quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sorte Grande

O relógio bateu ao meio-dia, e já se podia avistar o andar metódico e inconfundível de Carlos. Como de costume, tomou seu lugar, sentou-se e começou a trabalhar. Era funcionário exemplar, assíduo, pontual e bem apresentado. De semblante sério, reservava apenas poucos momentos ao humor, relegando o resto do tempo a sua típica austeridade.

A dedicação ao trabalho era a marca de sua vida, de modo que ele não aceitava nada, presentes ou favores, que não advinha da força de seus braços. Dava sermões a seus filhos sobre o valor e a dignidade de ser um bom trabalhador. Certa vez flagrou um de sua prole que trazia consigo um bilhete de loteria. A surra foi grande, e o menino aprendeu que esse tipo de jogo é coisa de vagabundo e preguiçoso, que inutilmente sai correndo atrás dessa grande ilusão que é a sorte.

Mas lá estava ele em seu trabalho, dedicando-se e ignorando o corpo mole dos colegas. Até que Mendes passou falando de um tal de bolão da Mega. Mendes era aquele funcionário descartável, enrolão, mas que se mantinha há anos naquela seção por ser o animador e o palhaço do grupo. Pois bem, disse que estava fazendo uma vaquinha para fazer uma grande aposta na Mega-Sena. O prêmio estava acumulado. Os colegas receberam a proposta com entusiasmo, e Mendes começou a passar de mesa em mesa recolhendo o dinheiro.

Carlos, repudiando mentalmente o sugerido, pensou em expor a todos o absurdo da ideia, explicando matematicamente as quase impossíveis probabilidades de êxito e ridicularizando essas formas ilusórias de ganhar dinheiro. Tomado de um desprezo por Mendes, tentou não se distrair e continuar seu trabalho.

Enquanto isso, a conversa dos colegas seguia em tom animado. Todos compartilhavam planos e sonhos sobre como gastar os milhões. Janice, a secretária, assinalou que iria comprar apartamentos e terrenos pelo país e morar à beira da praia; Henrique pensava em dar a volta ao mundo cinqüenta e quatro vezes; Mendes esbanjaria a grana com carros, festas, mulheres e todo o luxo que sua mente podia imaginar. Todos, porém, tinham uma prioridade em comum: iriam à repartição pessoalmente e pediriam demissão daquele infeliz e cansativo trabalho burocrático.

A essa altura, Carlos já tinha desistido de sua tentativa de ignorar as conversas. Ouvia atentamente a cada desejo, e até ria internamente com os mais excêntricos. Mendes já havia recolhido o dinheiro de todos, e agora dirigia-se à sua mesa. Uma aflição tomou conta de Carlos. A cada passo que Mendes dava, surgia uma viva e tenebrosa imagem de seus incompetentes colegas festejando o dinheiro pelo resto de suas vidas, enquanto ele ainda trabalhava lá naquele lugar. Os passos se aproximavam, e os pensamentos colidiam.

“Vai querer entrar?”, perguntou Mendes, já prevendo um não. “Sim, me vê duas”, foi a respostada dada em voz baixa e acanhada. Escondeu bem o bilhete e foi para casa. De manhã bem cedo, conferiu no jornal o resultado da aposta, e não se surpreendeu com o fracasso do jogo. Ao contrário, soltou um leve sorriso de canto de boca e saiu para trabalhar feliz.

Um comentário:

adinor disse...

Até que enfim outro texto!!! Estava com saudades deles!!