quarta-feira, 13 de abril de 2011

O risco de viver

A coroa da criação divina para alguns ou o ápice da evolução para outros, os homens espalharam-se pela face da Terra dominando animais e sobrepujando a natureza. A empreitada sem fim construiu civilizações e trouxe um progresso capaz de parar raios, vencer a força das águas e manipular a gênese de vários seres vivos. Mas tanto hoje quanto ontem, a vida em si consubstancia um risco inerente – os perigos, os acasos, as tragédias, que vêm de pragas, da fúria da natureza ou do próprio homem tornam o passar dos dias uma folha frágil que facilmente é levada pelo vento.

A precaução e a previsibilidade são virtudes aceitáveis do homem sensato. Sua falta leva à imprudência. O seu excesso, contudo, não é hábil a afastar as imprevisibilidades que uma vida pode ter. Ser precavido em demasia não é bom. Os dois grupos do início do texto também aqui convergem: Jesus adverte que ninguém, tomando todos os seus cuidados, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida; os cientistas taxaram a exasperação desse comportamento obsessivo de síndrome do pânico.

Então por que a sociedade às vezes olha as suas mazelas com um pânico irracional e age impulsivamente pelo lado errado? O conforto e a estabilidade que a vida moderna nos deu servem de pretexto para a certeza e as reparações infundadas, ignorando as probabilidades de uma circunstância.

Se uma chuva derruba uma árvore e essa cai sobre um carro, é responsabilidade do Estado o ressarcimento do proprietário. Eis o absurdo controle do incontrolável, a atribuição infundada de responsabilidade. Tudo bem que você paga impostos, mas para trafegar em vias construídas, viver em uma cidade segura e ter à sua disposição alguns serviços básicos, e não para se livrar de todos os perigos naturais. Muitas vezes o alagamento e o deslizamento que provoca mortes são fatalidades, e apenas isso.

O que fazer depois da tempestade? Levantar-se e reconstruir. O lutar constante contra a natureza para se estabelecer em segurança, eis a jornada do homem sobre a terra. Acreditar que a defesa do cidadão em qualquer situação é obrigação do Estado é ilusão que provém de leis retóricas e discursos sem efetividade.

Quando os perigos resultam não da natureza, mas dos relacionamentos entre os próprios homens, a observação é a mesma. O massacre em Realengo na última semana levanta discussões sobre a segurança nas escolas e o bullying. Especialistas querem colocar detector de metais nas portas de todas as escolas. Imagem vívida da síndrome do pânico social. Como qualquer aglomeração de pessoas é um alvo em potencial de psicopatas, a medida deveria se estender, logicamente, aos cinemas, shoppings, praças e praias, para que afinal a população possa viver em segurança.

Acerca do bullying, a “violência física e moral praticada no âmbito escolar”, a questão é complexa. Certamente que é prejudicial e provoca traumas nas vidas das crianças. Mas não é a escola o primeiro contato da criança com a vida social? Não é ela o ambiente onde a criança deve lutar para conquistar seu espaço, que deve vencer a barreira da timidez para fazer amigos, que retrata os perigos e as vantagens da sociedade real?

A ansiedade do primeiro dia de aula, o ambientar-se a novo cenário, a luta para fazer amigos, o esforço pela convivência com todos, a coragem para vencer problemas de relacionamento são todos elementos que fazem da escola muito mais um lugar de aprendizado social que acadêmico, de modo que nele são refletidos os riscos da própria sociedade. É claro que limites devem ser impostos, mas sem adentrar com profundidade na questão, basta ver que a precaução excessiva também é uma tentativa de eliminar todos os perigos da vida social.

Os perigos estão sempre presentes. Seja por causas naturais ou por comportamentos humanos, todos a eles estão sujeitos.

Sair de casa é entregar-se às probabilidades de perigos que se entrecruzam nas ruas da vida. Trancar-se em castelos de segurança e olhar da janela as ruas é a renúncia da própria vida. E ainda assim a certeza de que nem um pássaro ou um fio de cabelo cai ao acaso. Viver é um risco que se corre com segurança.

Um comentário:

Anônimo disse...

Magnífico!