quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Nosso Lar



O adágio “a esperança é a última que morre” hoje é jargão surrado, batido, e muitas vezes até bobo. É tão ultrapassado que não tem mais aquela sonoridade heróica e animadora. A exaustão do uso, entretanto, não retira a profundidade do significado.

A vida do homem não é perfeita e não haverá de ser. Na melhor das situações, a morte não permite essa empreitada. Mas não fica o homem à deriva das intempéries naturais nem sob o comando de seu instinto, sobrevivendo preso ao horizonte imediato do tempo e do espaço. Ele sonha, projeta, planeja. Olha com esperança para o amanhã, ansioso de que suas limitações um dia sejam superadas. Seja como uma força transformadora ou mero desejo ilusório, seja para esse mundo ou para outro, a esperança confere sentido a uma vida.

Feita essa breve introdução, concretizemos o assunto.

Não faz muito tempo e resolvi assistir o grande sucesso do cinema brasileiro Nosso Lar. Campeão de bilheterias, o filme rendeu críticas positivas e comentários nas rodas de trabalho. Baseado na obra de Chico Xavier, a história gira em torno de um homem que morre e vai morar em algo como uma cidade celestial, o nosso lar.

Antes de o filme começar, achei que o enredo se prenderia nessa cidade, a qual seria uma espécie de paraíso de purificação da alma até que ela pudesse reencarnar, ou mesmo o paraíso final para as almas que já tivessem alcançado a perfeição moral. Mas o filme se revelou surpreendente.

O protagonista André, quando chega à cidade celestial, ainda sente dores físicas e precisa de cuidados médicos. Sofre com a incerteza de sua condição e deseja notícias de seus familiares na terra. Procura ajuda. Conhece o governo da cidade, um governo mais burocrático que o brasileiro, pois conta com 72 ministérios, se não estou enganado. Querendo mandar uma mensagem para seus parentes, vai ao Ministério da Comunicação (algo como uma lan house divina), mas, posto não saber o que escrever, é encaminhado para o Ministério da Ajuda.

Quando sai do hospital já recuperado, André passa a morar de favor na casa de um amigo (o filme não deixa claro como se dá a aquisição de moradias, embora se tenha mencionado que seja um processo difícil). Em todo o filme não há a perda do vínculo com a vida na terra, e tudo orbita em torno disso, de modo que essa vida passada é tanto a fonte dos sofrimentos psicológicos dos habitantes da cidade como também a esperança final dessas almas.

Para se operar a reencarnação, deve-se entrar com um requerimento no ministério específico e aguardar na lista de espera (o que me fez pensar nos pobres coitados que morreram nas filas de hospitais agonizando na ineficiência pública – não obstante terem esperado tanto para morrer, agora têm que esperar de igual modo para poder reviver).

Após estar pronto e renovado moralmente, os espíritos concederam a André um presente: ele poderia finalmente visitar sua família na terra. A cena final do filme, não sei se era para ser o clímax, na verdade é um convite ao escárnio. O espírito do personagem entra saudoso em sua antiga casa, exalando virtude e amor... mas encontra sua mulher casada com outro homem. A risada é inevitável. Depois de um tempo remoendo o fato, André finalmente aprende a ser um bom homem e usa seus poderes mágicos de espírito para salvar a saúde desse homem.

Ao ver o filme, o espanto logo surge nos olhos, mais pela mensagem transmitida do que pela retratação dos céus como uma Brasília melhorada e sustentável. Afinal, como digerir uma crença que diz que além dessa terra de dores há um mundo melhor onde as pessoas sofrem e anseiam justamente pela vida que deixaram para trás? Um paraíso onde há dor física, onde há conflitos emocionais, onde as famílias se reencontram e revivem suas brigas passadas, administrado por uma burocracia de dar inveja a alguns políticos, onde se está condenado a assistir, seja pessoalmente ou mediante “teleconferências”, o infortúnio dos parentes que ficaram. Enfim, tantas desesperanças futuras que trazem a indagação de onde as pessoas tiram alguma mensagem positiva disso tudo.

Nesse mundo de almas imortais, encarnadas ou desencarnadas, a esperança parece ser a única que morre.

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