quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Digressões



- Um sorvete, por favor.
- Calda de chocolate ou de morango?
Ele não estava esperando essa pergunta... Gostava mais de chocolate, mas saborear aqueles pedacinhos de morango não era má ideia; o chocolate era insubstituível, é verdade, mas às vezes ficava enjoativo, ao passo que o morango poderia melhor satisfazê-lo naquele fim de tarde. E agora, o que fazer? A vendedora o fitava com um olhar que o incomodava. A fila atrás dele crescia e o fazia sentir a pressão de sua demora.

Chamava-se Nivaldo. Era solteiro de meia idade e tinha dificuldades para tomar as decisões mais triviais e rotineiras. Tinha um olhar arguto para as coisas da vida, capaz de dissecar os detalhes. Mas o que para a maioria seria um dom utilizado para se obter sabedoria prática, para ele era maldição. Divagava demais e agia de menos. Sofria para escolher um prato quando ia a restaurantes. Tudo era levado em conta, a higiene do local, a sua vontade momentânea, o seu gosto regular, a companhia, a ocasião. Às vezes perdia horas do seu tempo livre pensando o que iria fazer, decidindo-se entre três ou mais opções de lazer viáveis.

Os que o conheciam não o achavam cauteloso ou medroso, tão-somente indeciso. De fato corria riscos e tomava decisões perigosas, mas é que se demorava demais para fazê-lo. Sem resolução para as coisas simples, adoecia com as complexas, delongando-se em digressões inacabadas. Cuidou o destino que Nivaldo se tornasse juiz. Mas não daqueles de toga que resolvem conflitos, e sim aqueles que correm pelos gramados com apito à boca. Nivaldo era árbitro de futebol, e dos bons. Como se adequou bem a essa profissão que exige reações rápidas é um mistério. Talvez porque ali, no calor do jogo, com os gritos apaixonados da torcida e os xingamentos dos jogadores, Nivaldo sentia-se compelido a decidir rapidamente e o fazia sem pestanejar. Era o autêntico trabalho sob pressão que tanto fazia bem ao seu caráter titubeante.

Mas volta e meia o drama diário da sua vida o acometia nos campos de futebol. A indecisão, aquela serpente letárgica que se enrolava em seu corpo e impossibilitava seus movimentos, vez ou outra o surpreendia nos jogos. Foi este o caso quando ele estava arbitrando um clássico nacional. A partida entre o time azul e vermelho estava quente, e a torcida ensurdecedora.

Lá pelas tantas da partida, um jogador do time azul partiu com a bola, rapidamente fintou dois jogadores e entrou pela lateral da área adversária se aproximando do gol, quando foi interceptado por um carrinho violento do zagueiro do time vermelho. Para os que viram a cena, não havia dúvida: pênalti. Mas sabe-se lá porque Nivaldo não apitou e mandou o jogo seguir. A bola nem havia chegado ao meio de campo e o árbitro já sentia o peso do erro. Realmente agira mal, e agora torcia para que o seu equívoco não influenciasse no resultado do jogo.

Foi aí que aconteceu uma jogada muito semelhante a anterior, com a exceção de que agora era o time vermelho que atacava. A mesma jogada, a mesma falta, o mesmo lugar, mas o time diferente. Como decidir nessa situação? A torcida urrou clamando por justiça; os jogadores se dirigiram a ele como que exigindo o mesmo critério utilizado na jogada anterior, e nesse momento o tempo parou. O drama da indecisão estava ali; as frias escamas da serpente comprimiam seus músculos. Poderia seguir o mesmo juízo de antes e não marcar a falta. Mas ele mesmo já admitira que havia errado – seria justo basear-se em um erro como critério? Não erraria ele duas vezes agindo assim? Sim, era melhor marcar o pênalti e dar por encerrado o caso da jogada anterior. Por outro lado, seu papel como árbitro era ser imparcial, e por isso o erro dobrado era um mal necessário para evitar a influência no resultado. Talvez o melhor fosse mesmo mandar o jogo seguir e ignorar a falta. Pensando bem, marcar o pênalti dessa vez mostraria que ele não se dobrava aos apelos da torcida e dos jogadores, que ele tinha personalidade...

Sucedeu, porém, que o tempo voltou a se mover, e ele voltou a ouvir os urros da torcida e sentir a aproximação dos jogadores. Instintivamente, correu para longe dos outros jogadores e mandou o jogo seguir, mais como uma atitude de autodefesa do que propriamente uma decisão tomada. A reclamação foi geral, e sua mãe ouviu poucas e boas naquele dia. Finalmente, o jogo terminou empatado, e após algum tempo os dois erros daquela noite foram esquecidos, e Nivaldo continuou com seu prestígio de bom árbitro.

- Escolhe você! Foi o que ele disse afinal à vendedora do sorvete, abstendo-se da difícil escolha entre a calda de chocolate e de morango...

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