terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Vencedores e Vencidos

Na rua iam andando dois homens, concentrados, olhares perdidos, pensando... O primeiro tinha o semblante melhor, e parecia que estava feliz. Pensava consigo:

“Como foi bom prosperar nessa causa! Quanto esforço despendido, quanto trabalho, preparação e suor... Claro, não posso me esquecer de todo o apoio que tive. Minha família, sem eles eu de fato não seria nada no mundo, eles são responsáveis por tudo. Meus amigos, quanto apoio e suporte, e conversas e lazer que me deram para agüentar a sufocante rotina. Mas, acima de tudo, não posso esquecer de Deus, que tem me dado saúde e bênçãos... É, mas de toda forma foi uma grande vitória, uma grande conquista!”

Enquanto isso, o outro que ia ao seu lado parecia que não tivera a mesma sorte. Seu olhar baixo, longe, e a feição agitada e opaca indicavam que as coisas não iam lá muito bem. Tal era o seu pensamento:

“A mente ainda não aceita a realidade da derrota, e a memória refaz os segundos e minutos que levaram a esse resultado tentando encontrar alguma justificativa. É difícil aceitar o que se sucedeu, e depois levantar a cabeça e assumir que perdi. Apesar de todo o esforço e estratégia, não foi possível encontrar o tão sonhado e esperado êxito. Parando para pensar, não encontro um grande erro, daqueles que botariam tudo a perder. Não. Fiz tudo com cautela e prudência, mas acho que foi a junção de pequenos erros que no final levaram a isso. Um descuido no planejamento, uma subavaliação dos riscos e obstáculos, uma falta de um empenho firme e decidido creio que foram os motivos.”

O contraste atingiu seu ápice nesse momento. O primeiro homem não mais andava, desfilava na rua com confiança e elegância, ao tempo que o segundo se arrastava ao seu lado empurrado pela culpa que sentia. Olhando para o lado e como que se dando conta da situação, o primeiro homem, o vencedor, notando o transeunte miserável que andava perto, foi tomado de um pensamento extasiante:

“Me sinto como um general que triunfa após a batalha... E a diferença entre vencedores e vencidos não está em desígnios desconhecidos do destino, mas na coragem do exército e na destreza do general. Afinal, os que caem nos campos da guerra também tiveram seus apoios, suas famílias, suas crenças, mas amargam a derrota. Não que eu nunca haja perdido nenhuma batalha, claro, mas é que nessa eu ganhei. Os méritos cabem a mim. Ora, nada mais justo do que saborear uma vitória, é justo, justíssimo, aliás, quem não se gaba das suas. Portanto, quando penso em tudo o que eu passei para chegar até aqui, todas as lutas que venci, me sinto um vencedor, trilhando sozinho nessa estrada da vida...”

Mas bastou apenas um breve instante, na velocidade de um devaneio que se apossa da cabeça e passeia veloz, para que a cena mudasse. Deu-se quando o segundo homem começou a refletir assim:

“Mesmo assim, ainda não me perdoo. Empreendi grande parte do meu tempo e força para nada. E pensar nas noites em que sonhei com a vitória e nas lutas diárias que travei... De qualquer forma não é de se jogar fora a experiência. Foi valiosa. Às vezes era isso mesmo o que tinha que ter acontecido, e nada mais. Vai ver é um desígnio do destino ou vontade de Deus... Isso, vontade de Deus. Tem coisas na vida que a gente depois aprende que simplesmente não era para ser. Pensando bem, eu aqui me culpando à toa, me martirizando para nada, quando na verdade fiz tudo certo, e até melhor do que muita gente. Ao invés de me atormentar com culpas e remorsos, devo é entender que a diferença entre vitória e derrota está muito mais no acaso do que no esforço, porque se dependesse de mérito eu com certeza teria vencido.”

Daí, os dois passaram a andar em um passo longo e firme, e ao longo da rua seus olhos se encontravam desconfiados. A caminhada parecia uma disputa entre dois homens obstinados. Quem presenciou tudo ficou imaginando o que teria passado pela cabeça de ambos para produzir aquela cena tão estranha.

Nenhum comentário: