segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O silêncio dos explorados


Os alunos apenas se entreolhavam naquela típica tensão do primeiro dia de aula. Calados, aguardavam quem entraria por aquela porta para iniciar as aulas. Alguns pensavam sobre como seria o professor, sua aparência, seu método, suas provas; outros apenas desejavam que as aulas passassem logo. Súbito, entrou uma mulher, cabelos ásperos e vestido grande; andando de forma apressada, dirigiu-se à mesa central. Era o sinal, aquela seria a professora.


Começou a aula com uma breve apresentação de si. A explanação da matéria foi iniciada com uma crítica ácida à sociedade, e o jargão tão caduco e vazio lhe escapou da boca: “na sociedade moderna o ter vale mais do que o ser”. As censuras às estruturas sociais iam levando umas as outras, de modo que se tornou impossível precisar o conteúdo certo da aula. Entrementes, os alunos achavam divertidas as argumentações, e alimentavam o instinto de rebeldia próprio da idade.


Nos dias seguintes, o sistema elitizado e excludente do capitalismo foi posto em cheque. As opressões discriminadoras de uma reduzida e privilegiada classe dominante foram desnudadas. Às ciências sociais caberia o papel de tirar dos homens o engano que lhes fora incutido pelo grupo detentor do poder econômico. Toda essa visão eurocentrista do mundo, toda essa indústria do consumo que fora erigida pela sociedade moderna, toda essa alienação que desumaniza o próprio homem por considerá-lo como mercadoria, deveriam ser ativamente combatidos pelas massas, que embora sendo maioria, são impiedosa e cruelmente exploradas por uma vil e gananciosa classe de burgueses.


Assim, ouvindo todas essas assertivas, brotavam nos alunos aspirações por liberdade e libertação dessas correntes invisíveis que aprisionavam a todos. Sempre havia alguém que estendia sua mão pedindo permissão para falar, e citava exemplos e mais exemplos de consumismo e alienação. As aulas iam se seguindo quase que da mesma forma, um desfile de depreciações à vida moderna, a seus valores e instituições.


Certo dia, porém, um aluno, já farto de tantas amarguras, resolveu fazer uma pergunta mordaz à professora. Fazia o tipo abusado, e era indiferente às aulas e aos professores. Sem formalidades, atacou da seguinte maneira: “Professora, você acha que tem um entendimento melhor do que o da gente, acha que entende tudo, mas é apenas uma peça dessa máquina que tanta critica”. Surpresa, a professora não reagiu com rudeza, mas com espanto por ouvir aquilo. Disse “como assim?”, desejando mesmo saber o porquê daquelas palavras. O aluno, calmo e firme, argumentou: “nossos pais pagam uma grana por essa escola e você recebe muito bem; é tão beneficiada pelo sistema quanto um burguês, e se fosse realmente diferente ensinaria de graça, como Sócrates”.


A irritação da professora aflorou-lhe no rosto, de modo que esse ficou imediatamente rubro. O atrevimento que ouvira deixou-a desconcertada perante toda a turma. A resposta que deu foi que ela exercia aquela profissão por amor e precisava do dinheiro para sobreviver, como qualquer um. Insatisfeito, o aluno continuou: “Então por que não exerce a caridade e a justiça que a senhora clama de toda a sociedade, por que não vive apenas com o necessário e doa todo o resto?”. Ela, aumentando o tom de voz, argüiu: “E o que tem você a ver com a minha vida pessoal, com o que eu faço ou deixo de fazer com o meu dinheiro?”. “Ora, devo alertá-la, para o seu próprio bem, que seu dinheiro o está alienando da realidade das perversas e desproporcionais relações de troca”.


Indignada, a professora mandou o aluno calar a boca, pois não se sentia confortável dentro daquela discussão. Contudo, o aluno não cessou com as afrontas, pois parece que se divertia com todo aquele teatro. Pôs-se de pé e falou dramaticamente a todos: “Professora, não irá calar a voz de um oprimido que marcha cego nesse processo infame de educação (o qual considero mais como um adestramento). A autoridade de sua posição não há de nos intimidar; essa classe elitizada de professores que nos aprisiona no sistema explorador que é a escola um dia será derrubada pela revolução dos estudantes!”


Expulso de sala, o aluno saiu como que feliz por ter, segundo pensava, ganhado a discussão. Recuperada do episódio, a professora voltou a dar aula, argumentando que a loucura era resultado comum da alienação.

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