quinta-feira, 3 de março de 2011

Na minha época era diferente...


Quando se atinge certa idade, passa-se a fantasiar o passado com um saudosismo escapista. Os bons tempos ficaram para trás, o mundo agora avança rumo à depravação e deterioração. Essas e outras são reações comuns frente às mudanças que se sucedem umas às outras na rápida e veloz realidade. Não há idade certa para que esse processo comece a ocorrer, basta que se tenha uma boa imagem do passado.

Eu mesmo, jovem, ao deparar-me com a insípida infância dos meninos de hoje, penso em como foram bons aqueles velhos tempo de criança. E analisando um pouco o novo panorama, tenho motivo bastante para acreditar que de fato os tempos mudaram significativamente. Tenho uma visão privilegiada pois vivi no limiar de duas épocas: vi a ascensão da era digital em meados de minha infância.

Sou de uma época em que desenhos infantis passavam apenas pela manhã nas TVs abertas. Depois disso, tirando a sessão da tarde e alguns seriados japoneses, não havia mais nada interessante após o meio dia. A saída para a garotada era inequívoca – desligar o aparelho e arranjar algo com que se divertir. Quando conseguimos o sinal de uma TV a cabo, lembro que meu pai deu uma passada rápida pelos canais e meus olhos brilharam quando vi, por volta das nove da noite, um canal que passava só desenhos! Que autonomia para as crianças!

Hoje em qualquer TV paga existem no mínimo três canais nesses moldes. As crianças mais preguiçosas agora não são mais forçadas a sair do sofá e caçar o que fazer depois de certo horário, basta mudar de canal. Não precisam se contentar com os desenhos da Globo ou do SBT, há uma infinidade para escolherem. E aí muitas delas se tornam chatas e criteriosas.

Vivi o tempo em que os pais falavam para os filhos voltarem para a casa quando escurecesse! A tarde era um tempo mágico e livre onde reinava o divertimento. Nada de celular pros pais, quanto mais para os filhos... Hoje o controle proporcionado pela tecnologia tem impedido essa liberdade da infância, de tal modo que os mais novos sequer podem sair para comprar pão na padaria (isso tenho observado).

Com relação às músicas ou filmes, presenciei outra revolução. Lembro de comprar fitas cassetes e ficar a manhã inteira ouvindo rádio e gravando minhas músicas favoritas para ouvir depois. (E quando a fita enrolava e tinha que pegar uma caneta e ficar girando o rolo!). Bom, o fato é que, a não ser que você comprasse um vinil (sim, sou dessa época), ou ouvisse a música na rádio, em nenhum outro lugar você teria a oportunidade de escutá-la de novo. Por isso eu gostava quando passava na sessão da tarde o clássico Curtindo a Vida Adoidado, pois tinha aquela célebre cena em que tocava Twist and Shout dos Beatles no meio de um desfile. Era uma das únicas vezes que podia ouvir essa música.

Com relação aos filmes, já sou do tempo do vídeo cassete. Nunca fui privado de assistir um filme de que gostasse, apesar de levar algumas broncas do cara da locadora por ter esquecido de rebobinar.

Vi quando os computadores pessoais invadiram e mudaram de vez a rotina das pessoas. Que dizer então da Internet? E o Napster, primeiro programa de compartilhamento de dados, que popularizou o download de músicas?

Não posso e mesmo não pretendo falar como um avô, contando aos mais moços que brincava de peão, soltava pipa e jogava futebol de botão. Tive vídeo-game e gostava de ficar em casa. Os tempos estão sempre mudando, e é óbvio que a infância de hoje será retrógrada e ultrapassada daqui a cinqüenta anos.

Contudo, acho que pela revolução digital que transfigurou a cara do mundo, perdeu-se características caras e preciosas a um dos melhores períodos da vida. A criatividade para inventar brincadeiras, os gostosos momento em que se ficava sem ter o que fazer, o contentamento singelo com os desenhos que passavam e a liberdade das brincadeiras debaixo do bloco perderam-se nas sombras do passado. Agora há apenas um mercado em que as crianças esperam a próxima novidade.

Ressoando os mais antigos, abro-me uma concessão somente agora para me permitir dizer com eles: Ah, os bons tempos ficaram para trás!

2 comentários:

Lilian disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lilian disse...

Lendo o texto conseguimos visualizar tão nitidamente momentos de um passado tão próximo e que já parece tão distante...
Filho vc já é o meu cronisma favorito!!! E não é "corujisse" não, apenas uma constatação diante de textos tão bem escritos, simples, claros e muito profundos e sensíveis.
Parabéns!!!!!