sábado, 1 de março de 2008

O descobrimento do Brasil

Aprende-se na escola que em 1500 navegadores portugueses descobriram o Brasil. A história que é contada, ao invés de evidenciar a lenta e gradativa formação de um povo, passa a idéia de que este nasceu quando portugueses puxaram um manto e des-cobriram a terra que estava deitada em berço esplêndido. Nações por aí têm seus libertadores e revolucionários; nós temos nossos descobridores. Tal é assim que talvez o nome do capitão dos descobridores seja a única pergunta de história que a maioria das crianças saiba de cor.

Logo que essa enorme porção de terra é apresentada ao mundo, inicia-se um processo não de colonização, mas de exploração da bela natureza que ali se encontra. Assim, nasce uma nova classe de trabalhadores no mundo: os brasileiros. Se aqueles que trabalham com ferro são ferreiros, com sapato, sapateiros e açougue, açougueiros, os que trabalham o Brasil são os brasileiros, adjetivo que posteriormente é designado a todos os que nascem na terra. Não são chamados brasilienses, seguindo a lógica normal da língua no que se refere aos adjetivos pátrios, mas brasileiros. É interessante que a etimologia revela a relação que desde já foi estabelecida com a terra. Não há qualquer vínculo mais forte da pessoa com a terra, há somente uma relação comercial, de trabalho. Isso é assim porque a idéia sempre foi vir para cá, aproveitar os abundantes recursos, construir sua fortuna e ir embora, tal como se trabalha num comércio durante as férias. Os brasileiros trabalhavam aqui temporariamente, aproveitando ao máximo todos os recursos ofertados aos filhos deste solo pela mãe gentil. Preferiam molhar as calças atravessando um rio do que construir uma ponte. Não havia espaço para ações que ultrapassassem a apressada vontade de enriquecer e voltar à terra natal.

O tempo passou, aqueles ditos 500 anos. Alguns enriqueceram aqui, muitos não. Alguns voltaram, muitos não. Ficou mesmo foi a sensação inicial de estabelecer apenas uma relação comercial com a terra e a própria sociedade; melhor dizendo, de se aproveitar de toda e qualquer situação para satisfazer interesses próprios. Esses nobres trabalhadores, os brasileiros, formaram assim uma cultura que desconhece o valor da coisa pública, da natureza, do indivíduo ou do trabalho, pois as subverteu em meios de se obter o que se quer, arraigando em sua própria carne os vícios da corrupção, exploração, servidão e malandragem. Se agora a vontade é fazer a fortuna e ficar mesmo por aqui, resta intacto o imediatismo e a pressa das ações, que ainda impossibilitam se vislumbrar conseqüências no tempo.

O Brasil que fará aniversário próximo mês é “o futuro que espelha essa grandeza”. Mas já que convém não evidenciar o nascimento desse povo e seu desenvolvimento, sobra cantar a glória de seu descobrimento.

4 comentários:

Akicage disse...

Attention!

Dumuro disse...

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Ditaur disse...

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LM disse...

Digo,
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