terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Questão dos Índios

Imagine você que às margens de um rio do Brasil viva uma pequena aldeia. Descendem de serviçais da esquadra de Cabral que se fixaram no interior e ali ficaram. O isolamento do lugar fez com que se desenvolvesse lá uma cultura peculiar, diferente do restante do país. Há de fato algumas manifestações artísticas interessantes, modo de vida distinto do nosso e até religião própria. Mas as inovações do desenvolvimento não lhes beneficiaram, e por isso eles padecem em doenças e em uma economia de subsistência que os prende até hoje na pobreza e na miséria. Imagine, também, que o governo do país tenha levantado um muro ao redor dessa área, impedindo que qualquer um se aproximasse desse povo. A justificativa da medida é antropológica: deve-se proteger uma cultura genuinamente nacional.

Agora, troque essa pequena aldeia dos antigos serviçais de Cabral por índios, e o exercício de imaginação não é mais preciso. A prática nacional revela essa política governamental que constrói muros ao redor de tribos e os concede os mais absurdos benefícios em detrimento do restante do país, provocando, ainda, conseqüências perversas aos próprios índios.

Há que se ter em conta o seguinte: ação afirmativa que se justifique para sanar uma dívida histórica redunda apenas em injustiça presente. É o caso das cotas para os negros, por exemplo.

É verdade, foi uma atrocidade o que os descobridores da América fizeram com os nativos desse continente, o extermínio dos incas, dos astecas, dos cherokees, dos moicanos, dos tamoios, dos tupis. Mas daí ao tratamento devido aos índios hoje em dia no Brasil é um acinte. Deve-se rechaçar qualquer tentativa de extermínio desses grupos, deve-se impedir as invasões agressivas às suas terras, garantir-lhes o direito à vida, saúde e cultura – como a qualquer outro brasileiro.

A segregação legal, social e ideológica que se tem feito com relação aos índios gera dois efeitos, cada qual com conseqüências inversas aos índios e à sociedade. O primeiro deles é a condenação ao exclusivismo cultural, o que é demasiado prejudicial aos índios. Para o governo e alguns pseudo-intelectuais, qualquer alteração substancial da cultura indígena é tratada como um ato atentatório contra a imagem nacional, um crime que faz sangrar a gloriosa história do Brasil e dos índios. Por isso se recriminam missionários que tentam “catequizar à força” algumas tribos, por isso são censuradas obras de integração em áreas indígenas como rodovias e ferrovias, por isso ainda se fecha os olhos para a prática de eugenia exercida em algumas tribos. Aliás, esse último caso é curioso, pois a pretexto de resguardar a cultura indígena, o governo se abstém de intervir no assassinato de crianças que nascem com algum defeito físico e são enterradas vivas.

O intercâmbio cultural, diga-se de passagem, é responsável pelo aprimoramento de condutas, técnicas e conhecimentos que leva o mundo ao desenvolvimento. Difícil imaginar o império romano sem a tecnologia naval fenícia, a idade moderna sem as inovações chinesas do papel e da pólvora, a revolução científica sem a matemática árabe, os direitos humanos sem a moral cristã. Impedir o contato, o intercâmbio e a assimilação de valores ocidentais pelos índios é, como já dito, criar um muro de isolamento. Além do que idealizar as tribos indígenas em seu estado de pureza pré-colombiano é de uma ingenuidade no mínimo burra quando se observam muitos deles de shorts, assistindo televisão e se embebedando em bares próximos.

O segundo ponto consiste na concessão de privilégios a esse grupo específico. Se o isolamento dos índios prejudica-lhes o desenvolvimento, faz ainda pior à sociedade. Entraves à construção da Usina de Belo Monte, guerra contra os garimpeiros, expulsão e posterior redução à miséria de agricultores da Reserva Raposa Serra do Sol apenas para que os índios possam ter áreas contínuas de preservação são só alguns exemplos. De um lado, populações ribeirinhas que vivem em escassez e agricultores que só tem na terra a fonte de sustento. Do outro, tribos indígenas e, o que é pior, militantes idealistas. Por que a escolha justa recai sobre o segundo grupo? Apenas pela raça. Que tem um índio melhor que um indigente que sobrevive à beira de um rio? A cultura e a condição de “ser índio”.

Já é tempo de destruir os muros e, se for o caso, convidar os índios a conviver na nossa urbana civilização ocidental, sem isolamentos, sem privilégios. Chega dessa visão rousseauniana do bom selvagem. Morte aos mitos tornados em heróis nacionais de Iracema e do Guarani.

Um comentário:

Bruna disse...

NOROESTE NÃO,NOROESTE NÃO!
haha cantei isso na UNB...Morri de rir quando vi o texto.