sábado, 16 de janeiro de 2010

Onde está Deus?

Júlia estava espantada com a cena. Uma imagem como que de uma guerra devastadora era mostrada na televisão. Prédios caídos, crianças mortas, corpos estirados pelas ruas, a selvageria e o caos imperando numa cidade assolada por um terremoto. Estatísticas dão conta de mais de 100 mil mortos. Analistas afirmam que o pior ainda está por vir: com uma infraestrutura precária antes do abalo, agora as condições para a distribuição de alimentos, água e medicamentos e de reconstrução são alarmantes.

A menina de 6 anos assistia a tudo chocada. A emoção da alegria pelo resgate de alguns sobreviventes era aniquilada pela lembrança de que a maioria perecia abaixo dos escombros. Ela ouvira que o Haiti era o país mais pobre do Ocidente, que vive uma guerra civil há mais de 10 anos e que recentemente fora arruinado por um furacão tropical. Já não bastava tanta miséria? Por que tinha que haver mais? E logo com um povo tão castigado pela ruína que a história lhe reservara... Júlia pensava nessas coisas, e não encontrava resposta para tanto sofrimento.

Quando foi dormir, as imagens ainda estavam vivas em sua cabeça. O pai foi deixá-la na cama, e ao invés de receber o pedido para que contasse um conto de fadas qualquer, ouviu a sincera indagação de uma alma assustada: “Pai, onde está Deus?” A pergunta não era surpresa, pois o próprio pai flagrara-se pensando nela algumas vezes quando assistia as notícias. Após um leve suspiro, ele olhou com amor para sua filha e respondeu: “Ele está aqui, minha filha, cuidando para que o céu não desmorone sobre sua cabeça ou que o chão não se desfaça sob seus pés enquanto você dorme. Ele que cuida para que meteoros não acertem a Terra, para que catástrofes não se sucedam diariamente, para que doenças mortais não invadam nossa casa. Ele sustenta toda a criação com seu poder. Ele sustenta a sua vida!”

A criança processou a resposta e acatou parte dela. Mas seu coração ainda estava inquieto com o que vira naquele país. Não satisfeita, retrucou: “Ta bom, Deus pode estar aqui me protegendo, mas ele não estava lá com aquelas pessoas. Ele deixou todas morrerem” O pai ficou agora preocupado em como responderia a essa pergunta. Mas após refletir um pouco, disse à sua filha: “Ele também se preocupou com elas, filha, e muito. Tanto que ele mesmo, o próprio Deus, um dia já foi soterrado aqui na Terra. E ficou sobre os escombros da morte durante três dias. Mas depois conseguiu sair e reconstruiu sozinho uma cidade maravilhosa, a cidade mais perfeita, o melhor lugar do mundo, para todos os seus amigos morarem, inclusive aquelas pessoas que você viu na televisão”.


Confortada com a resposta, Júlia, apesar de carregar ainda um pouco do peso das imagens que a marcaram, conseguiu dormir aliviada.

2 comentários:

Washington disse...

Excelente texto, terno, sincero, honesto e cheio de compaixão, aquela que aponta para o Alto.

Washington disse...

a certeza de que nossa morada final está longe de ser esta terra de granito, sempre se acomodando mais e mais, movenmdo placas tectônicas e embalando em sono pesado cem mil pessoas duma só vez... Haiti ou Ai de ti, ai ai.