quinta-feira, 14 de julho de 2011

O balançar do Ocidente



Muito tempo decorre até que se forme uma civilização, que consiste no nível mais amplo de agrupamento cultural, e engloba sociedades e nações. É uma construção de séculos, onde as ideias, as circunstâncias e as forças sociais vão moldando lentamente as instituições necessárias. Não há dúvidas de que o Brasil integra o extenso mundo da civilização Ocidental. Assume as suas características, partilha da sua maneira de pensar, divide o mesmo modo de produção e comércio de bens. Toda civilização se firma sobre alguns alicerces, fortes o suficientes para garantir a rigidez e a estabilidade do monumento erigido. Mas quando há rachaduras na base, o prédio inteiro balança e passa por momentos de incerteza.

O tripé clássico que sustenta o Ocidente é conhecido: a filosofia grega, o direito romano e a ética cristã. Esses três elementos se fundiram em um longo processo de evolução que se desenrolou pela história e deram a cara do que hoje chamamos de mundo.

Os gregos criaram a concepção de cidade como um espaço público voltado para o interesse comum. E foi justamente nessa polis, longe do ambiente mitológico-religioso do campo, onde as ideias fervilharam e criaram um pensamento singular. Tendo início com a ciência naturalista dos pré-socráticos e desembocando na tríade Sócrates, Platão e Aristóteles, os gregos conceberam uma racionalidade crítica, que buscava encontrar as verdades escondidas no caos da vida. Assim nasceu o pensamento ocidental, ansiando sempre por descobrir a essência das coisas, os princípios fundamentais da realidade, e propor padrões absolutos que contrastam com a efemeridade dos fenômenos. Assim nasceu a revolução científica da modernidade, desejando afoitamente explicar e domar a natureza, achando as leis que a regiam. Assim se alterou irreversivelmente a cara da sociedade.

Os romanos afastaram-se da razão contemplativa de seus vizinhos helênicos e construíram um modo de vida prático, longe de problemas teóricos e atentos aos conflitos do cotidiano. Cristalizaram essa intuição pragmática em comandos jurídicos e legaram ao Ocidente uma coleção de princípios e normas de direito. Essa forma peculiar de organização social sofreu a influência da filosofia grega e do cristianismo, acoplando-os ao seu corpo e criando o normativismo jurídico balizado por uma ética específica, que até hoje é a base da ordem social.

Por fim, o cristianismo forneceu uma grande herança ao Ocidente: universalizou o conceito da divindade, propôs separação clara entre o estado e a religião e substituiu o paradigma do tempo cíclico pelo tempo linear. Mas foi a ética bíblica que marcou mais fortemente a modernidade. Essa ética inseriu um grande valor à caridade e ao perdão, pois passou a pregar a consideração e o respeito a todos os homens, e não apenas aos conterrâneos. Integrou ainda à consciência ocidental uma noção forte da responsabilidade moral do homem pelo seu pecado e pelas suas ações. Inquestionável é o peso dessa influência nos dias de hoje.

Mas todas essas bases já sofrem as rachaduras do tempo. A racionalidade abstrata encontrou a primeira perda com a derrocada do idealismo metafísico, e agora tenta desatar o nó dado no mecanicismo pela ciência quântica e a teoria da relatividade. O direito por toda parte anda defasado, obsoleto, correndo contra o tempo e ainda assim não dando conta de apresentar soluções satisfatórias à velocidade dos conflitos modernos. A ética já encontra alternativas pós-cristãs para vários temas, como o casamento, e perde sua força de orientação moral.

Uma pergunta fica nesses tempos agitados: o gigante chamado Ocidente aguentará por quanto tempo esse balançar provocado pelos novos ventos da história?

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