quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crônicas de um futuro próximo - parte 2

Após o constrangimento da blitz, João seguiu seu curso em direção a casa. Atrasado e de mau-humor, os pensamentos voltaram-lhe à cabeça. Lembrou-se de quando assistia empolgado às últimas notícias de descobertas científicas. O mundo parecia tão simples. Bastava colocar alguns cientistas em um laboratório, investir algum dinheiro e esperar que o tempo e as descobertas trouxessem o avanço salvador. Futuro e progresso se confundiam.

Por que, então, as coisas não tinham progredido como todos esperavam? Faltou considerar na fórmula os homens, pensou ele, com seus desejos, suas vontades e transformações, e também seus erros e retrocessos. Seus pensamentos reflexivos foram interrompidos quando avistou uma aglomeração logo à frente. Quando chegou mais perto, viu tratar-se de uma manifestação do GC – Grupo dos Carecas. Centenas de homens carecas estavam bloqueando parcialmente a rua e protestando contra a discriminação e o preconceito que sofriam. A cena era comum naqueles dias, já que o GC estava realizando uma ofensiva contra as empresas que fabricam produtos para cabelo.

De fato, o GC fora enormemente influenciado pelos grupos que o precederam, e foi por ver o sucesso de seus antecessores que resolveu investir suas forças para pleitear seus objetivos. Era estranho perceber que naquela época qualquer diferença social dava ensejo à formação de grupos distintos, que se separavam da sociedade e lutavam por benefícios próprios.

A enorme confusão que se fazia com os termos “preconceito” e “crítica” levava a uma partidarização protetiva dos grupos, que acentuava a diferenciação. Grupos se constituíam para unir forças e lutar contra a “discriminação”, ignorando o fato de que isso apenas os distinguia ainda mais do todo social. E como as palavras de ordem eram “tolerância” e “diversidade”, logo se aprovavam ações afirmativas em favor desses grupos.

João lembrava-se de como tudo tinha ocorrido. Os negros encabeçaram o movimento. Alegando uma dívida histórica que a sociedade tinha com eles, foram beneficiados com cotas em universidades. Os índios vieram na cola. As mulheres também integravam o movimento de vanguarda, e conseguiram, dentre outros, cotas em partidos políticos. Os idosos tiveram garantidas suas vagas nos estacionamentos. Os homossexuais empreenderam uma mobilização tão grande, e tão sutilmente conseguiram espalhar termos como preconceito e homofobia, que alcançaram uma lista imensurável de benefícios (eram o único grupo social sobre o qual não se podia fazer piadas).

Os pobres vieram logo em seguida, e finalmente obtiveram suas tão esperadas cotas em universidades e órgãos públicos. Na mesma corrente, uniram-se os feios. Já não suportavam mais as discriminações em diversos setores da economia, as chacotas e as humilhações. Mas o grande número de integrantes desse grupo conferiu a eles uma força de pressão imensa, de modo que conseguiram aprovar cotas em agências de modelos, novelas, filmes e partidos políticos. Ainda hoje a pauta do IRB (Instituto para a Reformulação da Beleza) é extensa e o grupo pleiteia muitos benefícios, lutando contra o monopólio da beleza nas relações sociais. Há ainda que se mencionar os gordos, os nordestinos e os ricos, que também entraram no esquema para não perder vantagens.

O dogma dessa geração era tolerar a diversidade, tratando de forma desigual os desiguais. Não se tratava, como no século passado, de promover a igualdade material. Queria-se assegurar a igualdade de dignidade, uma dignidade plena que cada indivíduo e cada grupo tinham direito. E mesmo tão frágil e indeterminado, o conceito de dignidade era basilar do direito, de modo que ao menor rumor de crítica ou contrariedade, cada grupo social tinha sua fórmula para retaliar os inimigos. Invocava-se, primeiramente, o manto do preconceito. Para lutar contra o preconceito, utilizava-se a própria discriminação, separando-se e reservando-se espaços sociais aos grupos pleiteantes. Ao final, a tolerância e o pluralismo eram os venenos que, a pretexto de homogeneizar e tornar iguais os homens, dividia cada vez mais a sociedade, acentuando diferenças e prevendo tratamentos desiguais.

Era esse o contexto que favorecia as pretensões do GC. E João, acostumado que estava com essas manifestações, aguardou pacientemente o fluir do tráfego para enfim chegar em casa.

Crônicas de um futuro próximo - parte 1

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