domingo, 5 de junho de 2011

Chamberlain, Ronaldinho e a Igualdade

O futebol do Brasil tem assistido nos últimos anos a volta aos campeonatos nacionais dos craques brasileiros que jogavam no exterior. Ronaldo Fenômeno, Adriano e Ronaldinho são alguns deles. Essa valorização do futebol nacional tem contribuído para aumentar o fluxo de dinheiro movimentado pelo maior esporte do país. Para se ter uma ideia, jogadores desse nível recebem até meio milhão de reais por mês. Mas mesmo os jogadores médios dos times brasileiros recebem altos salários comparados à media nacional, cerca de 50 mil por mês.

Muitos por aí, quando se deparam com essas quantias, questionam a respeito da justiça desses valores. Afinal, é justo pagar salários tão altos para pessoas que aparentemente produzem apenas entretenimento em meio a um país com tantos miseráveis?

A questão já foi levantada e respondida pelo teórico Robert Nozick ao avaliar princípios de igualdade e de distribuição de renda. Só que o filósofo americano não recorreu aos craques do futebol brasileiro para seus exemplos, e sim a Wilt Chamberlain, um dos maiores astros da NBA americana de todos os tempos.

Suponha que uma sociedade efetue uma distribuição dos seus bens segundo o princípio de justiça que reputa ser o correto (por exemplo, a cada um segundo seus méritos, ou a cada um segundo suas necessidades, ou a cada um a mesma coisa). Só que Wilt Chamberlain assina um contrato com um time de basquete dessa sociedade, que estipula que um quarto do valor de cada ingresso componha os ganhos do astro. Na primeira partida, um milhão de pessoas vão assistir ao show do jogador. Considerando que o ingresso custe 1 dólar, segue-se que naquela mesma noite Chamberlain estaria 250 mil dólares mais rico do que todos. Mas como a distribuição no início era justa, e as pessoas dispuseram de seus bens voluntariamente, a distribuição em que Chamberlain é rico também é justa. A conclusão a que chega Nozick é que "nenhum princípio de redistribuição pautado por justiça pode ser realizado continuamente sem intervenção sistemática na vida das pessoas".

Em outros termos, as próprias ações pessoais conduzem à desigualdade, de modo que se se quiser manter a distribuição de bens fixada no início, o Estado terá que intervir nos comportamentos dos indivíduos (mediante os impostos, por exemplo).

Voltando ao Brasil, ao futebol, e aos milhões pagos aos jogadores, que resposta se dá a respeito da justiça dos salários? Aplicando o argumento de Nozick, tem-se que os valores são justos porque advindos voluntariamente do bolso dos torcedores, que com a compra de ingressos, de camisas ou com o aumento da audiência da televisão acabam sustentando esses milhares de reais que fluem para as contas dos craques.

A paixão nacional, então, além de democrática, pode ser qualificada de justa!

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