sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Salvação pelo Rock

Pode ser o garoto calçando All Star e vestindo a camisa do Led Zeppelin. Pode ser a menina de preto, cheia de piercings e que passa alheia com seu fone de ouvido. Pode também não ter nenhum dos estereótipos, e ser aquele que em sua casa baixa músicas pelo computador. O que há de comum nessas figuras, além do gosto pela música, é o ideal romântico. Não há contradição em dizer que rockeiros estranhos são românticos, porque o rock, bem como a música em geral, ainda carrega o ideal romântico de dois séculos atrás.

Após o processo de secularização da sociedade, a ciência ocupou o papel redentor dos anseios humanos. Mas alguns jovens pelo mundo teimaram em aceitar essa nova crença, e fundaram a religião do amor e da alma. O movimento ainda descendia das revoluções contra o ancien regim, mas passou a trilhar outra direção.

Não seria mais a razão o atributo humano a ser exaltado, porque a nossa capacidade lógica e racional criava apenas a ilusão da ordem em um mundo caótico. O que realmente nos faz humanos é o sonho, a imaginação, a emoção, o instinto, a arte. O homem é uma criação de sua própria subjetividade, e por isso importa explorar as sensações, magnificar os sentimentos, cantar a emoção que se passa nas cavernas da alma.

Assim, o mundo passa a ser uma projeção do nosso ego, refletindo uma realidade inventada para se conformar aos nossos ideais. Sobretudo, precisamos de ideais. O amor, a pátria, a liberdade ou o belo, não importa o fim, porque o que vale a pena é morrer pelo que se escolheu viver.

E nada exprime melhor nossa inventividade ilimitada, nosso ímpeto criador do que as artes. Nas letras ou nas músicas, o homem inventa com liberdade seu mundo particular, emanando beleza e possibilidades. A realização estética é a nova bandeira pela qual lutamos. A redenção do homem virá da sublimação artística; a transcendência será alcançada pelo êxtase a que nos leva as experiências estéticas. Nietzsche, o filósofo, acreditava sinceramente nisso, tanto que afirmou que "a arte existe para que a realidade não nos destrua".

Desnecessário dizer do fracasso desse pensamento, já que o ideal romântico não sobreviveu às vanguardas europeias do início do século XX. Mas se o movimento perdeu força, não desapareceu totalmente da história.

Hoje não se luta mais contra o cientificismo impessoal de outrora, e sim contra as duras sentenças do existencialismo. A arte retoma seu papel místico de recriação da realidade, dando sentido aos desesperados. Acima de tudo a música assume tal papel. Não surpreende, por isso, que tantos achem a razão e o propósito de suas vidas em bandas de rock, que o jogo de luz e cores nas mega performances leve ao êxtase espiritual, que a experiência ultrassensitiva e surreal das raves arrebate as massas.

Os músicos são os profetas de nosso tempo, imprecando gritos de protesto que ecoam entre os jovens. Essa religião é desinstitucionalizada, sem dogma ou liderança, e também é sincrética, adotando santos e mártires pelo mundo. Decerto, o interesse comercial tira muito da santidade dessa arte. Basta ver o movimento hippie transformando-se em moda nos anos 70, ou o movimento indie do final dos anos 90 repercutir até hoje com a moda xadrez. Normal, toda crença tem seus adeptos não praticantes.

Mas muitos ainda esperam que a salvação venha pelo rock ou pela música. A elevação espiritual que a harmonia proporciona passa a ideia de que o mundo será redimido por um solo de guitarra.

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