sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O cerrado e o sertão


Houve um período na história do país em que os latifúndios dominavam as paisagens dos sertões. O poder econômico fundia-se ao político, perpetuando o domínio de regiões inteiras a famílias de aristocratas. Uma sociedade oligárquica, onde coronéis eram os proeminentes personagens de uma realidade quase feudal. Se havia algo que pudesse ser chamado de público, era utilizado a serviço e a interesse dos senhores da terra: cargos políticos, direito de voto ou serviço policial.

A modernidade avançou a passos largos. Mudou hábitos e costumes. Trouxe inovação. Muito tempo depois, aflorou no cerrado do Planalto Central uma cidade planejada, feita de concreto armado; longe da pobreza e da poeira do sertão. Nela trafegam carros importados, políticos e advogados. Mas posto que a maioria vem de fora, trazem fundo no peito a força da tradição. Mudam a cena, mas ainda sustentam a sina. Sinal de que o sertão ainda não virou mar.

Ao invés de coronéis, empreiteiros. Aqueles controlavam com crueldade os raros açudes da região. Estes hoje dominam os últimos espaços de ocupação de uma cidade que cresce velozmente. O Antônio Conselheiro dos fiéis sertanejos dá lugar às profecias de Dom Bosco. Romarias se dirigem à capital todos os anos, aumentando a massa dos desafortunados e fazendo dessas vidas miserável peregrinação.

No cangaço do cerrado esses novos coronéis dominam a cena pública, impregnando o poder constituído de relações perniciosas entre os negócios particulares e a política. Elegem-se ainda pelo voto do cabresto, ameaçando os sertanejos com a não regularização de condomínios e prometendo-lhes lotes de terras. Seus capangas espalham-se pela cidade, emergindo das assembléias legislativas, da polícia e de empresas públicas. Controlam jornais e informações. Assim como os pais do sertão manipulavam com seu poder o preço da água, os filhos do cerrado manipulam e sobrevalorizam os preços dos imóveis.

Iludida, a massa é forçada a marchar como retirante aos últimos redutos de terra. Tomam-se todos os setores da cidade: norte, sul, leste, oeste, sudoeste e noroeste. Aos empreiteiros coronéis, a fraude das licitações. Aos imigrantes nordestinos, em pleno cerrado, permanece a sina de uma morte e vida Severina. Muitos, porém, não veem a sujeira do sertão nas calçadas floridas da capital. Não veem que a bandalheira do sertão ainda existe nessa cidade governada pelo bando de mais um outro Lampião.

Um comentário:

Washington disse...

Oportuno, oportuníssimao. Certeiro no alvo, certeiro na lídima argumentação. Parabéns Digo. É o que chamo de gol de placa.