segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bem vindo ao Mundo

O choro forte de uma criança ressoa pela sala. O ser que estava mergulhado no ventre materno por tanto tempo é descoberto pelos outros de sua raça. O médico o analisa e não constata nenhuma deformidade. Aquele ser tão frágil e indefeso é limpo, envolto em panos e colocado nos braços de sua mãe. Dizem que o fato se deu nas Filipinas, mas poderia ser na Índia, ou na Rússia, ou em qualquer outro lugar... Eis o que se ouviu na ocasião:

“Bem vindo ao mundo, meu filho. Que esse ar entre em teus pulmões e insuflem em ti o fôlego da vida. Sei que ele não é tão puro quanto o teu corpo reclama, mas vás se acostumando porque é isso o que temos. És o caçula de uma grande família, filho. Tens outros sete bilhões de irmãos. Ah, desculpa, enquanto falava outros tantos já nasceram de modo que tu, para centenas, já és irmão mais velho.

Como ia dizendo, sejas bem vindo à vida. Abra os olhos e contemple o grande universo, do qual tu não passas de uma gota nesse vasto oceano dos homens. Veja as maravilhas da natureza e as maravilhas dos homens, veja as guerras, os desastres, as injustiças, os desentendimentos e desde já entenda que terás de lutar para prolongar tua existência. Terás de brigar por um bom lugar no quarto com teus irmãos; terás de descobrir um acesso à dispensa sempre cheia, mas fechada a muitos; terás de encontrar por si mesmo o caminho à biblioteca, ao escritório e à varanda.

Receba as minhas boas vindas com carinho, pois não as encontrará em todos. Malthus há muito já se preocupava com você, e preferia que você não tivesse nascido. Seu pai, serei franca, desejou abortá-lo. Eu mesma cedi às facilidades do método e quase o expulsei de meu ventre, fato só não consumado por acaso. Por acaso, aliás, tu nasceste. Mas agora, olhando para ti, vendo esse espectro refratário de tua íris, penso que seria mais por milagre que por acaso. De todo modo, tu saberás que algumas vezes a resignação atiça a curiosidade e se transforma em uma grande expectativa, razão pela qual tu, para mim, és bem vindo. Nem todos assim pensam, como já disse. A Terra te olha com pesar e os governantes com desconfiança. Para eles, és apenas mais uma boca para comer e mais uma boca para reclamar; para mim serás mais uma boca a sorrir. Para eles tu és problema; para mim e para Deus tu és uma existência distinta, especial, única.

Hoje, no dia em que vens ao mundo, milhares se despedem dele. Tantos aqui já existiram, já viveram, já andaram por essas terras e navegaram por esses mares. Não penses que serás diferente deles. Terás as mesmas paixões, as mesmas fraquezas, os mesmo vícios. Poderás almejar glória, honra, fama e notoriedade, mas verás que a gota que pula acima do mar em breve retorna à superfície das águas, indistinta e informe. Mal terás ouvido alguns parabéns, mal verás algumas primaveras e igualmente serás ceifado pela morte.

Sei o que pensas. Valerá a pena a jornada de um homem para ao fim tornar ao pó? Outros já se perguntaram: ser ou não ser? Não seria melhor ter tu dormido o eterno sono da inexistência a ter de sustentar uma vida para ao cabo de alguns anos perdê-la? Não! Valem todas as lutas, as dificuldades, as incapacidades, os mistérios. Melhor existir como um grânulo no universo a descansar como um colosso na não existência. Não existindo, nunca viveríeis o amor, a amizade, o prazer e a emoção de ser humano.

Não será fácil, mas essa é tua única vida. Não escolhestes o dia em que veio ao mundo, tampouco saberás o dia em que dele irás partir. Hoje és uma vida, amanhã serás uma história; comece já a escrevê-la.

No mais, conviva bem com seus irmãos. Os irmãos às vezes brigam, discutem e não se entendem, mas são irmãos. Quantos antes de ti já viveram para odiar, para matar, para contender uns com os outros... Eis aí Caim, o terceiro homem que veio à existência, segundo dizem, o primeiro a matar seu semelhante. Não sigas seu exemplo. Procure viver bem com todos.

Mas sede paciente, são sete bilhões. Agora que já fostes apresentado à vida, comece a vivê-la.”

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