terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Céus



Júlia estava habituada à vida na cidade. Sentia-se bem com a urbanidade de sua infância. Já havia viajado várias vezes em sua vida, mas foi somente naquela noite que ela teve uma visão estarrecedora que a tocou profundamente. Ela fora com seus pais à casa de campo de uma tia. Passariam o feriado lá. Na densa escuridão que cobria os campos, a menina saiu para pegar seu celular que esquecera perto de uma árvore, quando estava brincando durante o dia.

Ao se afastar da casa, a noite a foi envolvendo e a escuridão aumentando. Foi então que ela olhou para cima e se deparou com o céu mais iluminado de sua vida. Milhares de estrelas se perdiam na imensidão do espaço acima de sua cabeça. O brilho prateado e mágico a deixou paralisada e fascinada com toda aquela beleza, e ela ficou por alguns minutos fitando esse universo desconhecido das cidades. Que seriam aqueles pontos luminosos chamados estrelas? E os riscos incandescentes das estrelas cadentes? Do que se constituiria o espaço entre elas? Haveriam reinos ou deuses morando naquelas alturas insondáveis?

A menina voltou a casa e seus olhos vivos e bem abertos revelavam todo o deslumbramento que ela acabara de ter. A família indagou o porquê daquela euforia e ouviu que era por causa do céu. Não deram muito importância à menina. Mas antes de dormir, seu pai apegou-se às palavras misteriosas da menina. Caminhou um pouco e parou em um lugar descampado, cortado por algumas árvores. Quando olhou para cima, prontamente entendeu que era por essa imagem magnífica que sua filha havia ficado naquele estado.

Parado naquela noite agradável, dessa vez foi ele quem começou a refletir e a indagar e a imaginar. Lembrou-se de sua vida cotidiana, os carros passando, as pessoas passando, o chefe, os papeis, as chuvas, a morte. Tudo na Terra parecia ser marcado pelo movimento, pela mudança, pela imprevisibilidade e decadência. Mas aquele relance do universo mostrava uma calma regularidade e uma serenidade imortal. Noite após noite aquelas estrelas ainda estariam lá. Os anos do homem caminharam e os séculos passaram, e toda a história do homem se desenrolou, mas aqueles seres colossais sempre estiveram lá, observando do alto de sua atemporalidade a humanidade. A imagem noturna dos céus sugeria a própria eternidade.

Mas a par dessa impressão que teve, ele também sabia que a luz de cada estrela demora milhões de anos para atingir o céu terreno. Então concluiu que toda aquela bela imagem diante dos seus olhos não era mais que um retrato do passado, que sequer poderia existir naquele momento. Sim, olhar para cima era olhar para o passado, era enxergar a antiguidade de um lugar distante.

Tal era o paradoxo temporal de uma simples visualização do cosmos naquela noite aberta. Ao mesmo tempo em que parece pertencer a uma ordem atemporal e repousar na eternidade, o universo é também a cristalização de um passado distante, era a visão de coisas que talvez nem mais existam.

Além disso, a luminosidade mágica e misteriosa dos seres celestes contrastante com o escuro do espaço compõe o quadro de um lugar transcendente. Enquanto que a Terra é formada de pedras e pó, parece que são luzes concretas e especiais que constroem o mundo dos céus. Um mundo distinto. Devia ser por isso que os antigos localizavam nos céus a morada dos deuses.

Como se dando conta do tempo que estava ali, o pai de Júlia voltou apressadamente a casa. Entrou no quarto da filha, que já dormia, e riu para ela, sinalizando agora entender o que ela mais cedo dizia. E foi dormir. E certamente deve ter tido sonhos estelares com os altos céus.

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