terça-feira, 5 de julho de 2011

A torcida pela Copa

A péssima estreia do Brasil na Copa América, empatando sem gols com a Venezuela, traz à tona algumas questões. O time ainda não deslanchou após o Mundial do ano passado, e aqueles a quem se creditava o salvamento da pátria, Neymar e Ganso, tampouco fizeram algo de útil nos últimos jogos. A questão se agrava quando se considera que a seleção não participará das eliminatórias da Copa de 2014, e que terá apenas nas Copas América e das Confederações e em parcos amistosos a chance para se encontrar.

E como se avizinhando no horizonte dos anos, a Copa do Brasil suscita grandes riscos ao país. Primeiro, há um risco concreto de se assistir a outro maracanaço, episódio no qual duzentas mil pessoas se calaram no Maracanã quando o Brasil perdeu para o Uruguai a Copa de 1950. Os outros times vêm embalados: a Espanha, campeã mundial, lutará para defender o título; a Alemanha terá seus jovens talentos da última copa mais experientes; a Argentina, com o melhor do mundo, virá com uma motivação única de calar os brasileiros em casa. A seleção brasileira, por sua vez, carece de ídolos: Ronaldo se aposentou, Robinho foi a promessa que nunca se tornou realidade, Ronaldinho e Adriano sucumbiram em problemas pessoais, Kaká perdeu-se em lesões, Neymar e Ganso ainda não provaram seu valor na seleção e podem não resistir à pressão de levar a seleção nas costas. Ademais, jogar em casa pode ser uma grande desvantagem para os brasileiros. Enquanto que em outros países sedes toda a Copa é festa e a participação de suas seleções é aclamada pelas massas, aqui não se exige outra coisa senão o hexa, e esse com brilho. A pressão sobre os jogadores se tornará absurda.

Mas hoje em dia futebol não é apenas esporte, mas também negócios. E uma Copa equivale a negócios milionários, porque mobiliza toda a infraestrutura nacional, interferindo em aeroportos, transporte urbano e construção de estádios. A Câmara dos Deputados aprovou recentemente o RDC (Regime Diferenciado de Contratações), que permite flexibilizações nas regras de licitações públicas para as obras da Copa. O texto ainda está sendo debatido pelo Senado, mas já se visualizam dispositivos obscuros e brechas para a corrupção. Não é demais lembrar que a escolha do Brasil como sede deu-se em 2007, e que apenas agora, quatro anos depois, as mudanças estão sendo debatidas e as construções feitas. O superfaturamento, as fraudes e os desvios milionários se tornarão corriqueiros uma vez que a proximidade do evento demandará pressa e a construção a qualquer custo.

Além disso, alguns analistas temem que um “efeito grego” possa eclodir no país após a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. O caos econômico visto hoje na Grécia, com revoltas civis e risco de moratória, teve como grande indutor as Olimpíadas de Atenas em 2004. Na ocasião, a dívida pública grega aumentou bruscamente, e as construções empreendidas para a competição acabaram nos famosos “elefantes brancos”, porque os vultosos investimentos não produziram retorno econômico ou social.

O cenário pode ser mesmo desanimador e trazer mais prejuízos do que se imaginava. Mas diante de tantas possibilidades de resultados adversos, nessa Copa restará ao povo brasileiro aquilo que faz com maior paixão: torcer para que dê certo!

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