quinta-feira, 31 de maio de 2007

Perdidos

Um avião cai no meio de uma desconhecida ilha do Pacífico. Pessoas que nunca antes haviam se encontrado têm seu destino cruzado naquele pequeno pedaço de terra no fim do mundo. Cria-se uma nova sociedade, formada de indivíduos aparentemente sem nenhum laço relacional. É a perfeita oportunidade para uma segunda chance, para começar de novo, pois ninguém possui uma ficha ou um arquivamento na memória dos outros. São todos iguais, em iguais condições.

Antes as coisas funcionassem assim. Cada pessoa carrega consigo as marcas e manchas de seu passado tão fortemente, ainda que fortemente também queiram se livrar delas, que não é possível fazer uma dissociação entre passado e presente. Não só carregam, mas são sua própria história, que andam e desandam pelos caminhos da vida. Logo se configuram os estereótipos, que são meticulosamente atribuídos aos seus donos. Surge o líder, o vilão, o egoísta, o viciado, o gordo. Não por acaso, parece que todos são julgados por suas vidas passadas, mesmo que ninguém as conheça.

Todo pensamento, movimento ou ação são reflexos de coisas que ficaram enterradas nas areias do passado. Mas como o mar é mar, e tem ondas, frequentemente essas coisas voltam com a maré e aparecem na praia. Nas interessantes histórias passadas (os flashbacks), percebemos claro como as águas que todas as palavras ou atos são respostas dirigidas ao passado. Ninguém vive mais no seu mundo tal como o conhecia. As pessoas mudaram, as necessidades mudaram, o lugar mudou. Mas a memória é a mesma. O caráter é o mesmo. Iguais são os medos e anseios, e o desejo de provar algo a alguém se torna uma luta vazia de si contra si mesmo.

Escravos se tornam do ontem. E isso não se dá pela peculiaridade da história de um ou de outro, mas é geral, pois todos são escravos de suas condições. São perdidos. Por que é tão intenso o desejo de voltar pra casa? Há algo de valor que os espera lá fora? Não. São pessoas perdidas fisicamente no meio do maior oceano. São homens e mulheres perdidos emocional e espiritualmente, tais como os insanos. O acidente foi a contra prova à escola dos românticos, pois fugindo da vida cotidiana, nossos personagens não acharam felicidade nas sonhadas ilhas paradisíacas e desertas, mas depararam-se com o desespero e a solidão.

Ainda que venha o resgate e todos se safem, ainda assim a peça não mudará. Será um tempo de mudança no cenário. Os atores botarão nova maquiagem e figurino. Mas o roteiro continuará o mesmo. E não há nome mais perfeito para o título dessa tragédia do que “Perdidos”, que mais que um programa de TV é o seriado da existência humana. Alguns podem achar o final imprevisível e instigante, mas aqui eu os revelo o último capítulo. Todos morrem, ao menos que “alguém” os ache.

5 comentários:

Carva disse...

Parabens digo...
Muito bom esse texto de LOST!!!!
E o nosso papel é não sermos coniventes com essas pessoas e orarmos muito a Deus para que Ele use nossas vidas para que possamos ajuda-los a sair dessa vida perdida e encontrem a salvação em Cristo Jesus... Deus abençoe sua vida mlk!!!

Abraçao

Pri Mayra disse...

Nossa..
adorei Digo!!!
Deus te abençoe.
Eu tenho blog tem uns 2 meses e nunca postei nada..hahahaha...
Agora até me animei.
Bjo!
Pri Mayra

Anônimo disse...

Valeu, Digo.
Vou passar sempre por aqui...
LM

Hélvio Sodré disse...

Não há como fugir da essência humana, só Jesus pode nos libertar das cadeias q nos deixam ilhados, alheios à salvação. Excelente texto digo. Gostei mto do seu blog, ta add e vo frequentar. Um grande abraço do teu brother.

Adinor disse...

Caramba...
E eu que achava que você assistia por causa da Kate...

Sua análise é impressionante! Uma profundidade que só quem tem o espírito literário e filosófico conseguiria fazer.

Parabéns, fico cada vez mais orgulhoso. Todos no meu trabalho já leram.

Bjs