quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Nada faz sentido!

Marcas da dilapidação que o tempo, como a água lenta e insistente, produziu na dura rocha do meu espírito e na firme resolução do meu ser. É o que me restou dessa vida rápida e agitada. Olhando para trás, ainda que com os olhos embaçados, consigo ver claramente: nada faz sentido! Que grande inutilidade é a vida. Ciclo que se repete incansavelmente; o foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente, não há nada novo debaixo do sol. Homens vêm e passam, gerações vêm e gerações vão, e a terra continua.

Lembro-me dos jovens desejos que me impulsionavam para uma vida de conquistas e vitórias. Dediquei-me a trabalhar, transformar a natureza, acumular riquezas. Fui muito rico. Tive escravos e escravas, palácios e tesouros. Mas concluí que tudo era inútil, e não havia sentido. Tudo que eu havia acumulado ficaria para outra pessoa quando eu morresse. O homem sai nu do ventre de sua mãe, e como vem, assim vai. De todo o trabalho em que se esforçou nada levará consigo. Que proveito tem o homem de todo o esforço debaixo do Sol?

Passei, então, a buscar o prazer escondido nos encantos da vida. Eu disse a mim mesmo: Venha. Experimente a alegria. Descubra as coisas boas da vida! Deitei-me à sombra de pomares e passeei na beleza de jardins. Aproveitei os deleites da fina comida que era posta à minha mesa. Apreciei as mais belas canções. Satisfiz-me com todas as mulheres que havia em meu harém. Não me neguei nada que os meus olhos desejaram; não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Ainda assim, percebi que tudo era inútil. A busca pelo prazer é como correr atrás do vento. As delícias que meus sentidos captavam numa noite, as queria sentir de novo. E no outro dia também. Que vida de inutilidade passei a viver! Escravo dos meus desejos, servo dos meus sentidos. Sem sentido! Sem sentido...

Já tendo experimentado muito nessa vida, e tendo dela muito aprendido, resolvi buscar a sabedoria e o conhecimento. Quis conhecer os segredos da vida e do viver. Fui uma pessoa sábia. Descobri que para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. Reis e rainhas vieram a mim para testar minha sabedoria e ouvir o meu conhecimento. Escrevi livros e provérbios. De fato, a sabedoria é melhor do que a insensatez, assim como a luz é melhor que as trevas. Todavia, percebi que o sábio e o tolo têm o mesmo destino; o que acontece ao tolo também me acontecerá. Que proveito tive eu em ser sábio? Então eu disse a mim mesmo: Isso não faz o menor sentido!

A relutância de minhas idéias com as irrefutáveis evidências levou-me a reconhecer o que sou: homem. Limitado. Quem, nascido do ventre de uma mulher, poderá responder a todos os mistérios e contradições da vida. Há tantos absurdos debaixo do Sol, tantas coisas sem sentido. Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio, pois o tempo e o acaso afetam a todos. Perguntas que talvez jamais serão respondidas. Reconheci, então, minha limitação e incapacidade diante das dúvidas desse mundo. Aceitei a vida como tal, e busquei ser feliz. Eis o conselho que dou: Vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, esteja sempre vestido com roupas de festa, desfrute a vida com a mulher a quem você ama. Seja feliz o seu coração e siga até onde a sua vista alcançar.

Marcas do tempo que passa e já não volta, é o que me sobrou nessa vida. Anos de luta buscando riquezas, momentos de glória vivendo prazeres, horas refletindo na sabedoria. Sem sentido! Como a vida é sem sentido, busquei viver e ser feliz. Mas, de fato, há sentido! E agora que já se ouviu tudo, e toda a minha história, aqui está a conclusão de uma vida: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para todo o homem.

Um comentário:

Washington disse...

Porque Deus termina sendo do tamanho do vazio que existe em cada um de nós. Por isso há sentido em tudo. Agora mesmo o sentido é de urgência, há que se reinventar o amore fazê-lo por em movimento as engrenagens da vida. E na vida mesmo... só Deus basta!