quinta-feira, 28 de junho de 2007

Um pouco de economia: Cordão de três dobras

A questão toda é: substituição ou complementaridade. Se no seu trabalho chega alguém tão capacitado quanto você, há duas opções. A primeira é associar-se a ele, de modo que sua produtividade aumente com o intercâmbio de conhecimento. A segunda é competir com ele, já que agora você já não é mais o melhor da sua área. A escolha configurará duas situações, uma onde haverá rendimentos crescentes, e outra onde se terá rendimentos decrescentes. A perda ou o ganho dependerá se você e seu colega se complementam ou se substituem.

Geralmente, o que se observa é que as pessoas tendem a se complementar e formar alianças. Isso é verdade principalmente no que se refere ao conhecimento e à capacitação individual. Essa é a explicação de porque as pessoas se aglomeram para morar perto uma das outras. É nas cidades que as pessoas bem qualificadas encontram quem está à altura delas. Por que razão há pessoas que insistem em morar em São Paulo, senão para estar perto de outras pessoas? Por esse motivo é que em cidades com populações qualificadas o salário médio é maior (as pessoas são mais produtivas na presença de outras mais qualificadas).

Esse jogo de alianças aponta para o agrupamento dos semelhantes. Outro exemplo é o setor de imóveis. Ricos e pobres não estão distribuídos aleatoriamente pela cidade, mas dividem-se em bairros ricos e pobres. Uma mansão construída num bairro pobre teria o seu valor reduzido pela influência negativa exercida pela vizinhança (criminalidade, qualidade da educação, etc.). Assim, quem enriquece mudará para um bairro rico em vez de reformar sua casa no bairro pobre. O mais interessante, porém, está nos incentivos à qualificação. Uma pessoa pobre sabe que todo o seu esforço em deixar sua casa e quintal arrumados pouco influirá no preço do seu imóvel, visto que os parceiros da sua aliança (o bairro) exercem influência negativa no mesmo. Já uma pessoa de bairro rico tem grandes incentivos a cuidar de sua casa. Uma vez que as outras casas puxam o preço para cima, o descuido faria apenas o preço da casa cair em relação às outras casas.

Transferindo esse exemplo para o caso das qualificações, há uma tendência natural que pessoas qualificadas se concentrem em um lugar, ao passo que pessoas não-qualificadas se concentrem em outros. Pior, quem vive no lugar onde há conhecimento tem incentivos a se qualificar mais, ao contrário de quem vive nos lugares onde não há conhecimento, que tem pouco ou nenhum estímulo a qualificar-se. Não vale a pena alguém doutorar-se em Física em um lugar onde não haverá com quem consorciar-se. Porém, essa decisão é viável em um lugar repleto de doutores.

Isso se dá, como já mencionado, pelos rendimentos crescentes das qualificações. Ou seja, o conhecimento é mais produtivo onde ele é abundante do que onde ele é escasso. No país rico, os trabalhadores qualificados fazem aumentar a produtividade uns dos outros; no país pobre, os trabalhadores não-qualificados fazem diminuir a produtividade uns dos outros. Para tornar as coisas ainda piores, quem consegue obter uma formação num país pobre tenta se mudar para países ricos. Tem-se, então, um círculo vicioso da pobreza: um país é pobre simplesmente porque começou pobre.


(Há diversas soluções dadas a esse problema, que não foram apresentadas aqui pelo espaço. Podem ser publicadas posteriormente neste blog)
Texto baseado em EASTERLY, William. O espetáculo do Crescimento

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