quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Londres sitiada



Perplexidade é o que melhor pode ser usado para descrever a reação do mundo aos protestos populares que sacudiram Londres nas últimas semanas. Tudo começou com um suposto assassinato de um jovem pela polícia londrina, o que desencadeou ondas de revoltas descontroladas.

Mas todos olhavam as cenas de pilhagem e violência e se perguntavam uníssonos: por quê? Que motivo levou jovens e velhos às ruas para saquear lojas de roupas luxuosas, para roubar televisões de plasma, ou para depredar restaurantes da high society? Os repórteres não sabiam ao certo, e produziam matérias sem explicação, como se as imagens do tumulto prescindissem de maiores explicações. A polícia londrina não sabia como agir, nem onde se concentrar. Os analistas culparam a crise econômica, essa crise que parece ser a resposta de todos os problemas.

Investigações ainda estão sendo feitas para explicar um fenômeno inexplicável, mormente quando se visualiza a sua ocorrência em um dos países mais ricos do mundo. Não obstante as divisões e particularidades que se possam ter, duas vertentes principais dominam as elucidações do tema.

De um lado, tem-se o determinismo, em qualquer de seus matizes. As ações dos homens são tidas como respostas involuntárias a questões estruturais não expostas na superfície dos fenômenos. Nessa ótica, as revoltas são apenas reações mais duras de uma massa que sofreu os efeitos de uma crise econômica causada por banqueiros; ou então de jovens que cresceram em uma sociedade extremamente consumista alijados desse processo de auto-realização pela compra.

Ao passo que no outro extremo tem-se a responsabilização individual e moral dos indivíduos. Sem desconsiderar as influências da miséria, do caos econômico, do déficit de representação política, ou da insatisfação social, em última instância é sempre o indivíduo aquele que responde por seus atos.

É certo que não há espaço para a sustentação radical de uma dessas duas propostas explicativas. No determinismo, não se fala em isenção total de culpa do indivíduo, assim como na responsabilização individual não se deixa de atenuar o julgamento pelas circunstâncias do fato. De todo modo, a preferência por uma dessas duas teorias influenciará grandemente no trato que se dará ao problema.

O premiê britânico David Cameron parece ter escolhido a segunda proposta. O político instituiu uma rígida política de tolerância zero. Quase três mil pessoas foram detidas, e montaram-se mutirões na justiça para acelerar os julgamentos. Cameron, segundo suas próprias palavras, tenta consertar o colapso moral que acometeu sua sociedade, promovendo uma responsabilização severa aos autores da balbúrdia.

Seus opositores tomam o lado do determinismo. Criticam as duras medidas e pedem a revogação dos cortes orçamentários em programas sociais, como se dizendo que os saques foram reflexo da omissão estatal nos problemas socias.

A bem da verdade, o que restou claro e inquestionável em todo o ocorrido foi a universalização do mal. Nas cenas deploráveis de vandalismo, não se viam favelas, mas as gloriosas e históricas ruas de Londres; não se viam assassinos inescrupulosos, mas pessoas sem antecedentes criminais em sua grande maioria; não se via um motivo justo e aparente, mas a pura brutalidade. Viu-se que a percepção da desordem e da impunidade libera um mal reprimido que existe em todos os homens, de todas as idades e todas as classes.

Explicações e teorias de lado, a perplexidade ainda permanece. Uma estupefação que nos deixa estarrecidos diante do mal que podemos fazer. Sem motivos, sem explicações.

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