sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

2011: O ano que não terminou

Um clima de descontentamento paira no ar. Os dias têm sido agitados. O que será que andam suspirando pelas alcovas, que andam sussurrando em versos e trovas? Um motim silencioso toma conta das ruas; daqueles em que não se precisa combinar nada, ou falar nada, e ainda sim consegue, pela mera troca de olhares, pela sensação comum, captar a adesão de multidões em protestos mundo afora. Um breve período de tempo mas que valeu por meio século. Assim foi 2011, o ano que viu eclodir movimentos e revoltas, ideias e reformulações, que haverão de impor novos rumos aos homens.

 
Grandes eventos da humanidade às vezes se reúnem no curso de um ano, conforme o registro da história. Talvez o último desses grandes anos foi 1968. Tempos difíceis, dividido entre superpotências, perdido entre ideologias, preso a autoritarismos, imobilizado por uma cultura rígida. E então o grito contido se soltou com estridência, um grito de rock’n roll, de contracultura, de paz, amor e liberdade. No inverno europeu assistiu-se à Primavera de Praga, e todas as universidades do mundo presenciaram protestos e agitações estudantis.

Vivemos tempos semelhantes. Tempo de mudanças que mudarão a cara do mundo. Um mundo, diga-se de passagem, que nunca mais foi o mesmo desde aquele 68. A sociedade moderna forjada desde a revolução industrial dobrou-se à força das ideologias. Fordismo, igreja, cultura, verdade, um a um foram caindo os paradigmas sobre os quais se fundava o mundo moderno. Superação e desconstrução foram as palavras de ordem para levar a história à idade do pós-moderno. E o que conquistamos, afinal?

A ampla liberdade gozada pelos homens cobrou o preço da segurança e da estabilidade. Essa nova sociedade é de fato líquida, como definiu um de seus filósofos contemporâneos. A fluidez da atualidade enterrou a clivagem objetiva que tínhamos em um passado recente. Não há mais dualismos, não há capitalismo e socialismo, direita e esquerda, masculino e feminino. Os espaços são difusos. As abundantes ideologias morreram, faltam palavras e ideais para as novas gerações. Como se disse uma vez: “chega de ação, queremos discursos!”.

Se em 1968 lutamos contra a rigidez da modernidade, em 2011 lutamos contra a indefinição da pós-modernidade. É verdade, o Oriente Médio ainda lutou contra ditaduras. A Primavera Árabe provocou levantes na maioria dos países islâmicos. Mubarak, Kadafi e outros foram destituídos, Assad ficou para o ano que vem, em um prolongamento de 2011. Mas e então, que será feito desses países? O ideal democrático do século XIX já se desfez. Faltam ideias, predominam os riscos. Risco de que a Primavera Árabe acabe por fomentar o autoritarismo islâmico e acabe em teocracias radicais.

É assim que as lutas se travam e se travaram nesse 2011. Sem uma definição concreta do inimigo, muito menos uma solução clara a se apresentar. Apenas um sentimento de indignação contra o estado das coisas. E vários indignados saíram às ruas na Espanha, ocuparam Wall Street, saquearam Londres, protestaram no Chile e marcharam em passeatas contra a corrupção no Brasil.
 
Esses movimentos todos escondem a falência da pós-modernidade. Há muito se constata uma crise na democracia representativa. A classe política, a velha classe política está desacreditada e desautorizada a representar seus eleitores. Se vale de instrumentos antigos para resolver problemas novos e complexos. A crise da dívida nos Estados Unidos deu o tom de como a falta de consenso da classe política pode produzir consequências devastadoras. O fisiologismo político no Brasil, especialmente evidenciado nesse ano, deixou claro o poder dos partidos, que criam verdadeiros feudos na administração pública. E a inação dos políticos da União Europeia pode rachar a integração construída por décadas.



Os indignados com a política tradicional se perguntam: enfim, quem são os verdadeiros representantes do povo? Serão os partidos, os sindicatos, a mídia? Ou será que com a integração da internet será possível reproduzir a ágora grega em um retorno à democracia direta? Será o Facebook a ferramenta catalisadora que faltava nesses novos tempos, uma vez que ali nasceram as passeatas contra a corrupção no Brasil e teve início as revoltas árabes?

Enquanto isso a crise econômica se agrava. A social-democracia faliu na década de 1970, e o neoliberalismo sucumbiu nos últimos três anos. Qual será a via escolhida daqui em diante? Ao mesmo tempo em que o Bem-Estar Social perde conquistas importantes pela necessidade do rigor fiscal, o Estado não abre mão de maior intervenção nos mercados e de instrumentos anticíclicos. Ainda assim, o hibridismo dessas ações estatais não tem sido capaz de acabar com o desemprego e sepultar com a farra dos mercados financeiros.

Algo está errado. Não se sabe exatamente o que ou como mudá-lo. Talvez seja muito cedo para proferir essas avaliações, talvez as mudanças não ocorram nos anos vindouros. Mas o certo é que para os que viveram esse ano, 2011 foi o tempo em que o mundo andou agitado. Tempo em que o inconformismo com a pós-modernidade tomou corpo e voz e gritou seu descontentamento. Será agora a vez da pós-pós-modernidade? Não se sabe. Aliás, pouco se sabe das coisas, de perguntas e respostas. Apenas se sente no ar.



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