quinta-feira, 18 de março de 2010

Os coroneis do Petróleo


A economia da cana foi, como se sabe, a força motriz da própria colonização do Brasil. Produto valorizadíssimo em uma Europa em busca por especiarias, o açúcar da cana encontrou em solo brasileiro ótimas condições para seu cultivo. O negócio da cana foi, segundo Celso Furtado em Formação Econômica do Brasil, a empresa agrícola colonial mais lucrativa de todos os tempos.

Mas por que toda a riqueza então produzida não repercutiu no desenvolvimento do país? Furtado enuncia algumas razões. A principal, talvez, tem a ver com a estrutura produtiva do engenho de cana.

Os custos de um engenho eram praticamente fixos, consistindo na subsistência do trabalho escravo e na compra de animais tanto para tração como para alimentação. Assim, mesmo que o preço da cana estivesse baixo, era interessante continuar produzindo, já que os custos praticamente não se alteravam. Ademais, no caso de um aumento do preço do açúcar, a produção poderia rapidamente aumentar, bastando para isso aumentar as terras cultivadas (a terra era um fator abundante). O resultado prático dessa constância da produção tanto em épocas de baixa quanto de alta foi este: a produtividade não se alterou. Os herdeiros desse negócio viraram apenas arrendatários da terra, coronéis, que não imprimiam dinâmica à produção, tão-somente torciam para que o preço subisse. Eis porque a enorme riqueza do ciclo da cana não serviu ao desenvolvimento da região, já que não impactou na estrutura produtiva.

Pudera a história ensinar algo aos brasileiros. Mas está ela prestes a se repetir. Com a descoberta dos imensos campos de petróleo na camada pré-sal, está se vendendo a ilusão de que o dinheiro vindo da venda desse produto acabará com a miséria do país e o levará ao caminho da grandeza. Governadores e prefeitos de todo o país estão ansiosos com o possível incremento de seus respectivos orçamentos, caso seja aprovada no Senado a nova redistribuição dos royalties.

Os efeitos negativos da má utilização da riqueza do petróleo podem ser destrutivos. Pode-se incorrer na chamada “doença holandesa”, quando a inundação de reservas internacionais provoca uma queda abrupta do câmbio, e mina todo o setor exportador. Pode, ainda, ocorrer uma inflação de demanda: a riqueza faz aumentar a demanda, porém, não há oferta de bens correspondente – o resultado é o aumento de preços. Se o volume de capital vindo do petróleo não for usado para aumentar a oferta, logo a riqueza se pulverizará.

Mas há ainda no Brasil esse espírito de coronel, esse jeito arredio ao trabalho e afeito a ganhar sem fazer nada. Acha-se que todos os problemas podem ser resolvidos já sem muito esforço, apenas com o dinheiro dos royalties. Mas se com essa aparente “benção” a estrutura produtiva não se alterar, já lá se vai mais uma oportunidade que o destino de tempos em tempos trás a este país tropical.

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