terça-feira, 23 de junho de 2009

Vacinas


De vez em quando, sucede que chove muito nos países tropicais e, por alguma razão, há uma proliferação de insetos. Muitos desses carregam em si vírus e bactérias. O resultado é que, vez ou outra, surgem epidemias de algumas doenças nesses remotos lugares. Pessoas começam a morrer e o pessoal do governo inicia campanhas de vacinação para resolver o problema.

E foi numa tarde quente que muitos resolveram tomar sua vacina, achando que as filas já estariam menores pelo horário e pelo dia da semana. Enganadas, depararam-se com uma fila que dava voltas e era capaz de tirar a paciência de qualquer um, ainda mais porque no final dela uma desagradável seringa os estaria esperando. É engraçado ver quando pessoas diferentes se unem em torno de um objetivo em comum. E naquela fila tinha gente de tudo quanto é idade, tamanho e classe.

Alguns senhores engravatados aqui, muitos jovens e adolescentes de bermuda acolá. Famílias juntas e muitas senhoras também faziam parte do aglomerado. Apenas uma epidemia, ou pelo menos rumores de epidemia, para juntar todos esses seres no mesmo lugar. Chegaram depois duas mulheres, vinte e poucos anos, com seus meninos. Três no total e, pelo que parece, seus nomes eram Victor Hugo, Vinícius e Liana. As mães trabalhavam numa loja em algum shopping da cidade. Pela disposição e humor com que chegaram, conclui-se que tiraram um tempo do trabalho para a vacina, mas logo deveriam voltar. Ficaram, portanto, perplexas com o tamanho da fila, embora rapidamente tenham se ajeitado sentando no meio-fio.

Como trabalhavam perto de um posto de saúde, já tinha se vacinado, sendo que agora estavam lá apenas para vacinar as crianças. Estas, já pulavam e brincavam à sombra de uma grande árvore lá perto. Agiam apenas como crianças, nada mais. Porém, começou-se a ouvir gritos das mães dando broncas nos filhos. Intercalavam momentos de conversa (dessas que se ouve em qualquer manicure) com gritos estridentes e que rasgavam o silêncio da fila.

“Pois é menina, é porque eu to numa situação difícil. Você sabe né!? O Sandro é uma pessoa que eu gosto muito, ele também gosta muito de mim, mas de qualquer jeito o Laércio é pai dos meus filhos né! Ah! Vinícius! Sai daí menino!” disse uma delas. A outra, de imediato, respondeu: “Victor Hugo! Sai já daí criatura! Ai, esses meninos, vou te contar viu!”. A conversa das amigas, que raramente saía da futilidade, intercalava-se com gritos e ameaças aos filhos. O pessoal da fila começou a se incomodar no trato das mães com seus filhos. Um senhor tomou coragem e interveio: “Deixa os meninos brincarem, são crianças, ora!”. E recebeu uma olhada não muito agradável de uma delas.

E o tempo ia passando. O que era para ser apenas uma saidinha rápida para se vacinar tornou-se uma procissão maçante em direção ao calvário da agulha. E tome gritos e mais gritos das mães, que descontavam nos filhos a culpa pela demora. A esta hora, todos da fila já comentavam a rudeza das mulheres e se incomodavam grandemente ao vê-las repreenderem seus filhos sem motivo. A questão virou guerra de egos. Quanto mais críticas ouviam, mais alto brigavam com seus filhos, exibindo a todos quem mandava nas crianças. Brigavam não mais para educar os filhos; brigavam pela honra de sair por cima no embate contra a fila. E, passando o motivo da briga a ter esse nobre valor, as broncas se intensificaram, enfadando todos que ali estavam.

Finalmente, chegou a vez delas. A dupla agoniada poderia vacinar seus filhos e ir embora. Dirigindo-se à atendente, deram a certidão de nascimento e o cartão de vacina das crianças. Ao que ouviram: “Não, meninas! Não precisavam ter vindo não... A última vacina que eles tomaram ainda está na validade!”. Os filhos apanharam e a fila andou...

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