quarta-feira, 4 de julho de 2012

Crônicas de um futuro próximo - Parte 3

Após o longo percurso dentro de seu automóvel, João finalmente chegou em casa. As coisas estavam tão confusas que ao menos lá dentro ele se sentia seguro. Girou a chave duas vezes para trancar a porta e foi direto tomar um banho. O barulho da água caindo no chão o isolou dos ruídos e do caos da vida lá fora.

Ao sair, deitou-se na cama e passou a assistir televisão ao lado da mulher. João, porém, não conseguia relaxar a mente, o filho estava ouvindo música em volume tão alto que atrapalhava o descanso dos pais. João levantou-se e foi repreender o menino, que tinha então 13 anos. A porta estava fechada, e João torceu para que o filho a abrisse. Bateu à porta mas não teve êxito. Foi apenas quando falou o nome do filho que este correu para abrir a porta.

João disse “Vítor, meu filho, abra a porta, por favor”. Esquecera-se que seu filho Vítor agora era Brown. “Não tem nenhum Vítor aqui! O meu nome é Brown”. E fechando a porta na cara do pai, Brown voltou a ouvir sua música. João admitiu o insucesso da abordagem e voltou para o quarto, tentando se acostumar com o barulho alto. Não tomaria nenhuma atitude porque ele mesmo reconhecia o erro, já que desrespeitara o filho.

Vítor nascera branco, como os pais. Mas desde cedo tendia para hábitos negros. Ouvia hip-hop, gostava de ler as poesias de Castro Alves, interessava-se por capoeira e tinha por ídolos James Brown e Zumbi. O gosto pela cultura negra evoluíra de tal forma que Vítor pôs na cabeça que era um negro nascido em um corpo branco. Um acidente da natureza tinha-lhe retirado da pele a melanina que abundava no espírito.

Por volta dos 10 anos, Vítor tomou a decisão de mudar sua identidade. Queria ser reconhecido como negro. Sabia que suas raízes vinham da África e sentia correr nas veias o black power. Reuniu-se algumas vezes com as psicólogas da escola, que aprovaram a ideia. A mãe também embarcou na decisão do filho. Só o pai, João, que ficou um pouco reticente. Vítor mudou o nome para Brown, em homenagem ao rei do soul James Brown, passando a adotar como lema a música do ídolo que embalou o movimento negro nos anos 1960: I’m black and I’m proud. João nunca se acostumou a chamar o próprio filho de Brown, o que fazia a relação entre os dois se desgastar cada vez mais.

Algo dentro de João lutava contra esse fato. Ele bem sabia que a personalidade é uma construção social, que o indivíduo não nasce pronto, que ele é um reflexo do que a sociedade lhe impõe. Ele aceitava que as pessoas eram autônomas para refazer suas identidades. Tantas vezes ele presenciara mulheres em corpos de homem e vice-versa que realmente acreditava naquilo.

Ora, bastava lembrar os memoráveis Jogos Olímpicos de 2020, quando o primeiro transgênero pôde competir na categoria adequada. Um nadador australiano havia provado de forma consistente que sua mente de fato era de mulher, e por isso foi autorizado a competir na categoria feminina. O ouro conquistado por ela se tornou símbolo dos novos tempos, tempos em que as constituições biológicas não eram mais limites às feições que poderia adquirir a personalidade. O sexo biológico não tinha mais a ver com a identidade de gênero, porque essa última era uma questão de escolha individual.

Brown não era o primeiro a mudar a identidade biopsíquica de branco para negro. Muitos antes dele provaram o erro da natureza e puderam, por exemplo, concorrer às vagas destinadas aos negros nos vestibulares e concursos públicos.

Mesmo aceitando todos esses argumentos, João, no íntimo, discordava deles. Mas a vontade de se aproximar do filho era maior do que a força de suas ideias, e por isso ele aceitava tudo o que se dizia sobre a psicologia da personalidade para melhorar a relação com o filho.

Naquele dia, porém, cometera o grave erro de chamá-lo Vítor, e sabia que ao menos por algum tempo não haveria perdão. Assim é que tentou dormir, tendo ao fundo o alto som da música que vinha do quarto do filho negro.

 
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