quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nudez, temor e encobrimento


Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas. Hebreus 4:13

Como percebendo-se em estado de nudez após comerem do fruto proibido, Adão e Eva fizeram para si trajes com folhas de figueira para encobrirem as suas vergonhas. Ao ouvirem os passos de Deus no jardim, temeram e procuraram lugar para se esconder. Em vão. O Senhor os achou. Adão tentou se explicar: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.”

Nudez, temor e encobrimento – qual seja a fórmula da vida do homem após a queda. Exposição constrangedora do ser; medo de ser descoberto nesse estado; tentativa de ocultar dos outros a real condição de si. Cobrir as vergonhas do corpo, cobrir as vergonhas da alma. Os trajes e as máscaras tecidas pelo orgulho escondem do mundo um espírito corrupto, a degradação do ser, o pecado, a morte.

Os compromissos e afazeres cotidianos escondem toda a monotonia de uma vida esvaziada de significados. O deboche, a ironia e o riso que fazem de tudo motivo de piada ocultam na verdade um coração que amarga tristeza e chora por dentro. A falação irrefreada e a boca sempre aberta a cuspir palavras e opinião escondem o medo que se tem do silêncio e de sua reflexão. O compartilhar devassado da vida, a exposição virtual de fotos, de momentos, de ideias, as amizades que se travam em eletrônicos, tudo apenas engana a solidão desesperadora que encontra a todos, se não em vida, ao menos na hora da morte. O andar confiante e cheio de si, o olhar que de cima desdenha os outros, o espírito que se considera inatingível por exortações alheias, por dogmas e moralismos, julgando-se a si mesmo a medida de todas as coisas, não é outra coisa senão o arrastar trôpego de um cego que tateia em meio ao deserto.

Temi, porque estava nu, e escondi-me. Mas Deus, para quem todas as coisas estão encobertas, enxerga o homem no íntimo do ser e perscruta as intenções do coração. Para onde fugir da presença dele? Para as altas montanhas, para as profundezas do abismo, para as asas da alvorada? Deus encontrou Adão em sua nudez pecaminosa. Jesus deparou-se com lajes ornamentadas e floridas, mas que continham nada mais que ossos secos – eram os fariseus procurando para a nudez da alma o abrigo da religiosidade. Sepulcros caiados, raça de víboras.

Às vestes feitas por Adão ou ao poder dos governantes, à religiosidade dos fariseus, à sabedoria dos gentios ou à riqueza da Igreja de Laodiceia, o Senhor emite um decreto que ecoa para todos os homens em todos os tempos: “não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:17). O luxo da indumentária ou as artimanhas do caráter não encobrem a miserabilidade deste ser decaído e orgulhoso a que se chama homem. O traje do orgulho esconde tão-somente a humilhação do pecado e da morte.

E afinal, é apenas quando se apercebe desse seu real estado que o homem vislumbra a ocultação de sua nudez. Não quando ele se veste ou se esconde, mas sim quando se despe do velho corpo da carne é que ele acha a paz. É quando prostrado, sem forças, envolto na lama de sua condição, ele simplesmente clama: “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados” (Lucas 15.18-19).

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