quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os Pais na Antiguidade

Diz-se que a expressão religiosa mais antiga do mundo tenha sido o culto aos mortos. Talvez porque a morte seja o primeiro e o maior dos mistérios com que se depara o ser humano, o homem passou a crer no sobrenatural e na vida pós-morte. Não era necessário que a pessoa tivesse uma vida honrosa para ascender à categoria de deus. Era suficiente a morte e a passagem para o outro mundo para que o indivíduo adquirisse um status especial, sendo um deus ou um demônio.

Desenvolveu-se, assim, o culto para aplacar a ira e atrair os favores desses entes espirituais. A própria palavra religião – religare, em latim – indica a natureza dessa atividade de religação com os que morreram. Mas essa religião era particularizada, pois que exclusiva dos membros de uma família. Clamava-se aos parentes mortos pelas bênçãos terrenas, primava-se pelo seu enterro próximo à casa da família para garantir a tranqüilidade de sua eternidade, ofereciam-se sacrifícios e libações para alimentá-los. Tal crença era tão forte que foi a religião antiga que definiu e regulamentou todos os planos da vida social: a família, a propriedade, o governo. (O indivíduo só tinha direitos na medida em que participava da religião).

Cada família, portanto, tinha sua própria religião, com seus deuses, ídolos e ritos peculiares. O sacerdote supremo desse culto aos antepassados, que era praticado não nos templos, mas nas casas, era o pater – o pai ou patriarca. Ele era o interlocutor com os deuses e era quem ministrava o fogo sagrado. Desse ofício sacerdotal é que derivou sua autoridade quase ilimitada na família: o patriarca era o juiz, podia decidir sobre a vida e a morte de sua família e seus servos; era o chefe, resolvendo sobre o futuro de sua casa e se relacionando com o mundo exterior; e era o proprietário, pois até a sua morte, todos os bens da família lhe pertenciam.

Toda a dinâmica social orbitava em torno do pater, daí a se dizer que era um regime patriarcal. Muitas ideias e até nomes vieram desse pai supremo, como pátria, patrão, patrono, patrício.

A pátria, por exemplo, terra patris, ou terra dos pais, era a terra sagrada onde estavam enterrados os antepassados de um indivíduo. Era uma porção de terra única em todo o mundo, pois somente ali, na terra dos pais, a pessoa tinha religião, tinha vínculo social, tinha direitos, tinha fé. A divindade não era universal, ela estava restrita ao solo sagrado da pátria. Por isso, o exílio era das piores penas aplicadas, pois, de uma só vez, excluía o indivíduo da vida civil e religiosa, condenando-o a vagar pelo mundo sem a proteção divina.

Quando a sociedade cresceu e as famílias se agruparam em clãs e tribos, o eixo do sistema ainda centrava-se nos patriarcas. Logo se criou uma distinção entre as famílias que descendiam diretamente dos pater, os patrícios, e os outros troncos familiares, denominados clientes. Os patrícios passaram a gozar de maior poder político e econômico dada sua proximidade com o patriarca.

Ter relação com o pai, para os antigos, era ter relação com os deuses, com a religião e o direito. Por isso as genealogias eram por demais importantes, pois conferiam dignidade a alguém na medida em que estabeleciam nexos entre o indivíduo e o ancestral. Os espartanos alegavam descender de Hércules, enquanto os romanos diziam vir de Eneias, um bravo sobrevivente da Guerra de Troia.

Até mesmo no Antigo Testamento pode-se ver essa importância dada aos patriarcas. Nota-se o esforço de Abraão para sair da casa de seus pais, sua pátria, e ir a outra terra, confiando em um deus que o acompanharia na empreitada. O povo hebreu se refere ao Senhor como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o “Deus dos seus antepassados”. As genealogias são o documento que atestam o valor e a unidade de um povo que tem em seus pais o símbolo da nação.

Esse era o retrato da sociedade antiga, na qual os pais gozavam de prestígio, poder e autoridade. Não obstante as transformações e diferenças, pode-se aprender com os antigos o grande valor de se ter um pai.



*Baseado em:
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga: estudo sobre o culto, o direito e as instituições da Grécia e de Roma. São Paulo: Hemus, 1975.

Um comentário:

Bruna disse...

Oh coisa linda! Adorei o texto e o apanhado historico. Eu sei que foi pro papai, mas ate ta parecendo que jaja voce vai ser papai