sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eis o Homem - O relato de uma indecisão (02)

Para sua surpresa, os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão a clamar pela soltura de Barrabás e pela crucificação de Cristo. Vendo seu plano rumar o caminho oposto do que ele esperava, foi tomado de medo. A indecisão se instala em sua mente, e ele, refugiando-se dentro de seu palácio, voltou a interrogar Cristo, desejando que ele lhe desse mais subsídios a sua decisão, ou que talvez clamasse por sua vida. Mas este não lhe respondia, e o silêncio sepulcral das respostas apenas o deixou mais atordoado. Expôs a Jesus a autoridade que tinha no caso, assumindo, pois, responsabilidade por sua vida ou sua morte. “Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?”.

A multidão impassiva, no entanto, gritava pela crucificação de Jesus. Lembraram a Pilatos que quem se declara rei se opõe a César. O desejo de Pilatos por justiça esbarra, pois, em um obstáculo talvez intransponível para alguns – as aspirações políticas. Condenar a Cristo satisfaria a Roma e aos chefes dos judeus, ao passo que libertá-lo satisfaria a justiça e sua consciência. Esse é o ponto decisivo para ele, o que certamente o faz mudar de opinião.

Percebendo que a aglomeração já se transformava em tumulto, resolveu dar ao povo a última palavra: “Que farei então com Jesus, chamado Cristo?”, Crucifica-o, responderam todos. A indecisão atinge seu ápice aqui. Como investido na posição de líder, governador, e magistrado, não era mais do que sua obrigação resolver conflitos como juiz. Mas a indecisão, a confusão da mente que a faz inerte perante uma escolha, vai além de enfraquecer a resolução de um homem. Vicia seu caráter e entorpece sua consciência. O grande líder romano sobre o povo judeu rende-se às massas, perguntando a elas o que deveria fazer com Jesus.

Não querendo se investir da responsabilidade que antes havia assumido, lavou suas mãos em público, argüindo não ter culpa sobre o sangue daquele inocente. A indecisão não se resume à dúvida em decidir ou ao remorso por ter escolhido errado; o passo a mais é dado quando Pilatos abdica de sua posição e coloca indevidamente a responsabilidade que era sua nas mãos de outros. Como se vê, a consciência antes em conflito sem saber qual direção tomar agora repousa livre de culpa, inebriada e pervertida ao máximo pela indecisão.

Por fim, mandou Pilatos que sob a cruz de Cristo apregassem uma placa com os dizeres: “Jesus Cristo, rei dos judeus”. Os chefes dos sacerdotes vieram até ele reclamando da inscrição, pois queriam que escrevesse não “rei dos judeus”, mas que esse homem se dizia rei dos judeus. Num ato de resolução objetiva, Pilatos encerrou a conversa com a frase: “O que escrevi, escrevi”. Toda a firmeza, objetividade e liderança que outrora faltaram a esse homem agora abundam desnecessariamente em situação irrelevante. Não tendo sido capaz de decidir e assumir suas conseqüências em questões grandes e complexas, agora ele quer reaver o que lhe foi perdido anteriormente, o caráter.

O périplo desse drama vivo e real é didático. Revela como a falta de firmeza e de resolução tira do homem seu poder de agir sobre a situação, até que ele seja suplantado pela conseqüência de sua omissão. Tudo começa quando se evita tomar uma decisão. Pensa-se que é melhor transferir o risco da escolha para outros. Mas então, logo surgem concessões indevidas – a pessoa abandona sua convicção e consciência buscando paliativos ineficazes para resolver o problema. A falta de decisão produz um desgaste que passa a atormentar a alma e tirar o sono. Até que, finalmente, o homem rende a qualquer um a responsabilidade que era sua para se ver livre do peso e das conseqüências da escolha. Esse escapismo decisório é anestesiado pela sensação de que ele não será o responsável pelo resultado que daí surgirá. E assim ele segue, sendo levado pelo calor das discussões e sabor das situações, lavando as mãos sobre o futuro que lhe é imposto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!