sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sexta-feira


Os olhos se abrem de manhã e lá fora as árvores tremulam com o vento. Todos os dias são assim. Mas hoje elas parecem dançar em coreografia ensaiada, embaladas por uma sinfonia que toca não sei de onde. Lá fora passam carros e pessoas, indo e vindo. Todos os dias a mesma cena. Mas hoje elas parecem diferentes, cada qual com uma agitação interior, um brilho distintivo nos olhos, cada qual se dirigindo a um lugar especial, a um grande evento talvez. Também há a impressão de que a gravidade deixa de lado aquela força bruta com que puxa os homens e lança mão de um toque suave para conter as seduções do voo, presenteando-nos com certa leveza no andar. Talvez seja só impressão, mas dá para sentir essa atmosfera festiva envolvendo a todos.

Hoje não é um dia como outro, porque hoje é sexta-feira. A dualidade do fim e do início. A justaposição entre o feito e o possível; encerram-se dias de sacrifício, vislumbram-se tempos de liberdade. Todo o peso de uma semana de trabalho e afazeres e compromissos se esvai na matéria polvorosa da sexta-feira, que à menor faísca faz explodir momentos comuns em rompantes de alegria.

A sexta-feira tem aquele delicioso sabor da expectativa por atender, do sonho ainda não realizado, quando o tempo da espera é mais precioso que o momento da consumação. É aquele tempo eternizado da paquera antes do namoro; aquela troca de olhares, o coração palpitante, o sonhar acordado, a imaginação idealizando o real e construindo um amor infinito dentro da mente. É o primeiro dia das férias escolares, quando as crianças chegam da última aula e lançam mochilas e cadernos em um canto da casa e se esquecem de provas e deveres, tendo à frente um horizonte sem fim de coisas para fazer, de brincadeiras por brincar e dias a se divertir. É a demorada ida de uma viagem, que custa a passar, mas que é acompanhada pelo desejo de ver o novo e pelo ânimo de viver novas experiências. É o cheiro convidativo de uma comida na hora da fome, é a insinuação sedutora antes do prazer.

Na vida há coisas que valem mais quando ainda não estão completas. Coisas cuja graça está muito mais no antes que no depois, coisas que têm a sua beleza no sonho e seu encanto na expectativa, mais do que na realização. A sexta-feira é dessa categoria de coisas. Hoje as mesmas coisas estão diferentes porque a liberdade nos chama, porque a sexta-feira é o melhor do fim de semana.

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