terça-feira, 17 de agosto de 2010

Crônicas de um futuro próximo - Parte 1

Roupas futuristas e carros voadores transitando pelas ruas de um tempo virtual. Podia se estar vivendo essa realidade, mas não fora esse o futuro reservado ao mundo. João estava ali parado no engarrafamento, recostado ao volante de seu carro ainda movido a gasolina, pensando e vivendo no curso daquele ano de 2031. Lembrando-se menino, trazia à memória notícias e especulações sobre como certamente seria o futuro. Foi então que atinou para o fato de que o tempo que estava vivendo era o amanhã do ontem de sua vida, ou seja, o próprio futuro.

Engraçado refletir sobre como as coisas haviam andado e desandado. E o pensamento fazia pontes e curvas na linha do tempo, ligando fatos a ilusões, descaminhos e previsões... Mas enfim o tráfego começava a fluir, e João arrancou o carro tentando recompensar o tempo perdido.

Pouco andou, porém. Avistou logo à frente uma blitz policial. Não havia mais como retornar, e o encontro seria inevitável. Tomado por um nervosismo repentino, João começou a suar, certo de que seria obrigado a parar o carro. O esperado aconteceu, e os policiais pediram que ele saísse do veículo e colocasse as mãos em cima do capô.

Com um olhar pernicioso, um dos policiais aproximou-se de João com leve riso no canto da boca. Apalpou seu corpo para verificar se não estava armado. Mas a revista durou mais do que o necessário. Os toques começaram a ficar impróprios, mas João apenas fechou os olhos esperando que aquele momento passasse. Na primeira vez que isso ocorreu, ele debateu-se tentando escapar, mas depois teve de suportar um processo por desacato, que celeremente o condenou. Soube de outros colegas que, tentando escapar à humilhação, levaram tiros, tecnicamente justificáveis pela segurança dos policiais. Muitos morreram. E lá estava ele, de novo, conformado, exposto à desonra.

Lembrou-se que no passado, a regra estabelecia, em nome do respeito e do decoro, que apenas policiais homens deveriam revistar os homens, e policiais mulheres as mulheres. Mas agora, com a disseminação do homossexualismo e sua posterior aceitação nas corporações policiais, esse critério havia perdido o sentido. Muitos oficiais de orientação homossexual criavam pretextos dos mais absurdos para revistar cidadãos, satisfazendo sua torpeza e lascívia em motoristas honestos. Situações assim eram recorrentes, e a sociedade a conhecia. No entanto, em algum ponto do passado, haviam exaltado tão intensamente essa “opção sexual”, protegendo-a pelo escudo incerto do preconceito e a colocando alheia a qualquer crítica social, que agora talvez fosse tarde para esboçar qualquer resistência.

E João retomou seu curso, agora não mais pensando no futuro, mas lembrando-se do passado.

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