segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Filantropia Midiática

As dúvidas éticas e as escolhas morais do novo milênio cingem-se por um parâmetro básico e supremo: a busca da felicidade. Tudo aquilo que sirva para o prazer pessoal, a auto-realização e a alegria individual, sem prejudicar os outros, considera-se como o guia da ação do homem moderno. Enfim, o mundo se assumiu egocêntrico, deixando de lado deveres e obrigações que exijam renúncia e abnegação para erigir um culto ao bem-estar.

Mas não há como dizer que não existam boas ações nesse mundo viciado. Elas existem, desde que não custem muito tempo ou dinheiro ou qualquer outro bem do indivíduo. Por isso a virtude sofreu uma metamorfose. Ela não atende a um apelo do dever, do tipo kantiano, que faz porque deve fazer. Os deveres morais estão mortos, ou pelo menos muito enfraquecidos. A virtude no século XXI se manifesta quando a moral do bem-estar é instigada e convencida a ingressar em determinada causa.

Tome-se como exemplo a caridade, que, sob o paradigma cristão, apresentava-se fortemente como um dever dirigido à consciência e uma virtude cardeal. Hoje ela ainda é uma virtude, mas uma virtude transmudada: se dirige aos sentimentos, procurando tocar a alma pelo apelo dramático e emocional.

É sob esse pano de fundo que se entende toda a filantropia midiática exposta em nosso meio. Não se apela mais aos sermões e aos pregadores; a experiência altruísta tem que ser prazerosa, extasiante, cheia de variedades e divertimento. A caridade virou um negócio econômico, com shows, engajamentos artísticos, campanhas televisivas. A adesão moral a essas empreitadas dependem do nível dos artistas e da qualidade do espetáculo.

Quem perscruta a fundo essas mudanças culturais é o filósofo francês Gilles Lipovetsky. Para ele, essa moral do sentimento, que atende a apelos dramáticos, é efêmera. Ela “não culpabiliza, não dá lições de moral, sensibiliza, misturando o bom humor e os soluços contidos, as variedades e os testemunhos íntimos, os triunfos desportivos e as crianças enfermas”.

E assim somos levados pelo exibicionismo dramático, pelas trilhas sonoras emocionantes, pelos jingles cantados por famosos, pelos testemunhos comoventes, até que, na velocidade da mudança de canal, esquecemo-nos do sofrimento das crianças da Etiópia para assistir aos gols da rodada.

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