sábado, 3 de outubro de 2009

A dupla derrota de Chicago

Assistiu-se com grande expectativa a escolha da cidade sede das Olimpíadas de 2016. Foi um duelo de gigantes, onde lutaram reis, líderes e poderosos. A disputa, segundo todos acreditavam, era entre as cidades de Chicago e do Rio de Janeiro. Os presidentes de ambos os países estavam presentes. Lula e Barack Obama digladiaram por essa candidatura, que muito mais que uma competição esportiva, é simplesmente o maior evento do mundo!

Foi uma guerra fria, de pressão e ameaças: “lá há violência; é perigoso; não será uma escolha sensata”. Os oponentes usaram de táticas e estratégias das mais diversas, para persuadir o Comitê Olímpico Internacional a dissuadir sua opção pelo adversário. Vendeu-se a imagem de que Chicago era a escolha mais prudente, respeitando a tradição de Olimpíadas nos EUA, respeitando um processo de decisão lógico e racional. Inesperadamente, a cidade de Chicago é a primeira eliminada dentre as quatro finalistas. O presidente Obama assiste à vitória do Rio já do seu jatinho, a caminho da Casa Branca. Vê Lula pulando e chorando junto a outros brasileiros, vê Copacabana explodir de alegria.

Admira a popularidade de seu companheiro. Declara-o “o cara”. Chega em seu país e encontra uma nação assolada por uma crise financeira. Procura um horizonte mais ameno, que traga de volta aquela América de tantas expectativas e oportunidades. Hesita. Olha para a TV e lá está ele de novo: Lula anuncia que o Brasil já olha a crise do retrovisor; o país cresceu 1,9% no segundo trimestre de 2009. Obama se pergunta por que o destino lhe reservou esta sorte. Tantos economistas em seu país e em sua cidade que foram incapazes de impedir a tragédia que agora ele tem de administrar. Pensa um pouco e conclui que, de novo, a cidade de Chicago saiu derrotada em mais um embate.

A escola de Chicago é um dos mais famosos berços da economia moderna. De lá vieram economistas do peso de Milton Friedman, Frank Knight e Friedrich Hayek, todos laureados com o Prêmio Nobel. Expoente contundente de uma economia liberal, essa escola opôs-se ferozmente ao intervencionismo que marcou as décadas de 50, 60 e 70. Suas idéias ganharam corpo a partir da década de 80, quando se concretizaram através das políticas de Ronald Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra. Cunhou-se a expressão neoliberalismo. Essa doutrina invadiu o mundo, e determinou a atuação de organismos como o Banco Mundial e o FMI.

O fundamentalismo de mercado, entretanto, levou o mundo a assistir a maior crise econômica desde a de 1929. O culpado? A excessiva liberdade do mercado financeiro, sem a regulamentação necessária. Os próprios gigantes do capitalismo liberal passaram a intervir desesperadoramente na economia, salvando empresas, comprando bancos e injetando dinheiro. Muitos disseram ser esse o fim do neoliberalismo. A prova concreta da derrocada da escola de Chicago.

O mundo está cansado de planos racionalmente concebidos. Prefere a criatividade, o samba, o carisma à eloqüência, a beleza à prudência. Daí porque Chicago, apesar de toda a profundidade de suas teorias, perdeu duplamente: na economia e nas Olimpíadas. “Os adversários apresentaram projetos, nós apresentamos nosso coração”, disse Lula, sem embargos, explicando a todos porque o mundo preferiu o Rio à Chicago.

3 comentários:

Gabriel Florêncio M. de Menezes disse...

krk digo muito massa seus textos... principalmete esse!
abraco

Hélvio Sodré disse...

parabéns digo! adoro seus textos, continue escrevendo sempre!

rgallo3D disse...

Grande colega de Senado! Como você é bom de escrita e contundente, tem que ser inteligente para se posicionar assim e expor tão bem suas idéias, parabéns!
Só discordo que o modelo neoliberal seja um fracasso total!! Aqui no Brasil foi um neoliberalismo paternalista...
Se a gente tivesse um governo moderno, ia comprar os estados unidos e o desfile das escolas de samba, do Rio, ia ser na Disney!
heheehehehheehhe Abração colega!