domingo, 12 de agosto de 2007

Nem só de pão...

Após as invasões bárbaras e a conseqüente queda do Império Romano do Ocidente, o mundo europeu viveu um processo de involução. Esse período, chamado feudal, estendeu-se do século V ao século XV. Nesses tempos antigos, a sociedade divida em estamentos baseava-se em rígidos códigos de honra e fidelidade entre suseranos e vassalos, senhores e servos, reis e cavaleiros. Havia certa estagnação econômica, pois era pouco o excedente produzido pela agricultura. Somado a isso, havia o forte domínio exercido pela Igreja - a qual aplicava cruel coação psicológica, moral e até física para exercer o controle sobre os povos daquela região.

A população era composta em sua maioria por camponeses pobres. Trabalhavam diariamente seu pequeno pedaço de terra, única fonte de sustento, e pagavam altíssimos impostos sobre sua produção. Viviam presos a terra, sem poder conhecer outras partes do mundo. Sobreviviam com medo dos espíritos demoníacos, do castigo de Deus e da rejeição dos eclesiásticos. Também nesses tempos havia nobres, que viviam em sólidos castelos. Esses viviam obviamente em melhores condições, mas, como já falado, a estagnação econômica própria desse período impedia-os de desfrutarem uma maior variedade de consumo. Porém, um interessante fator mudou para sempre a história daquela região: a comida.


As causas das transformações modernas, narradas pelos livros de história, são fatores como pequenas melhoras nas técnicas de produção, o aumento populacional, as Cruzadas, donde, por sua vez, decorrem conseqüências como o aumento da produção agrícola, o ressurgimento das cidades e a reabertura de novas rotas de comércio. Essas relações de causalidade levam ao enfraquecimento da dominação da Igreja, à ascensão da burguesia e à consolidação do espírito moderno.

Mudanças profundas da sociedade ocorrem somente quando suas instituições vão ruindo pouco a pouco, dando lugar a novos paradigmas. Contudo, a única coisa capaz de empurrar ou proteger os alicerces institucionais da sociedade é o próprio homem. A mudança, portanto, deve ocorrer primeiramente nele. Guerras, conflitos e revoluções são apenas reflexos da mudança de mentalidade.

O aumento da produção agrícola e o incipiente comércio que se desenvolvia permitiram ao homem feudal comer mais e melhor. E com uma mente que passou a experimentar os sabores de novos requintes culinários, o homem pôde enfim transfigurar o mundo que conhecia. Talvez os produtos que mais mudaram esse continente foram as especiarias do oriente: pimenta, cravo, canela, mostarda, noz-moscada etc. Acostumado a refeições sem gosto, sem tempero, ficou o homem extasiado ante as novas sensações providas pelo paladar. E esses novos deleites sensitivos escravizaram as ações do homem, que se dedicou obstinadamente a conseguir esses temperos.

Da economia à física, passando pela filosofia, política, direito e as artes. Tudo mudou depois dessa experiência. Aí surgiu o personagem burguês, oportunista e visionário, que promoveu o elo entre o objeto e o desejo, tirando dessa prática o seu sustento. Vultosos investimentos foram feitos para a descoberta de novos caminhos às Índias (com o intuito de fugir do monopólio de especiarias exercido pelos mercadores italianos). A América é descoberta e o Brasil entra por acaso no meio dessa história. A burguesia financia a centralização do poder pelos reis e príncipes. Surgem os Estados nacionais. Sejam temperos orientais ou maior diversidade posta à mesa, o consumo se consolidou como fim em si mesmo. E assim o homem, realizando-se existencialmente em seu próprio prazer, adquire uma postura antropocêntrica. Vem o renascimento. A cultura muda. Enfim, o mundo em que vivemos! Mundo repleto de guerras, infindáveis conflitos e memoráveis tragédias, que apenas refletem o comportamento instintivo de um homem que corre cegamente em direção àquilo que lhe dá prazer. Porém, nem só de pão viverá o homem...

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