sexta-feira, 20 de abril de 2012

A nossa face externa

Quem votou na presidente Dilma acreditando no argumento de boa gestora hoje vê o erro. Presidente da República não é servidor nem ministro para ficar destrinchando orçamento ou gerindo obras. A função mais alta do Executivo envolve muitas outras coisas, dentre as quais as relações exteriores. É uma responsabilidade imensa o fato de que apenas uma pessoa, com seus vícios e virtudes, carregue o peso de representar os interesses de uma nação.

E nesse assunto, em que pese as trapalhadas do Itamaraty, o ex-presidente Lula saiu-se muito bem. O quadro aparentemente é ruim: as relações com os Estados Unidos foram quase rompidas em nome de uma excludente ideologia sul-sul; remamos contra a maré para nos aproximarmos do Irã; demos voz a Chávez e sua turma bolivariana na América Latina; acovardamo-nos diante de Lugo e Morales na renegociação de Itaipu e na estatização da Petrobrás na Bolívia; criamos encrenca com a Itália para dar abrigo a um terrorista sem expressão política... E não obstante, o Brasil brilhou nos últimos anos.

Apesar dos erros notáveis, o carisma de Lula fez o mundo conhecer a imagem do Brasil e se interessar por esse país que cresce cada vez mais. Difícil esquecer o ex-presidente comemorando como se fosse um gol a escolha do Rio como a cidade olímpica de 2016, ou mesmo a veneração com a qual lhe tratou o francês Sarkozy. Mas levar a cabo uma política externa totalmente dependente da pessoa do seu interlocutor é coisa perigosa pela possibilidade de descontinuidade.

E eis que quem herdou a glória de expor o Brasil ao mundo foi Dilma Rousseff. Sim, teremos os maiores eventos mundiais nos próximos anos, a começar pela Conferência Climática Rio +20, em junho, passando pela Copa em 2014 e terminando com as Olimpíadas em 2016. Os olhos do mundo se voltarão para cá. Mas não apenas isso. O mundo já entendeu a importância estratégica do Brasil. Não é à toa que a maior autoridade do mundo, o presidente Barack Obama, se apressou em visitar o Brasil, e, como não bastasse, mandou sua Secretária de Estado logo depois.

Ora, agora temos em mãos a oportunidade de nos projetar internacionalmente com resultados concretos. Podemos reparar o erro ideológico e voltarmos a investir nos EUA (a farra dos brasileiros em Miami e arredores está aí para provar o interesse dos brasileiros nessa empreitada). O assento no Conselho de Segurança já é mais factível e a atuação como player global está mais próxima.

E o que a nossa presidenta tem feito? Bom, ela inaugura a Assembleia-Geral da ONU e canta ao mundo o seu samba de uma nota só: a luta das mulheres. Ela vai a Cuba, e, em plena ditadura de Fidel, prefere atacar os americanos em Guantánamo a levantar uma crítica aos irmãos Castro. Ela vai à Alemanha e reclama que manobras no câmbio dos países ricos têm causado prejuízo aos países emergentes... Ora, com a Europa em crise ela pensa sinceramente que os europeus vão se importar com os nossos prejuízos externos? Um pouco depois e ela aparece na Casa Branca, conversando com Obama. E o que ela diz? Que manobras no câmbio dos EUA têm causado prejuízo aos países emergentes! Tivesse ela sido tratada com a mesma cortesia que dispensa a jornalistas receberia um seco “So what?”.

Fora que, em se tratando de carisma, Dilma é a antítese de Lula. Suas falas são robóticas e sonolentas, quando não enfadonhas. O semblante fechado e o porte sisudo não são convidativos de relações bilaterais mais próximas. E os que defendem essa feição mais durona, fazendo comparações com Thatcher ou mesmo Angela Merkel, erram na avaliação. Não se ignora que a resposta contundente e a ação enérgica sejam virtudes da liderança. Mas em relações internacionais as coisas são mais complexas – por um lado, deve-se agir com delicadeza quando se quer atrair a simpatia e o investimento de outras nações; se o objetivo for a liderança, reclamações reiteradas são inócuas se não vierem acompanhadas de soluções.

A imaturidade política de Dilma é em grande parte responsável por esse travejamento nas relações internacionais. A culpa que resta pode ser atribuída ao ranço ideológico que ainda influencia o Itamaraty. De todo jeito, essa é a nossa face externa. Por isso, ou a presidenta muda seu jeito ou estamos condenados a nos apequenar novamente.


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