sexta-feira, 5 de março de 2010

Realidade mascarada

Até que ponto sucumbe a razão diante da admiração? Olhos viesados pela afeição que se criou às vezes são incapazes de fazer o que lhes é inerente por natureza: ver a realidade. Esta, por vezes, é enfeitada e mascarada por sentimentos parciais e pensamentos inflexíveis. Engana-se quem acha que o texto que se segue diz respeito a jovens apaixonados. Bem o poderia ser. Ao contrário, fala sobre coisas não tão belas como o amor.

Foi inaugurado recentemente, dia 4 de março de 2010, a Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, nova sede do governo de Minas Gerais. Foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, que hoje já tem 102 anos de idade. Internacionalmente conhecido, Niemeyer ficou famoso por suas linhas curvas e pelo uso que faz do concreto armado. Algumas de suas obras são ícones da arquitetura, como o Congresso Nacional e a Catedral de Brasília, a Igreja São Francisco de Assis, em Belo Horizonte, e o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói.
Cidade Administrativa de BH

Respeitado. Reverenciado. Consagrado. Endeusado. Tal foi a evolução que se fez acerca de sua pessoa. Os críticos como que se anestesiaram da feiúra de algumas de suas obras. Não conseguem ver a obra; olham apenas o nome do autor do projeto – Niemeyer – e a beleza lhes invade os olhos. Apesar do nome e do renome, alguns edifícios desagradam a estética. Os ministérios de Brasília mais parecem fábricas de uma cidade comunista dos anos 50. O ICC da Universidade de Brasília, conhecido por “minhocão”, assemelha-se a um longo e desesperador corredor da morte, tamanha é a frieza de suas colunas de concreto, que impedem as aglomerações de alunos.


O minhocão da UnBArtistas cometem erros, como todas as pessoas. Mas os erros deste senhor são considerados como proezas inquestionáveis da arte moderna. Acha feio? É porque não compreendeu o espírito dessa magnífica obra arquitetônica.

Mas que dizer de erros cometidos sistematicamente, que desperdiçam milhões em projetos não funcionais e que dão às cidades mais feiúra do que já tem? Inaugurou-se em Brasília, em 2006, o complexo cultural, “antigo sonho de Niemeyer”, que abriga um museu e uma biblioteca pública. O museu, como tem apenas uma entrada de luz e ar, fica escuro, abafado e úmido, o que dificulta uma exposição artística. Aliás, qualquer exposição digna não se presta a fazer escala ali, pois há medo de danificação das obras. Dinheiro jogado no lixo, espaço ocupado inutilmente para um projeto que não cumpre o fim para o qual existe.

Museu de Brasília

E agora, em pleno 2010, vem ao mundo a Cidade Administrativa de Belo Horizonte. O projeto adéqua-se perfeitamente à paisagem de uma década longínqua, como 50 ou 60. Inaugura o ultrapassado. Constrói como que uma Brasília alternativa, com a defasagem de 50 anos. Não agrega beleza à cidade. E perde-se uma oportunidade incrível de trazer um bom projeto estético à atualidade.



Mas, por vezes, a realidade é enfeitada e mascarada por sentimentos parciais e pensamentos inflexíveis.

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