segunda-feira, 19 de março de 2012

Açoites e prisão na Macedônia

Quando a porta do cárcere se abriu, dois homens foram lançados no canto daquela cadeia e ali tiveram os pés agrilhoados. Os andrajos ensangüentados causaram curiosidade nos outros presos, que imaginavam a gravidade do crime desses homens para que fossem tratados com tal crueldade. A prisão interior era local fétido e insalubre. As poucas frestas da porta consistiam na única passagem de ar da masmorra; por isso a atmosfera ali era densa e pútrida, exalando o mau cheiro dos dejetos e das feridas dos prisioneiros.

Os dois homens recostaram-se à parede e abraçaram as pernas junto ao peito, como buscando dar ao corpo o repouso que necessitava. As túnicas rasgadas e embebidas de sangue pendiam soltas, e era possível vislumbrar a pele vergastada pelos açoites, as feridas abertas, a carne viva. Além do severo açoite, os homens haviam sido atacados pela feroz turba da cidade em um princípio de linchamento, de modo que não apenas o dorso, mas todo o corpo latejava com a dor.

Após algum tempo o sangue começou a secar sobre os vergões, aumentando ainda mais o desconforto. Os lábios rachados revelavam a carência de água. A garganta seca ainda sentia o gosto do sangue.

Alguém observou muito bem os pés daqueles homens. Pés empoeirados e feridos, calçando sandálias de couro tão gastas a ponto de rachar-se. Soube-se depois que eram profetas de um deus, um deus-homem mais propriamente, e percorriam as vastidões do mundo a anunciar suas crenças. Soube-se também que foi por esse motivo que haviam sido lançados no cárcere.

As horas transcorriam mui lentamente naquele ambiente escuro e pesado. Embaixo da terra, esquecidos do mundo, cada prisioneiro agonizava a sua dor e aguardava a execução. Quem sabe a morte não seria melhor destino do que prolongar aquele suplício infindável. De fato, muitos ali tinham sido esquecidos e apenas esperavam o esgotamento das forças. A desesperança era o traço comum de cada olhar. Mas não daqueles dois.

Realmente algo os distinguia dos outros mais do que a recente surra. Mesmo cansados e feridos o semblante permanecia firme. Quem sabe estivessem absortos no propósito de suas vidas. Por que, afinal, cada suspiro era uma luta, e a luta a que fim levaria? O que estava se passando na cabeça daqueles homens era mesmo uma incógnita. Vontade de desistir, incredulidade ou o sentimento de abandono, tudo era possível naquela condição.

Já era quase meia noite daquele dia interminável. A exaustão dos corpos ainda não tinha vencido a consciência – os dois estavam acordados. E de repente os lábios se movimentaram como querendo dizer algo. O movimento criou uma expectativa geral no cárcere; todos queriam ouvir o que teriam a dizer os dois homens. Súbito seus lábios irromperam em hinos de louvor. Sim, doces melodias saiam de suas bocas, músicas de adoração ao deus a que serviam. Pasmos, os outros apenas observavam aquela cena insólita, enquanto as notas ressoavam nas masmorras. Conforme a música preenchia o lugar e vibrava as cadeias, com mais e mais força eles cantavam e entoavam hinos, em melodias e louvores altissonantes.

E então era como se não houvesse mais dor ou desconforto ou grilhões ou cadeias. Os olhos fechados, o peito cheio de fôlego e a garganta a vibrar com os cânticos compunham corpos arrebatados na transcendência do espírito. No meio dos hinos um forte estrondo. E depois um forte tremor, do chão e dos alicerces. Que poder seria aquele. O mundo tremeu por um momento, pedras caiaram e, ao final, os grilhões se soltaram e as portas do cárcere se abriram. Quem eram aqueles homens?

Atos 16

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