segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ninguém tem paciência comigo!



Ninguém tem paciência comigo, Sigam-me os bons ou Gentalha, Gentalha! são bordões quase que assumidos pela cultura nacional. Provêm todos da mente fértil e criativa do mexicano Roberto Gómez Bolaños, criador dos seriados Chaves e Chapolin. Em seu país, Bolaños é conhecido como pequeno Shakespeare, ou Chespirito, em espanhol, tamanha é sua obra artística, incluindo novelas, seriados e esquetes humorísticas que têm ao longo desses quase cinqüenta anos animado a televisão mexicana.

Muitos não gostam do programa, acham-no bobo e infantil; outros julgam que já se passou seu tempo; e ainda outros sequer opinam por achar o tema irrelevante. Mas o que não se pode esconder é que se trata de um dos maiores fenômenos da televisão brasileira, senão o maior. O espanto é o mínimo que decorre do fato de que menos de 100 episódios são exibidos no Brasil desde 1984, quando estreou pela primeira vez. Portanto, há mais de 26 anos no ar! A surpresa é incrementada quando se considera que os episódios foram gravados no início da década de 1970, com tecnologia no mínimo risível nos dias de hoje. Diga-se de novo: há 26 anos poucos episódios se repetem na programação televisiva, não sendo raros os que afirmam que já viram todos os episódios.

Outra coisa que chama a atenção é que os personagens Chaves, Quico e Chiquinha, para citar alguns, são crianças interpretadas por atores de quarenta anos para cima. Mas a atuação não fica grotesca, irreal, forçada. Sinceramente, acho que é a melhor interpretação de crianças feita por adultos em toda a TV. As caras, as falas, os choros, tudo é feito de forma a ver em Chaves um pobre menino atrapalhado, em Quico uma desengonçada criança mimada ou em Chiquinha e menina das tramas malévolas. Mas em nenhum caso se vê um adulto tentando fazer às vezes de uma criança. A atuação convence de forma extraordinária e faz o programa se desenrolar naturalmente.

O humor eclético de ambos os programas, às vezes de cunho pastelão, às vezes recorrendo a trocadilhos, às vezes com piadas inteligentes, é sempre refinado e original. Suas graças atendem ao público geral, de qualquer idade, e sobrevivem ao tempo (que outra razão explicaria sua manutenção no ar após todo esse tempo?). Coisa de valor hoje em dia, em que é raro ou até impossível achar um programa de humor que não apele ao sexo ou ao escárnio alheio.

Chaves e Chapolin possuem também um grande valor cultural. Eu, que assistia aos programas quando criança, vim a conhecer coisas como sarcófago, múmia, Napoleão Bonaparte, Cantando na Chuva, piratas, disco voador, Cleópatra, Marco Antônio e Júlio César, Guilherme Tel e Chopin através dos episódios de Chapolin Colorado. Já a vila do Chaves retrata com vivacidade a realidade latino-americana, trazendo os temas recorrentes e até hoje atuais da fome e pobreza de Chaves, do desemprego do Seu Madruga e das relações subservientes entre Seu Barriga, o dono da vila, e seus inquilinos.

Como dito no início, de fato vários aspectos dos programas já integram a cultura nacional. A Bruxa do 71, os 14 meses de aluguel ou os famosos diálogos Não quer entrar para tomar uma xícara de café? ou Não contavam com minha astúcia são alguns exemplos.

Em tempos de perturbações sociais e tensões quanto ao futuro, a cultura deve ser valorizada. E os momentos inofensivos, em que se pode dar uma risada pura e descompromissada também. Por isso, tenham paciência com aquele que reclama: Ninguém têm paciência comigo!

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