quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Fosso Psicológico

Quem nunca se deparou com um desânimo momentâneo, uma tristeza que chega sem avisar e tira cores e sabores de um mundo belo. Pode ser a chuva, mas muitas vezes está sol. Pode ser o tédio, mas em muitas ocasiões há diversão. Não há motivo aparente. Tão rápido esse sentimento se instala, também ele vai embora, sem mais nem menos. E esse é um dos mistérios do espírito humano, tão profundo que nem mesmo nós conseguimos visualizar lá embaixo.

Psicólogos e psiquiatras contribuíram muito para o nosso auto-entendimento. Mas erram por querer categorizar as mínimas nuanças da mente humana, como querendo prever o imprevisível.

O erro, camuflado sob uma roupagem científica e médica, é fatal. Aprisiona milhões de almas em uma ditadura de diagnósticos e remédios utilizados para violentar a humanidade de cada paciente. Os distúrbios psicológicos existem, mas banalizá-los é um desserviço que se presta à sociedade.

Especialmente um diagnóstico tem se popularizado entre amigos e conhecidos: a depressão. Um estado permanente de desânimo e apatia, afetando o raciocínio, o apetite, a libido e o sono, a depressão tem sido chamada de mal do século. E o problema está justamente na vontade que se tem em caracterizar esse estado como doença, e não meramente como tristeza.

O que se faz, na verdade, é jogar a pessoa em um fosso do qual não há saída. Tristeza todos temos. Tristeza sem motivo também. Trata-se dos mistérios do espírito humano; vicissitudes de uma vida difícil, de intercorrências, de relacionamentos, de imprevistos. E então lutamos contra o tédio e a apatia, vencemos a preguiça, achamos graça de coisas bobas, fazemos novos amigos. A vida prossegue.

Sob o rótulo de uma doença, contudo, declara-se a derrota de antemão. Porque doença pressupõe algo externo, combatido com remédios. O músculo, então, desiste de erguer o corpo, como se a força brotasse de pílulas; e a alma abandona a procura por satisfação, esperando que o prazer de viver volte com a serotonina injetável.

Mas esse não é o pior, porque, sim, há casos graves, em que o tratamento psicológico com auxílio químico é necessário. O pior é o poço sem fundo criado para o paciente. Afinal, quando se está curado da depressão? Quando você acorda feliz e realizado na vida? Quando a segunda-feira não mais o incomoda? Quando você dá pulos de alegria ao se deparar com um final de semana chuvoso e sem nada para fazer?

Uma vez tarjado com a doença da depressão, a pessoa levará até o túmulo esse fantasma sombrio. Não há cura. O que outros interpretam como um desânimo ou uma simples tristeza, aquele que um dia já foi depressivo encara como uma recaída. E a vida se transforma num teatro de superficialidades, de sorrisos fingidos e diversões encomendadas, porque ao menor sinal de que a alma está cansada, a depressão – a doença – estará à espreita para devorar o indivíduo. Não há mais como sair desse fosso psicológico. A cura, quem sabe, está mais próxima da falta de diagnóstico do que dos medicamentos prescritos.

 Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

(Vinícius de Moraes)


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