quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O trabalhador do 7 de setembro

Retornava ele para casa naquele ingrato dia de trabalho. Todos pelo caminho se divertiam e pareciam não sentir o cansaço que pesava sobre ele. Claro, naquele feriado da independência ele fora escalado para trabalhar. A maçante vida de um trabalhador.

A pele enegrecida e avermelhada indicava que aquele homem despendia suas horas de labor diário debaixo de sol. As mãos calejadas e a face sôfrega e marcada compunham o retrato daquele anônimo trabalhador do sete de setembro. A tarde já caíra, e era sob o crepúsculo que ele preferia andar até o ponto de ônibus, pois o frescor que vinha com a noite amainava a sensação do enfado. Em seu caminho avistou uma grande aglomeração de pessoas. Tomado pela curiosidade e pela vontade de aproveitar o espírito do feriado, ainda que na última hora, desviou-se de seu itinerário para ver o que estava acontecendo.

O palco armado suponha ser um espetáculo musical. Quando chegou mais perto, uma música estranha e sem letra percorreu-lhe os ouvidos. Avistou lá em cima várias pessoas de terno, sentados e tocando instrumentos estranhos. Achegou-se a um animado expectador e perguntou o que se tratava aquilo. Um concerto da orquestra sinfônica!

Pensou em retomar seu rumo e ir para casa. Nunca vira um espetáculo daquele e nem tinha vontade de ver. Mas alguma coisa o conteve, e ele sentou ali mesmo, na grama, e começou a ouvir a música. Nenhuma letra, nenhuma mensagem explícita, mas ainda assim a melodia embalava seus pensamentos. Aos poucos ele transcendia àquele plano limitado de sua rotina e vislumbrava a magnitude da vida. A brutalidade do dia a dia cedia lugar ao encanto; os ruídos do cotidiano suavizavam-se em música. O trabalhador do feriado da independência não sabia o que estava acontecendo: por que tantas emoções revolviam-se em seu peito, por que tantos sentimentos eram evocados pela doce melodia?

Sem saber o que se passava, e não tendo a pretensão de explicar com palavras aquele processo, apenas fechou os olhos. A leve brisa da noite tocou-lhe a face e ele sorriu. O rosto castigado e sério se abriu; o homem duro e empedernido foi sublimado aos altos céus e encontrou-se com a beleza. A beleza pura e concreta, não a adjetiva. Esse seu encontro arrebatador durou tanto quanto o espetáculo. No fim, ele levantou-se mais sábio e sereno, e dirigiu-se ao ponto de ônibus com a sensação de ter a alma lavada.

Adentrou aquele velho ônibus e sentou-se ao lado de um conhecido, que não havia trabalhado naquele dia, mas reclamava como se tivesse. O trabalhador do sete de setembro ouvia as críticas da vida e do mundo sem dizer palavra. Ao final, virou e lançou ao ar uma frase enigmática, como falando mais a si mesmo do que ao companheiro do lado: “O mundo precisa de arte”.


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