quarta-feira, 23 de abril de 2008

Coordenação

Conhecido na literatura é o caso do dilema dos prisioneiros. Dois bandidos foram presos e estão prestando depoimento na polícia. Esta, não possui nenhuma prova do crime, a não ser a própria confissão de cada um, se isso ocorrer. A pena aplicada ao crime é de 5 anos, mas se eles confessarem, ela se reduz para 2 anos. Os bandidos, chamados A e B, prestam depoimento separados e simultaneamente, de modo que A não sabe o que B falará e vice-versa. Surgem, então, quatro possibilidades de acontecimentos:


1) A e B negam o crime, sendo soltos pela polícia (tempo de prisão: 0,0)
2) A e B confessam o crime, pegando, cada um, 2 anos de cadeia (2,2)
3) A confessa e delata B, enquanto B nega. A será preso por 2 anos e B por 5 anos (2,5)
4) A nega, mas B confessa e delata A. B pegará 2 anos de cadeia e A 5 (5,2)

Cada um tem três penas possíveis: 0, 2 e 5 anos. Para os dois serem soltos, é necessário haver uma confiança mútua, de maneira que ambos neguem o ocorrido. Mas essa é uma hipótese que depende da ação do outro e, ainda por cima, traz o risco da prisão por 5 anos caso o outro o delate. Logo, o equilíbrio do problema é ambos confessarem e ficarem presos por 2 anos. Entretanto, o equilíbrio eficiente, a melhor solução para os dois seria (0,0), isto é, nenhum seria preso. Esse dilema ilustra bem a chamada falha de coordenação. Em casos onde a ação individual depende da atitude alheia para compor um equilíbrio ótimo, o equilíbrio efetivo encontrado é o não-eficiente, devido a uma falha de coordenação entre as partes.

Pode-se enunciar, a primeira vista, duas maneiras de resolver o problema. A primeira solução consiste numa imposição unilateral de comportamento. Algum órgão ou pessoa que exerça considerável poder sobre a vida dos indivíduos estipula o comportamento de cada um, com vistas a direcioná-los ao equilíbrio ótimo. A segunda solução seria a própria coordenação entre as partes, de tal sorte que elas previamente concordariam em tomar certa atitude. É óbvio que, neste caso, um avançado nível de confiança é requerido para minimizar os riscos envolvidos na tomada de decisão.

Problemas de coordenação são incontáveis, indo desde o oligopólio econômico até a violência urbana. Várias facetas do problema podem ser enunciadas. Nos relacionamentos: duas pessoas se gostam, mas um não sabe da intenção do outro. O equilíbrio ótimo seria se os dois se abrissem para o outro, iniciando uma nova relação. Mas o que ocorre é o equilíbrio ineficiente, os dois não se falam e ficam ambos solteiros. Na economia: vários empresários pensam em investir num local pobre, mas onde a rentabilidade é elevada. Porém, como a renda é baixa, só haverá êxito se todos os empresários investirem juntos, de modo que a renda da população aumente e crie demanda para os produtos de todos. O que ocorre é que nenhum quer se arriscar a investir sozinho, e o investimento de fato não acontece. Nos programas: cada amigo está em sua casa entediado, pensando em ir a algum lugar interessante, mas só irá se todos os outros forem. Como todos pensam assim, tem-se o equilíbrio não-ótimo, onde todos ficam em casa. Na violência: todos querem ir a um lugar público legal de se ficar, mas não vão porque o lugar é deserto e, por isso, perigoso. Mas se todos fossem, o lugar não seria deserto e, por esse fato apenas, não seria perigoso.

Observe que, em muitos casos, romper o equilíbrio ineficiente individualmente não é possível. O empresário que decide investir, mesmo sozinho, logo acaba falindo pela falta de demanda de seus produtos, uma vez que a renda ainda é baixa. O amigo que decide ir ao local pensado independente dos outros, irá sozinho e não dará fim ao seu tédio. A pessoa que vai ao lugar deserto sem os outros, arrisca sua vida, pois, sozinha, a rua continua deserta e, por isso, perigosa. As ações não-coordenadas geram resultados não-ótimos pois cada um quer se resguardar do risco que existe no comportamento do outro. Ora, como grande parte da vida depende das atitudes dos outros, muitas são as vezes que se padece de falha de coordenação.

Como já dito, duas soluções surgem: a imposição ou a comunicação. A imposição é plausível em poucos casos, pois o poder sobre a vida dos outros é complicado de se obter (seria o caso, por exemplo, do Estado ou de um pai que coordenam as ações de seus comandados). Todavia, em relações humanas há também o caso de imposição relativa, concernente ao poder não de determinar as ações, mas de influenciá-las (o caso dos que detém carisma e liderança). A segunda solução é viável apenas quando há poucos envolvidos, pois assim é possível uma comunicação produtiva e uma relação confiável entre as partes. Fica, portanto, um apelo aos líderes e a todos os envolvidos. Estes comuniquem-se melhor, aqueles, exerçam de fato sua liderança, para que rumemos todos a um equilíbrio eficiente!

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