sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eis o Homem - O relato de uma indecisão (01)

O governo da Judéia fora dado a Pilatos havia mais de cinco anos, e era o seu dever manter a ordem e a paz naquele local. Estava em Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa, e sua presença era importante para reprimir possíveis conflitos. Acordou cedo pela manhã, e logo se deparou com uma questão que lhe era apresentada. Era apenas o começo de um dos dramas mais vívidos da história sobre a indecisão do homem.

Os chefes do povo judeu achegaram-se a ele pedindo o julgamento de um tal de Jesus, sob o argumento de que ele estava incitando o não pagamento de tributos a César e se autoproclamando o Cristo, um rei. Pilatos fez um breve interrogatório, mas voltou-se ao povo dizendo não encontrar motivo para condenar aquele homem.

Os chefes dos sacerdotes continuaram a fazer acusações a Cristo, mas este nada respondia, fato que deixou Pilatos impressionado. A reação do réu deixou claro as inverdades das acusações, de modo que o Governador convenceu-se da inocência daquele homem.

Já no começo, porém, Pilatos começa a fraquejar; isenta-se de proclamar a sentença a que havia chegado. Valendo-se de um artifício jurídico, acha um meio de livrar-se da questão, ao enviá-lo para ser julgado perante Herodes, alegando ser o caso da competência desse governador.

Seu ardil não surtiu efeito, pois Herodes mandou-lhe Cristo de volta. Recebendo-o, disse à multidão: “Vocês me trouxeram este homem como alguém que estava incitando o povo à rebelião. Eu o examinei na presença de vocês e não achei nenhuma base para as acusações que fazem contra ele. Nem Herodes, pois ele o mandou de volta para nós. Como podem ver, ele nada fez que mereça a morte. Portanto, eu o castigarei e depois o soltarei”. Um outro elemento soma-se à conclusão de Pilatos, o parecer de Herodes. Também este governador não encontrou motivos para a acusação.

Pensando que um castigo acalmaria a turba, Pilatos mandou que o açoitassem. A despeito de achar Cristo inocente, a insistência dos chefes dos sacerdotes o faz decidir por uma primeira concessão. Mandou, pois, que açoitassem Jesus como forma de aplacar a ira da multidão, em ato de injustiça deliberada. Após, expôs Jesus à multidão como um rei ridicularizado, trajando uma capa de púrpura e usando uma coroa de espinhos, dizendo-lhes “Eis o homem”.

O castigo não saciou a sede do povo por morte. Não sendo feliz nos dois outros artifícios que usara para livrar-se do caso, recorreu a um terceiro: o costume do indulto por ocasião da Páscoa. Observa-se uma insistência desmedida desse Governante para furtar-se à resolução da questão (que, por sinal, ela já havia decidido consigo). Apresentou ao povo Barrabás e Jesus, dando-lhes a possibilidade de escolherem quem seria solto. Obviamente, pensava que a multidão escolheria Jesus, já que sabia que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes tinham lhe entregado Jesus. Exime-se, pela terceira vez, de declarar a inocência de Jesus; ao invés disso, deixa sob as mãos povo a possibilidade de libertá-lo.

Sentado à tribuna para julgar o caso, recebeu um recado de sua mulher, advertindo-o para não se meter com aquele inocente, já que, em sonho, ela muito sofrera por causa dele. Foi a confirmação derradeira do seu veredicto. Ele mesmo já se convencera da inocência de Jesus; Herodes não encontrou motivos para condená-lo; sua esposa, por fim, o advertiu da situação. O drama se desenrola e envolve mais pessoas. E tudo concentrado na decisão, ou melhor, indecisão daquele homem.

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