quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Leviatã


As premissas, sobretudo, são os elementos fundamentais para os delineamentos e conclusões de qualquer teoria. A depender do ponto de partida, o local ao qual chegará uma linha argumentativa pode mudar drasticamente. E foi por uma premissa singular que Thomas Hobbes derivou o desenvolvimento de sua teoria social e adquiriu notoriedade em sua época. Tivesse ele nascido em outro momento, o atual, por exemplo, quem sabe não poderia munir suas ideias de exemplos vivos, como a guerra instalada no Rio de Janeiro?

Para o filósofo inglês, o homem é mau em sua natureza, é egocêntrico e voltado para o conflito – o “homem é o lobo do próprio homem”. Na sociedade hipotética em que não há a presença do Estado, impera o banditismo e a barbárie, numa guerra de todos contra todos. Os homens regulam os embates pelo uso da força. E como não há alguém que possa desenvolver uma força tão superior aos dos outros, mesmo o mais forte viverá em estado de constante insegurança. Sem um poder regulador, há um “medo contínuo e perigo de morte violenta; e a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”.

Esse cenário sombrio Hobbes poderia teria visto, ao menos em parte, nos morros do Rio de Janeiro. A violência em alguns redutos é rotineira, e o estado de insegurança constante. Por mais que organizações de traficantes criem um Estado paralelo, trazendo ordem, há sempre o medo de tomada de território por facções rivais ou por milícias, e o pânico de tiroteios e balas perdidas aflige a população.

Pela impossibilidade de viverem sempre nesse Estado, onde a existência é lastimável, os homens, segundo Hobbes, tendem à paz. Para tanto, celebram um acordo entre si – o pacto social – cedendo parte de sua liberdade a um ente forte e soberano, cuja força supera a dos particulares. Esse ser criado consiste no Estado, representado analogamente na obra do filósofo pela figura do Leviatã, um monstro mitológico que atormentaria os mares e cuja força seria insuperável.

Hobbes ficou conhecido como o filósofo do poder soberano, tal a ênfase que coloca na força e poder do Estado como instrumentos para alcançar a paz social. Chegou a essa conclusão baseado em sua premissa de que o homem é mau, e que deixado por si tende à barbárie, à desorganização e à guerra. Em seu pensamento, “os homens consideram melhor a ditadura de um só do que a de todos”, já que “há algo pior do que o despotismo: a anarquia” (Grondona).

Apesar de ser uma visão superada já pelo Iluminismo, Hobbes, se estivesse vivo, poderia estar pelas vielas dos morros cariocas a explanar os pontos de sua teoria, tentando convencer o povo de suas ideias. Afinal, o que se viu no Rio foi o levante do Estado como uma figura forte, articulada, e poderosa, que desestruturou rapidamente o Estado paralelo criado por traficantes. Foi a instauração da ordem que veio somente porque a população cedeu parcela de seus direitos ao ente superior que promoveria a paz social.

O sucesso da operação deveu-se, segundo a maioria dos especialistas, à grande aceitação e confiança da população dos morros nas forças estatais. Muitos foram e são revistados quando passam por determinadas ruas e têm suas casas averiguadas por policiais à procura de traficantes. Mas a limitação dessa liberdade de ir e vir, ou a restrição ao direito de propriedade são louvados em nome do fim a que se destinam essas medidas. É a teoria de Hobbes em prática, ajudada, certamente, por um de seus mais contundentes discípulos, um tal de Capitão Nascimento.

Um comentário:

Rafael Bello disse...

Digo,

Parabéns pelo texto. Bem articulado e uma explanação muito boa dos conceitos na teoria de Hobbes.

O homem sempre será o lobo de si mesmo. Aliás, devido à composição do Estado, este também é corrompido. O que nos resta de esperança? Nem o capitão nascimento poderá nos salvar, mas um governo justo e reto, como o de Cristo.

Por isso, Maranata, Senhor. Sem Cristo, sem esperança de um país melhor. Apenas arranhões, sugerindo a qualidade de vida proporcionada por um Estado, que um dia cairá.

Rafael Bello