domingo, 14 de outubro de 2007

A Busca do Porta-Retrato


– Mas é que o vazio cresce a cada dia. Meu interior parece conter uma bolha de vácuo que incha cada vez que o tempo passa. Tento me habituar com essas coisas habituais, mas não dá. No fundo eu mesmo sei que estou perdido, numa escuridão de trevas profundas que me envolvem por completo.

– Você está sendo muito emotivo! A vida não é tão ruim assim como você diz ser. A gente tem que aceitar as coisas como elas são. Nunca vamos encontrar todas as repostas para todas as nossas perguntas. Então, sabe qual é o conselho que eu te dou? Se arruma que hoje eu te levo para sair! Vamos curtir, vamos esquecer todas as dores do mundo!

Ao fim dessa conversa, que já ia se tornando comum entre aqueles dois amigos, cada um foi para a sua prateleira. Viviam em uma terra bem distante daqui, numa fazenda. Eram porta-retratos, mas não o sabiam. Não havia neles nenhuma foto, apenas a moldura. Um era feito de uma madeira clara e envernizada, enquanto o outro era de ferro. Os dois, contudo, nem sabiam o que era uma foto, quanto mais um porta-retrato. Desconheciam, assim, a sua essência. O porta-retrato de madeira vivia uma séria crise existencial, pois nenhum motivo lhe dava prazer em existir. O de ferro não era daqueles que se detinham muito a pensar, pois achava que as indagações só trariam desilusões. Do contrário, amava a vida e tinha aprendido a se deleitar em situações das mais diversas. Louvava a liberdade que a vida tinha lhe ofertado. Deixava essa mesma vida o levar para onde ela quisesse; preferia a grandeza do acaso à pobreza de uma vida limitada por um propósito.

A história do de madeira chegava a ser irônica. Em sua interminável busca por um sentido, acabara interpretando vários papéis, os quais, naturalmente, terminaram num fracasso degradante. Certa vez, tentou fazer-se de cabide. Pendurou-se na haste que atravessava o armário e esperou que as roupas fossem colocadas nele, o que de fato ocorreu uma vez. O peso da roupa era tão grande para ele, e ele ali tão sem jeito desempenhando aquele papel de cabide, que por fim desistiu dessa idéia. Era contrária à sua natureza. Outras idéias vieram. Nenhuma, porém, obteve êxito. Seu amigo de ferro desestimulava todos esses projetos, porque para ele a vida não tinha que ser encontrada, mas vivida.

Foi quando, de súbito, o porta-retrato de madeira teve uma brilhante idéia. Afinal, era uma coisa tão óbvia: apenas quem o criara saberia exatamente a resposta para todas as suas perguntas. Procuraria, então, a pessoa que o tinha criado e perguntaria a ela para que ele servia. Pronto, agora ele pelo menos sabia o que procurar. A dificuldade da busca era, sem qualquer dúvida, enorme, uma vez que ele não sabia absolutamente nada daquele que o criara. Mas estava convicto de que até o fim de sua vida o encontraria. Passou, sem descanso, aquele mês todinho organizando e planejando sua grande jornada. Fazia mapas, colhia informações, escutava histórias. Tudo para efetivar sua grande e mais importante missão – encontrar seu criador e entender o propósito de sua existência.

Inesperadamente, na manhã de uma sexta-feira, entrou à casa um homem nunca antes visto naquela região. Contando assim, essa história parece até uma fábula, mas acreditem, de fato foi isto que ocorreu. Esse homem, adivinhem, era o próprio criador daqueles objetos. Quando o porta-retrato de madeira viu aquele senhor, não hesitou em prostrar-se diante dele. Embora nunca o tivesse visto, sabia quem ele era devido ao elo inerente que se estabelece entre a criatura e o criador. O porta-retrato fazendo tantos planos para chegar até aquele senhor, mas foi ele mesmo, seu criador, que o achou primeiro. O homem disse que vinha de outro mundo, e os criara para serem porta-retratos, ou seja, estruturas para darem suporte a uma foto. Apresentou-lhes umas duas ou três fotos e deu a eles de presente. Após algumas horas de conversas, aquele senhor voltou para o seu mundo, dizendo que voltaria em outra ocasião.

Finalmente aquele porta-retrato (e agora ele entendia esse nome) teve seu coração apaziguado, sua alma confortada e seu espírito renascido. Dia e noite segurava e exibia a foto presa à sua moldura, e se alegrava de tal modo que nada o tirava daquele estado. Pode-se dizer que aquilo sim era uma felicidade plena; estava ele cumprindo o objetivo de sua existência. Agora era claro. Todo o seu corpo, sua estrutura, sua história convergiam para cumprir com aquele propósito, determinado sabiamente por quem o havia criado. Muitos companheiros da casa achavam o desfecho dessa busca medíocre, porquanto questionavam a razão desse propósito. Mas apenas o porta-retrato de madeira sabia que a plenitude só é alcançada quando se faz aquilo que se nasceu, que se foi criado para fazer. Ele sabia que fugir de seu verdadeiro propósito é uma atitude que só pode ocorrer na estrada da perdição, da qual o fim é um abismo profundo. Assim, feliz e realizado, o porta-retrato de madeira ficou a segurar aquela foto incessantemente e, junto com outros utensílios daquela casa, continuaram a honrar para sempre o senhor que os havia criado.

Quanto ao porta-retrato de ferro, esse ouviu toda a experiência que o seu amigo havia passado, mas não acreditou nela. Teimava em acreditar que tinha nascido para uma coisa grande, como ser rico ou, quem sabe, famoso.

2 comentários:

Estalo disse...

Oi Digo, é a Patty! tô de blog agora! Me visita!

bjo

Lucas Carvalho disse...

Fala digo,
descobri seu blog hj, tá add
abração