terça-feira, 22 de novembro de 2011

Lula e Goebbels: quando as verdades se tornam mentiras




Não importam os esperneios ou convulsões, as articulações ou lutas que empreendem os homens públicos para construir sua reputação. No final, todos serão julgados por uma mesma senhora, antiga, impessoal, inescrupulosa: a história. Os que entendem a constituição desse tribunal depõem suas armas no enfrentamento da verdade e cuidam para agradar, convencer e manipular a história a fim de que ela lhes seja favorável.

É o que fez mui sabiamente o ex-presidente Lula quando conduziu o país por oito anos. O operário que chegou ao Planalto criticado no primeiro ano, acusado de continuísmo e rompimento com a base eleitoral que o elegeu, terminou sua jornada nas alturas da popularidade. O rigor na política monetária o credenciou junto aos setores financeiros; crescimento econômico, programas sociais e expansão do crédito fizeram a alegria das classes baixa e média; a projeção internacional do Brasil, por fim, valorizou a autoestima do brasileiro.

São marcas incontroversas de seu legado. Mas há um lado nefasto nessa sala de troféus e medalhas, onde são acorrentados fatos e verdades inconvenientes. Em um canto está preso o insaciável Mensalão, esquema de corrupção jamais visto na história brasileira. O dinheiro sujo proveniente de contratos superfaturados com as empresas do senhor Marcos Valério era utilizado para fechar a contabilidade do PT e comprar os votos da base aliada.

O que mais admira na prática criminosa deflagrada em 2005 não é o que ou quem ela corrompeu, mas a corrupção que gerou. O Mensalão serviu para institucionalizar o fisiologismo político, para agregá-lo à articulação política como uma coisa normal e corriqueira, para dar suporte à “governabilidade” exigida num presidencialismo de coalizão. Se o toma-lá-dá-cá do fisiologismo sempre existiu na política brasileira, antes ela era velado, escondido, típico de quem faz algo errado com a consciência de que é errado.

Lula ultrajou o respeito à ética. Escusou os malfeitos com o papo do “nunca antes na história desse país” e da governabilidade. Roubou mas fez bem para o povo. E nisto está a gravidade de sua corrupção. Quando o ladrão convence a si mesmo e aos outros de que faz um mal por um bem maior, transforma-se num monstro sem limites. O ex-presidente misturou inclusive argumentos religiosos na sua lógica fisiológica. Segundo ele, se Jesus Cristo vivesse nos dias de hoje, teria que fazer aliança com Judas para poder governar. Triste afirmação de alguém que se diz católico. Jesus Cristo viveu também em um ambiente conturbado sob o jugo do império romano, onde brigavam dois grupos distintos do judaísmo, os fariseus e os saduceus. Mesmo assim, não cedeu a nenhum desses três partidos; morreu íntegro, “deposto” pela oposição, mas sem abrir mão de sua santidade e conduta ética.

Certamente, o Mensalão e os subprodutos que dele vieram são uma mácula detestável do governo Lula. Ex-presidentes mitificados pelas massas não conseguiram apagar de suas biografias os borrões que as enfeavam. Getúlio, o pai de todas as conquistas trabalhistas, o debelador da República Velha, é também o caudilho, o ditador, o fascista dos trópicos. JK, o visionário desenvolvimentista, aquele que modernizou o Brasil, é também aquele que surrupiou os cofres públicos para a construção de Brasília, cobrando das gerações futuros o preço de sua glória. Méritos e deméritos compõe a biografia desses homens.

Mas Lula, como hábil político, tem exercitado uma campanha de manipulação da história a fim de demover dela os seus malfeitos. José Dirceu e os 40 ladrões julgados pelo STF conseguiram protelar o julgamento até hoje, aproximando-se com isso da prescrição. Enquanto isso, voltam do ostracismo aqueles que haviam sido defenestrados pelo escândalo mensaleiro. Delúbio Soares foi reintegrado ao PT, Vicentinho se elegeu senador, e o próprio Dirceu como que montou um centro de poder paralelo ao de Dilma, despachando com senadores, deputados e empresários em hotel de Brasília. E os adeptos do lulismo acreditam piamente que tudo não passou de intriga da oposição.
Tentativa de golpe promovida por uma imprensa suja e suspeita. O amplo esquema de compra de apoio da base com dinheiro público lavado não passou de uma ilusão criada pela mente fértil de Roberto Jefferson e amplificada pela imprensa golpista.

Quando a história começa a ser recontada e se procede à escolha oficial dos fatos que entrarão e os que não entrarão na história do país, passa a ser verdade a assertiva de Goebbels, ministro de Hitler: uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade. Lula tenta a via oposta: uma verdade desmentida mil vezes torna-se, afinal, uma mentira.

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