a data foi criada para aquecer o comércio no fim do ano.

E quer saber? Que bom contar com o adorno do comércio para data tão especial. Ele enfeita as ruas, colore a cidade, ilumina a noite, cria um clima terno, espalha generosidade e vai preparando o coração para o dia vinte e cinco. São as luzes dos shoppings, ainda em fins de novembro, que lembram que é chegada a época natalina.

Se em alguns corações a luz do pisca-pisca ofusca a estrela que brilha em Belém, a solução não é fechar os olhos ou desligar a energia, mas convidar todos a elevarem as frontes para o alto, ouvir os anjos cantando e ver que há um caminho de paz.

Aliás, não fossem os sinos a retinir e os hinos a tocar em cada jingle comercial, o clima e a expectativa para o evento não seriam tão bem construídos. Não fosse o esmero dos lojistas em criar lindas decorações com laços vermelhos e luzes coloridas, acho que nunca seria incentivado a pregar um único enfeite lá em casa. Não fossem a neve caindo e a lareira acesa nos filmes da televisão, talvez não cultivasse tão fortemente esse sentimento de aconchego e de união familiar.

Como poderia idealizar uma bela ceia com mesa farta não fossem as propagandas de Chester e os anúncios de supermercados? O que seria de dezembro sem os comerciais da Coca-Cola, de um primor estético tão envolvente? O que seria da minha rua lá embaixo não fosse o caminhão da Coca-Cola passando todo ano e fazendo a alegria da criançada?

E quem liga que não foi precisamente no dia vinte e cinco de dezembro? Importa reunir a família e reverenciar a ocasião: o evento glorioso que dividiu a história, a noite onde anjos cantaram e onde o infinito vestiu-se de carne, viveu entre nós e habitou entre nós.

Se há interesses comerciais, se há presentes, que venham todos e sejam depositados aos pés da manjedoura.

Que a noite de natal tenha presentes, sorrisos, Coca-Cola, luzes, enfeites, árvores, guirlandas, ceias saborosas, panetones, Papai-Noel. Que o palco se arme com todos esses enfeites para criar a maior das festas. Eles não são necessários, é verdade, mas eu tenho para mim que eles deixam o evento ainda mais bonito e a noite ainda mais clara, pois assim como bolas douradas adornam um rígido pinheiro, esses ornatos embelezam a madeira úmida da manjedoura.

Sinos tocam em algum comercial da televisão. A casa já está devidamente decorada, a árvore está montada e as luzes piscam. Os convidados chegam felizes, trocam sorrisos, abraços e presentes. A mesa está sendo colocada, e tem coisa boa vindo da cozinha.


A ceia é vistosa e a noite agradável. É possível ouvir o choro de um bebê, tão leve como um estrondo que sacode a terra e abala as fundações do universo. Como não celebrar com o melhor que temos? Comamos e bebamos, porque hoje, no natal, viveremos.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Entre Joaquim Barbosa e Bolsonaro: a inclinação política ao Exército e ao Judiciário

Bolsonaro está em segundo lugar nas pesquisas para presidente. Apesar de já ser deputado há alguns anos, o capitão do Exército é visto como um outsider do sistema político, daí grande parte de seu prestígio junto à classe média.

As pesquisas também trazem, volta e meia, nomes de personalidades do mundo jurídico como possíveis candidatos a cargos políticos: Joaquim Barbosa, Carmem Lúcia, Rodrigo Janot. Também aí a explicação é o cansaço da população com os políticos tradicionais.

Longe de refletir apenas circunstância momentânea, as pesquisas revelam uma inclinação comum da política brasileira. Desprezo pela classe política e apreço por justiceiros externos, seja de farda ou de toga.

Dos tenentes ao regime militar

Desde o início do século XX até culminar com o regime militar, o Exército afigurou-se como o grande árbitro das questões políticas nacionais. Basta lembrar que a república nasceu, antes de tudo, a partir de um golpe militar.

O monopólio do poder da força é um fato óbvio que mostra a relevância das forças armadas em qualquer país do mundo, mormente em um país continental como o Brasil. Discursos não vencem tanques. Se os tanques avançam unidos em uma mesma direção política, então, conseguem transpor quaisquer resistências políticas.

Mas além dessa relação evidente entre a força política do Exército, no Brasil três outros fatores explicam a inclinação aos militares.

Primeiro, a politização dos quarteis, a partir dos ensinos de Benjamin Constant na Escola Militar da Praia Vermelha. Munido de uma retórica positivista, o professor Constant insuflou nos jovens oficiais o dever político de salvar a nação segundo a ordem e a disciplina dos militares. Toda uma geração de oficiais assumiu a sina de reformar o país, acabar com as injustiças sociais e a corrupção das oligarquias da República Velha.

