sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pirâmides, múmias e faraós


Sob os açoites do tempo ainda remanescem essas imponentes estruturas, colossos de tempos antigos, em que a sociedade cultuava homens como deuses, e submetia-se ao seu domínio ilimitado. Em seu interior, descansam nobres faraós, agora múmias dissecadas pelo tempo, que não resistiram às hordas de invasores macedônios, romanos e árabes; sucumbiram e minguaram a reles reino sem muita importância.

Mas ainda lá estão as pirâmides, que relembram o povo de um passado grande, de lendas e mitos. Eis, então, que mais de 4 mil anos mais tarde, toda essa riqueza egípcia emerge de ímpeto, agitando as densas águas da história, e fazendo reviver faraós e múmias, tesouros e pirâmides.

Após trinta anos comandando uma ditadura, Hosni Mubarak foi vencido pela multidão. Dezoito dias de protestos, batalhas, ajuntamentos, euforia nas redes sociais derrubaram o (último?) faraó do Egito. Na verdade, a revolta começou antes, bem antes, mas era silenciosa, pessoal. Os antagonismos e as contradições de um governo há muito constituído foram incitando queixas mudas; a pobreza e a miséria alimentando descontentamentos; e a ditadura, ultimamente mascarada em democracia, calando a voz de um povo resignado. Somente agora, após tantos anos, a voz do protesto irrompeu como num grito de dor que já não se pode conter.

O faraó deposto será agora dissecado pelos analistas e mumificado pela história; sobreviverá em museus. Mas já agora revela segredos e mistérios egípcios, segredos sobre como levou adiante uma ditadura longeva. Importa muito ao Brasil decifrar esses enigmas.

Quando o poder é assumido, a antiga ordem é execrada. As mudanças e reformas são tão aclamadas que parece que o país apenas começou naquele momento, o que aconteceu antes não importa. As reformas são vistas de longe, como verdadeiras pirâmides, conclamando à adoração ao faraó e sua corte. As pessoas anseiam pelo prosseguimento das transformações, pela continuidade dos programas, de forma que o poder é dado por mais um período. E assim os anos vão passando, afinal, sempre é preciso um pouco mais para consumar o glorioso processo de transformação social. A população logo se impacienta com a demora, e atenta para os problemas: não poderia ser de outro jeito? – alguns pensam.

Mas é que é principalmente nas falhas que o poder e a força têm a capacidade de torcer a visão, de relativizar. Escândalos de corrupção são mentiras golpistas da mídia; alianças espúrias são inconvenientes da governabilidade; arrocho orçamentário é consolidação fiscal... Com o controle soberano das instituições governamentais, não é difícil fazer com que todos realmente acreditem nas explicações. E a partir daí já é quase impossível que alguma voz contrária se insurja com veemência a ponto de derrubar o regime.

As eleições são solenidades formais da perpetuação da ditadura. Mas quem disse que é ditadura? É um regime democrático, ora! Nesse estágio, apenas tempo, sangue e mobilizações nacionais são aptas a destruir o monstro que se alimentou lá atrás.

Fiquemos apenas com a múmia. Deixemos os faraós para a história e as pirâmides para o Egito.

Nenhum comentário: