terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Máquina do Tempo


Os ponteiros do relógio movem-se a cada instante, e seu movimento produz a mudança concreta da realidade física, deslocando corpos (os próprios ponteiros) ao longo do espaço. A percepção humana é que tais acontecimentos seguem uma ordem estável, acontecendo um após o outro e nunca de outra forma, gerando uma linearidade, talvez subjetiva, chamada tempo. Não sendo possível ao homem controlar o tempo, ao menos ele tentou entendê-lo e medi-lo, criando instrumentos capazes de quantificar o intervalo entre um acontecimento e outro ao longo do eixo temporal.

O controle do curso de eventos é desejo antigo, talvez sendo mais bem ilustrado pela máquina do tempo. Diversos filmes há que já brincaram com essas idéias e entusiasmaram suas platéias com roteiros fantásticos. De Volta para o Futuro, Os 12 Macacos, Déja Vu, Alta Freqüência, Heroes, Click e Efeito Borboleta são poucos exemplos dentre muitos outros. A idéia comum é alterar o passado para transformar o presente.

A própria saudade das coisas que morreram no passado revela que o tempo difere do espaço. Neste há a possibilidade de mover-se em direções diversas. Aquele, porém, é unidirecional; movimentos no tempo são possíveis apenas para frente, em direção ao futuro. Os processos tornam-se irreversíveis, uma vez iniciados. A pessoa depara-se, assim, com um cenário incerto cada vez que age ou deixa de agir, pois já que ela não pode visitar o futuro e ver as conseqüências de suas ações, não há como saber qual a melhor decisão a se tomar no presente. Existem, contudo, certas repetições naturais que induzem à continuidade das circunstâncias, como o fato de saber que o sol haverá de nascer todas as manhãs. Tomar decisões nesse contexto é como poder visitar o futuro, pois se infere que a luz do sol brilhará todos os dias, ou seja, antecipa-se acontecimentos que ainda ocorrerão no tempo.

Pela repetição de eventos como esse, nasce a possibilidade de ajuste e aprendizado. Há uma certa manipulação do tempo nestes casos. Se alguém não utiliza a luz solar da melhor forma num dia, poderá tentar fazê-lo no outro; se ainda assim não conseguir, terá outro dia pela frente e assim sucessivamente. Pela antevisão do futuro, podem-se consertar erros do passado nestes casos em que é relativamente seguro supor a continuidade das condições presentes.

Entretanto, existem situações em que a natureza do processo é diferente. Nessas circunstâncias, qualquer decisão realizada é crucial, pois ela destrói o próprio contexto em que é tomada e, por isso, não pode ser repetida. Os processos são irreversíveis, não há a possibilidade de manipulação do tempo como no caso anterior. Como as condições presentes mudarão de forma imprevisível e definitiva, torna-se impossível a repetição das condições atuais e, portanto, do aprendizado. O interessante é que, muitas vezes, não há como saber se uma decisão será crucial ou não. Os atos mais insignificantes do cotidiano podem gerar resultados inesperados.

O futuro, então, é moldado pelo entrelaçamento dos resultados advindos das decisões cruciais de várias pessoas. Como escreveu alguém, “o futuro será aquilo que se quer que ele seja. É óbvio que não cabe a um indivíduo decidir por si mesmo o futuro, mas este resultará da interação de agentes dotados de razoável número de graus de liberdade nos seus momentos de decisão”. Não é possível alterar o curso dos acontecimentos ao longo tempo, mas é provável que eles assim sejam por decisões pessoais. Cabe ao homem trabalhar com o presente, pois é neste que reside algum poder de interferir no futuro; pois quanto ao passado, já passou.

Nenhum comentário: