domingo, 25 de maio de 2008

Babel

“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo” (Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão)
Se há algo que distingue o homem dos animais é sua capacidade de pensar abstratamente, a qual se veicula e se evidencia pela linguagem. Os animais também possuem linguagem, é nítido que se comunicam uns com os outros. Mas a comunicação animal limita-se ao narrar de algum fato, necessidade ou sentimento presente. O comunicar do homem, ao contrário, vai além da comunicação animal, pois expressa símbolos gerais e abstratos, como árvore ou cadeira. Os nomes dados às coisas fazem alusão a estes símbolos gerias, o que cria no homem uma capacidade de abstrair a realidade presente e imediata e trabalhar com conceitos genéricos. O homem sai do mundo visível e concreto e cria uma outra realidade, esta intelectiva, através da linguagem, a qual cria uma representação simbólica do mundo das experiências. Assim, pode o homem situar-se no tempo e no espaço, relatar memórias e narrar expectativas, sem que sua comunicação fique presa somente ao que vive no momento.

Por ser o veículo do pensamento, a linguagem tem extrema relação com a cultura de cada povo. Se é a linguagem que condiciona o modo como cada povo vê o mundo ou é o modo de ver o mundo que põe limites à linguagem não se sabe. Sabe-se, e isso é claro, que ambos, linguagem e cultura, possuem uma estreita relação. Aprender outra língua não se resume a decorar um código de nomes que se dá às coisas. Muito mais, é aprender um outro modo de se comunicar, uma outra maneira de enxergar fatos e valores. Veja o português brasileiro, língua onde predominam as vogais. Para falar, é preciso ter manejo com a boca, abri-la e fechá-la várias vezes em uma mesma frase. Tira-se daí o jeito mais alegre e gingado do povo. De um modo geral, os povos latinos são mais abertos e amigáveis do que outros povos, como os germânicos. Isso se vê pela linguagem. Tome como exemplo a conjunção aditiva “e”, que em espanhol é “y”. Para falar, basta abrir a boca e emitir o som. Essa mesma conjunção em inglês é “and” e em alemão “und”. Repare como a sonoridade é mais fechada e agora se necessita de consoantes.

O exemplo clássico é o da palavra portuguesa saudade, que, diz-se, só existe nesse idioma no mundo. É verdade que não há necessidade de existir essa palavra na língua para as pessoas sentirem esse sentimento melancólico pela falta de algo. Mas existindo, pode indicar e realçar uma característica do povo português. Sérgio Buarque de Holanda fala, em Raízes do Brasil, do tipo sociológico do português: o aventureiro ibérico. Trata-se de um homem dado a aventuras em detrimento da segurança do trabalho. Tem um olhar mais amplo e uma visão mais romântica. Talvez por isso nasceu a palavra saudade apenas na língua portuguesa, apontando para uma nostalgia sentimental pós-aventuras desses homens. Seja como for, a linguagem embute maneiras diferentes de ver o mundo.

Há até quem acredite que o pensamento vai até onde acaba o vocabulário, já que pensar é “deslizar por um fluxo silencioso de palavras”. O filósofo Ludwig Wittgenstein disse que “as fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo”. Mas crer que o pensamento é totalmente condicionado pela linguagem é um certo exagero. A verdade é que a linguagem de um dado povo predispõe a determinadas escolhas de interpretações da realidade, sem, contudo, limitar essa interpretação.

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