terça-feira, 29 de maio de 2012

Duas cidades, duas revoluções


Cidades são mais que ajuntamentos de pessoas. O entrelaçamento das histórias e vidas de seus habitantes tampouco basta para explicar a dimensão que um lugar ostenta, porque, é certo, em algum tempo ele adquire personalidade própria. E aí já não se fala sobre os habitantes da cidade. É a cidade que tem uma história, um jeito, uma fisionomia. E como há pessoas grandes e de renome, também há cidades grandes com histórias gloriosas.

Paris e Londres estão no topo da hierarquia das grandes. Antigas e belas, as duas cidades são organismos vivos, e falam através de suas pedras, de suas esquinas, de suas praças. As duas foram palco de acontecimentos que marcaram o mundo e delinearam suas próprias feições. Impossível andar pelas ruas ali e não sentir o ar das revoluções e o peso do sangue derramado para construir novos paradigmas. A Revolução Francesa e a Revolução Industrial ocorreram ambas no conturbado século XVIII, o século do Iluminismo, mas ressoam até hoje.

A Revolução Industrial não teve data certa de início e de fim. Começou sorrateiramente, impulsionada pelo desejo de lucro e pelas inovações científicas. E logo Londres estava cinza, enegrecida pela poluição do carvão que queimava e girava a roda do capital. Milhões de trabalhadores confinados em fábricas, servos do dinheiro e do tempo. Vários magnatas e senhores dos negócios trabalhando para que a mão invisível pudesse alimentar a ganância e forjar mercados.

Paris, por seu lado, celebra o 14 de julho de 1789, o início da Revolução Francesa. O movimento possui delimitação temporal porque foi naquele final de século que as mudanças eclodiram, como se o caldeirão das revoltas estivesse esquentando há muito tempo, e só começasse a ferver naquele período. Filósofos e intelectuais montaram o alicerce, e logo todo cidadão de Paris tinha sua demanda política para acabar com o Ancien Regim e reformular a sociedade, numa empreitada pretensiosa e idealista. A cidade estava cheia de artesãos do novo mundo.

E hoje você anda pela Cidade-Luz e se depara com os característicos prédios de 6 andares com suas fachadas decoradas e tons pastéis, encontra inúmeros palácios e monumentos e em qualquer parque e jardim topa com uma estátua – a arte transpira naquele lugar. As margens do Sena guardam encanto e mistério que atraem apaixonados do mundo inteiro, e não é à toa que Paris é conhecida como a cidade mais romântica do mundo. Arte e romantismo. Uma combinação que ecoa dos gritos apaixonados dos revolucionários que queriam esculpir nas rochas do tempo liberdade, igualdade e fraternidade. E Paris é a cara desse idealismo melancólico, de ruas estreitas e boêmias, das muitas pontes a cruzar o rio, do som dos acordeãos a inspirar o amor, da elegância da torre ao dominar o panorama da cidade.

Londres é uma cidade que respira dinheiro. Bancos do mundo inteiro têm filiais ali. E o que chama mesmo a atenção da vista é a famosa City, com seus arranha-céus bonitos e concentrados. Um passeio e logo se tem a magnitude da cidade, que é imensa e parece não encontrar limites definidos, assim como o capital que ali se abriga. Os prédios típicos com seus tijolinhos vermelhos exprimem uma arquitetura austera e funcional, aliás, como tudo na cidade. A moeda dividida em pounds, pence e xelins, a agitação das ruas e a poluição sentida de cara confirmam o cotidiano vivido em torno do deinheiro. Fora que a cultura pop domina a cidade, tocando músicas e anunciando filmes rentáveis para a indústria do entretenimento.

Cada cidade gera filhos diferentes. O parisiense é um artista, independente, estiloso, apreciador da vida, às vezes mal-humorado como se importunassem a sua arte. Já o londrino é um trabalhador, calejado, rígido e pontual, mas quase sempre gentil e dócil.

Duas cidades, duas revoluções. Acontecimentos que aprofundaram feições na história e deram a cara de Paris e Londres.

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