Em segundo lugar, a maior parte dos oficiais de baixa patente era de classe média, criando uma identificação recíproca. Ao contrário dos coronéis da antiga Guarda Nacional, em geral proprietários de terras do interior, ou dos aristocráticos exércitos de outros países latino-americanos, grande parte dos oficiais do Exército brasileiro integravam os setores médios urbanos. A identificação mútua levou a dois efeitos. De um lado, os oficiais passaram a expressar os anseios da classe média, transformando suas reivindicações políticas em pressões armadas. De outro, a classe média passou a enxergar nos oficiais do Exército aliados importantes, que inspiravam confiança e lutavam conjuntamente contra a degradação política.

Em terceiro, a extensão por todo o território brasileiro e a unidade do Exército faziam dele uma força realmente nacional. Em contexto de partidos políticos regionais e não ideológicos, apenas o Exército e a Igreja tinham voz em todo o Brasil.

O jacobinismo de Floriano Peixoto, a explosão do movimento tenentista na década de 1920, a Revolução de 1930 e o regime miliar de 1964 mostram a escalada da penetração dos militares na política.

A política se sustentava nos quarteis. O general Góes Monteiro garantiu o governo Vargas, assim como Teixeira Lott avalizou a posse de JK. O tenente Luis Carlos Prestes enveredou para o comunismo, enquanto Juarez Távora (o “Vice-Rei do Norte”), seu companheiro da Coluna Prestes, galgou os altos escalões da política. O general Dutra foi eleito presidente, já o brigadeiro Eduardo Gomes não teve a mesma sorte, apesar de sempre entusiasmar a classe média. Para acabar com a confusão, o general Castelo Branco e sua turma tomaram o poder em 1964, de lá só saindo em 1985.

Descrédito, ressentimento e Bolsonaro

O jogo virou após 1985. A presidência foi assumida por atores que estiveram diretamente envolvidos contra o regime militar: Fernando Henrique nas universidades e círculos intelectuais; Lula nos movimentos sindicais; e Dilma na luta armada – todos críticos do regime e do que ele representou. Como é natural, a história foi reescrita pelos vencedores, e os militares caíram em total descrédito.

O discurso político não mais encontrava ressonância nos quarteis, nem a classe média via nos oficiais uma esperança política crível. O Exército deixou de ser o árbitro das questões políticas.

Diante dessa virada, alguns analistas falam do ressentimento provocado em jovens oficiais que aguardavam sua vez para entrar no jogo da política. Jair Bolsonaro é exemplo desse grupo. Tenente do Exército na década de 1980, o militar esperava sua vez com paciência na fila da hierarquia, mas quando ascendeu ao posto de capitão, não havia mais governo militar, e os militares haviam caído em total descrédito popular.

Recentemente, no entanto, começaram a ter voz grupos pedindo intervenção militar. Mas diferentemente do passado, não se trata de uma nova politização dos quarteis, mas da idealização popular do governo militar como um período áureo. O prestígio do Exército tem sido evocado para estancar a crise atual, mas até agora é um movimento isolado, e somente Bolsonaro tem capitalizado sobre ele.  

Judiciário – o novo árbitro

A Constituinte de 1987/1988 representou um arranjo político ambíguo entre as várias correntes sociais pós-redemocratização, de forma que o documento final produzido consistiu numa carta política longa, prolixa e até contraditória.

Devido a essa natureza da Constituição, o Judiciário tem sido chamado frequentemente para resolver conflitos entre os Poderes. A própria configuração institucional de 1988 exige a manifestação do Judiciário para interpretar normas e conferir a baliza política a se seguir. Por isso se tem dito que o Judiciário se transformou no Poder Moderador da Nova República. Tudo acaba no STF, e o STF define as regras do jogo.

Mas a par disso, também há maior ativismo judicial. Imbuídos de um espírito reformista, de ideais de justiça social, uma nova geração de juristas se formou e agora atua com engajamento social. Não basta julgar conflitos ou interpretar normas, mas sim conferir validade aos “princípios republicanos imanentes ao texto constitucional”.

Os magistrados são os novos tenentes. Não com fuzis, mas com o poder da caneta; não percorrendo o território nacional, mas frequentando congressos em resorts de luxo; não reclamando dos baixos soldos, mas ganhando até auxílio-moradia.

Observa-se, assim, a junção de dois movimentos: primeiro, o maior espaço para a atuação judicial em vista da natureza da Constituição; segundo, o voluntarismo e o ideal reformista presentes nos círculos jurídicos formadores da nova geração de operadores do direito.

Juízes, ministros e procuradores representam agora o que os militares representavam no começo do século XX: atores éticos, fora do círculo da política, que lutam contra a corrupção. Por isso, além de serem bem vistos pela população, são geralmente cotados para altos cargos políticos, vide o nome de Joaquim Barbosa sempre entre os presidenciáveis.

Como se vê, é antiga a inclinação política ao Exército e mais recentemente ao Judiciário. A cada nova eleição, renovam-se os nomes, mas permanece certa desconfiança quanto à classe política.